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A mentira.com e a verdade dos números

14 de agosto de 2001, 0:00

Opinião: este mercado maravilhoso e real está no buraco porque muitos planos de negócios foram baseados em números estapafúrdios chutados por estagiários de institutos americanos.

Por Nenhum

Marcelo Ballona

Poucas pessoas gostam tanto da web quanto eu. Estive desde o começo da época de bbs, no nascimento do que se tornou a indústria da web.

Em 1997 sai pela Mandic/Garantia para comprar provedores de acesso em todo o país, junto com o Octavio, que é hoje o responsável pelos investimentos pontocom da GP. Sempre que chegávamos aos finalmentes, nossa proposta aos provedores era que arcassem com a despesa da auditoria caso houvesse uma diferença real de mais de 20% entre o número de usuários informado e o número real. Não preciso dizer que ninguém topou.

Ouvi coisas do tipo tenho 15 mil usuários e quando íamos ver eram 3 mil, cada um com cinco e–mails. Alguns anos mais tarde, same bullshit, another mouth, ouço agora que publicidade online esse ano vai faturar 240 milhões!??????

Onde está esse dinheiro? Todas as pontocoms que basearam seu modelo de receita em publicidade estão esfomeadas e a AMI me fala que existe um banquete. Então digam onde!

Quem emitiu uma nota fiscal de mais de R$ 1 milhão levante a mão! Qual é a agência que emitiu mais de R$ 10 milhões em PIs? Aí vejo a "pesquisa" de um Instituto adiantando que teremos 35 milhões de usuários em quatro anos…

Vamos às contas de português de padaria:

1. Se o UOL, que é líder e dominante, tem um milhão de assinantes, juntando Terra e IG e os outros (AOL, Inter.net, osite), temos algo em torno de três milhões.
2. Se os pequenos tiverem mais 1,5 milhão, somos 4,5 milhões.
3. Somados aos usuários corporativos, que também participam do primeiro bolo, vamos arredondar a conta para 7 milhões…

As pesquisas apontam 10 a 14 milhões? Onde estão estes internautas? Zipados em um arquivo?

O total de usuários domésticos nos EUA cresceu 63% nos últimos dois anos, segundo relatório da Nielsen NetRatings. Nos últimos 12 meses, o crescimento registrado na população online americana foi de 16%. De acordo com a pesquisa, 58% dos americanos tem acesso à web em casa – contra 52% há um ano e 39% em julho de 1999.

Agora me expliquem como nós morando no terceiro mundo (coitados de nós) poderemos crescer mais do que os Estados Unidos? Será que nossa classe média é maior que a deles? Duvido!

Se somarmos o database do Submarino com o da Americanas com o do Amélia e fizermos um purge não temos mais que 500 mil consumidores online, o que é um número maravilhoso! Se pegarmos as pesquisas dos últimos três anos para compará–las veremos uma discrepância absurda. Qual o comprometimento destes números com a verdade.

Digo a vocês claramente minha opinião: esse número de mentiras exacerbado é o que levou esse mercado maravilhoso e real ao buraco em que se encontra. Todos basearam seus planos de negócios em números estapafúrdios gerados por institutos de pesquisas que tinham suas sedes nos EUA e por conta do Brasil deveriam ter um estagiário recém saído de uma faculdade.

Tanto aqui quanto no EUA o problema foi o mesmo, excesso de otimismo baseado em números imaginários. Todos prometeram em seus business plans de ecommerce x milhões de consumidores online; todos prometeram em seu business plan de conteúdo uma audiência x e um volume mensal de $ em mídia online y.

Ninguém chegou na meta, sabe por que? Porque a meta era inexistente e impossível, daí o desânimo dos investidores quando chegaram ao primeiro quarter, ao ver que os números não batiam com o prometido e principalmente com o "mercado prometido".

O desânimo foi crescente em reuniões de conselho; por mais que se mostrasse resultado, era um resultado fraco e insuficiente. Por que isso? Porque os números prometidos são os números da mentira. Está na hora do mercado começar a pensar na realidade e parar de prometer o pote de ouro que não podemos entregar.

Aliás, podemos até entregar, mas com uma quantidade de ouro compatível com o que se pode retirar da mina, nada mais.

Um número espetacular

Vejam como exemplo o Submarino, que tem 350 mil clientes. Quantas lojas vocês conhecem com tal número de clientes em menos de um ano de vida? Eu não consigo encher uma mão, são três maracanãs lotados de clientes que foram atendidos e compraram online, utilizando cartões de crédito, débito e depósito.

