Lições de jornalismo em tempos de crise
19 de outubro de 2001, 0:00Livro de Nilson Lage é um guia para a nova geração de repórteres e redatores – passa longe do didatismo, sugere técnicas de apuração com internet e reafirma o valor da ética no bom e velho jornalismo.
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Uma das características mais inquietantes dos meios de comunicação nos últimos anos é a quantidade de informação. Com o dilúvio de dados que recebemos todos os dias de um número cada vez maior de mídias e veículos e de tipos cada vez mais variados, às vezes parece impossível selecionar, entre tantas informações, as mais relevantes e verdadeiras. E, se para os consumidores de modo geral, uma seleção desse tipo parece uma tarefa absurda, o que dizer de quem transmite as informações?
Como o jornalista do século XXI lida com o processo de transmissão da notícia para o público? Ainda há lugar para o profissional que corre atrás da notícia e a transmite para o público? Neste "admirável mundo novo" da comunicação, qual o papel do repórter? As respostas para estas e outras perguntas para jornalistas em tempos de crise podem ser encontradas em A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística, de Nilson Lage (Record).
Jornalista com mais de quarenta anos de profissão e autor de Ideologia e técnica da notícia (Insular/Edusfc) e Estrutura da notícia (Ática), Lage concebeu A reportagem quase como se fosse um livro–texto para as faculdades de jornalismo. Professor de técnicas de jornalismo na UFF (Rio de Janeiro) e na Universidade Federal de Santa Catarina, foi neste último curso (entre 1992 e 1999), que Lage recolheu o material para seu livro mais recente.
Mas Lage passa bem longe do didatismo: as 183 páginas de A reportagem são diretas e claras como uma matéria bem escrita, e não deixam nenhum dos pontos principais escaparem à atenção do leitor. Está tudo lá, desde uma breve viagem pelos primórdios da profissão de repórter até os tempos do computador e da internet, passando por tópicos básicos (mas aparentemente ainda tão pouco estudados para os profissionais de jornalismo das novas gerações) como elaboração de pautas, fontes de informação e teorias da comunicação, técnicas de entrevista e a ética na profissão.
Um diferencial importante do livro está em seu tratamento da internet como uma nova mídia. No capítulo Reportagem Assistida por Computador, Lage não perde tempo discutindo a validade da rede para pesquisa e apuração de matérias, ao contrário: aprofunda–se na questão, dissecando todas as ferramentas de software que o jornalista eficiente deve utilizar em seu ofício nos dias de hoje, como planilhas de cálculo, bancos de dados e o uso de técnicas específicas para uma apuração mais abrangente com o auxílio da internet.
Lage fecha o livro com um apêndice fundamental para quem está dando os primeiros passos na profissão, ou para quem nem mesmo saiu da faculdade. Em "A Formação Universitária dos Jornalistas", transcrição de uma palestra proferida no II Encontro Latino–Americano de Professores de Jornalismo (realizado em 1999 em São Paulo), ele ressalta a importância da não–militância para o jornalista e o desenvolvimento de uma persona profissional que permita "registrar os fatos e as idéias do nosso tempo com honestidade, concedendo à fonte o direito de ser como é e ao público o direito de escolher de que lado ficar."
Lage encerra o livro defendendo a formação universitária dos jornalistas, mas admitindo a ineficiência da grade curricular atual e propondo ele próprio um novo modelo, que seria composto de 50% de disciplinas técnicas, 10% dedicados a teorias de informação e de comunicação e 40% ao provimento de informações "amplas, honestas e equânimes" sobre os fatos atuais.
O grande mérito da abordagem de Lage em A reportagem é a constatação de que, mesmo que a mídia digital evolua, a profissão permanece; ela evolui e se adapta a novos tempos e novas técnicas, mas jornalismo é jornalismo: ele continua sendo a busca pela notícia – ou pela verdade. Mas sem esquecer a ética. [web insider]