Junte aos da Americanas e aos do Amélia e são no total quase meio milhão de consumidores mensais dos sites.

Vamos imaginar que no Brasil se tenha 500 mil consumidores de web, o que é um número maravilhoso e um universo onde pode se começar a projetar uma lucratividade, como o Ponto Frio, por exemplo. Se imaginarmos que o número real de usuários é de sete milhões, são quase 10% que compram online.

É um número espetacular. Se os resultados de clicktrough e de audiência online fossem estimados por seis ou sete milhões, e não por quatorze milhões, os resultados financeiros seriam mais plausíveis e provavelmente não assustariam os investidores.

Uma rádio com uma rede nacional deve faturar algo em torno de R$ 1,5 milhões por mês de publicidade. Quantos portais faturam isso com publicidade pura e simples mensalmente? Dos provedores de conteúdo/games/entretenimento que conheço, a maioria se mata para fazer R$ 50 mil mensais.

Onde estão os R$ 20 milhões mensais que a AMI diz que o mercado vai faturar este ano? Quem é o cliente que esse ano vai gastar mais de US$ 10 milhões de dólares em mídia online? Por favor me citem apenas um. Seria mais sério e palpável os números fossem reais e traduzissem o mercado real do dia–a–dia dos pequenos sites se matando para vender mídia nas agências para pagar salários (o que não acontece na maioria das vezes) ou mesmo dos grandes sites tentando fazer acordos com empresas não pontocom, por preços que sabemos serem diferentes dos anunciados.

Números reais possibilitariam aos investidores enxergar algum futuro e saída para os investimentos deles. Se o mercado olhar para si mesmo e enxergar que aparenta 120 quilos, mas pesa somente quarenta (sabemos que estamos falando das permutas), será mais fácil ver um futuro para o nosso mercado de internet. Não leve um peso pena para uma luta com o Mike Tyson.

Não agüento ver as mentiras publicadas e o mercado se afundando por não chegar nunca a meta nenhuma, pois são fruto de uma imaginação que não conhece absolutamente o dia–a–dia de uma empresa de web. Ou assumimos que não sabemos o tamanho real do mercado (ou assumimos a verdade), ou aceitamos qualquer mentira e vamos continuar brincando de web.

Vi a Mandic em 1997 com seis mil usuários de bbs e hoje vejo um mercado com seis milhões de usuários e um crescimento de 100 mil % em quatro anos (o que em qualquer mercado é absurdo; fico feliz). Reconheço que esse número "me cheira bem" e prefiro confiar na minha experiência diária de cinco anos do que em números produzidos em Miami…

Não adianta achar que o nosso filho é o mais inteligente e contar isso para a vizinha. Enquanto ele não fizer MBA em Stanford e sair em primeiro lugar você não passará de mãe coruja. Temos de deixar de ser corujas e aceitar nosso filho do jeito que ele é, mesmo que não tenha MBA em Stanford, não seja loiro, não tenha olhos azuis e nem seja alto.

Eu luto por um mercado justo e firme, com números realistas nos quais podemos contar para tomada de decisões corretas e verdadeiras. O dinheiro voltará a aparecer, eu garanto, mas apenas para aqueles que demonstrarem seriedade e credibilidade.

A mentira tem pernas curtas e mostrou isso a todo o mercado. Números mirabolantes em pesquisas que custam US$ 20 mil só deram dinheiro a alguns institutos, que com tais números ajudaram a tirar o dinheiro do nosso mercado.

E todos aqueles que fugiram na primeira trovoada (os oportunistas, os MBAs, os consultores) não terão espaço na nova internet, verdadeira, bem sedimentada em números reais com os profissionais que realmente abraçaram esse mercado e olharam de frente a sua realidade. [web insider]

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Comentários

1 pessoa comentou o artigo "A mentira.com e a verdade dos números"

Ceila Santos Data: 29/04/2008 às 11:54 pm

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Oi Marcelo, tudo bem?
Achei seu artigo de 2001 e gostaria de saber se ainda enxerga o mercado tão hiper inflacionado nos números de usuários e seus respectivos faturamentos. Já vi anúncios de CPM pelo valor de 90 reais e outros pelos valores de 25 reais. essas são faixas realmente pagas pelos anunciantes?

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