A Teoria da Relatividade a seu alcance
30 de julho de 2001, 0:00Matemático americano lança a mais inusitada biografia da história da ciência e consegue explicar Einstein para leigos. Leitor tem a chance de conhecer a Física de forma inteligível e divertida.
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Tudo começou, acreditem, com Cameron Diaz: ao ler uma entrevista com a atriz, o matemático e físico americano David Bodanis viu que ela demonstrava curiosidade em saber o que realmente significava a fórmula E=mc2.
Bodanis jamais soube se ela falava a sério ou não, mas era tarde: inconformado com o fato de que a maioria dos livros que tentam explicar a famosa equação de Einstein aparentemente não atingem o público leigo, deu tratos à bola e escreveu o livro E=mc2 (Ediouro) usando um jeito original de falar de um assunto explorado exaustivamente, mas ainda fascinante: a Teoria da Relatividade.
A forma que o matemático encontrou para atrair a atenção do leitor foi desviar o foco normalmente usado pelos biógrafos: em vez de falar exclusivamente de Einstein e de como ele chegou à fórmula, Bodanis escreveu uma biografia da própria fórmula! O matemático recorreu ao expediente divertido – e muito eficaz – de traçar os antecedentes dos elementos que compõem a equação E=mc2. Energia, massa e velocidade (o "c" é do latim celeritas, o leigo finalmente fica sabendo) são dissecadas em uma linguagem fácil e atraente, bem como as biografias dos cientistas que criaram esses termos ou que contribuíram para que um dia eles viessem a fazer parte da equação einsteiniana.
Ele não poupa nem o sinal de igualdade (=), explicando sua origem tipográfica (criação do inglês Robert Recorde em 1543) e até mesmo semiótica: na verdade, o símbolo que usamos diariamente para identificar o resultado final de uma operação matemática significaria não exatamente uma igualdade rígida, mas um efeito meio transcendente, algo maior que a soma de suas partes. No caso de E=mc2, que acabaria liberando a energia contida no átomo, nada mais verdadeiro.
Michael Faraday e Antoine Lavoisier são alguns dos personagens mais interessantes do livro, que conta como estes dois cientistas superaram diversos obstáculos para realizar suas descobertas. Faraday, que descobriu a relação entre a eletricidade e o magnetismo, começou a trabalhar como aprendiz de encadernador na Londres dos anos 1810 e teve de passar por muitas humilhações até ser reconhecido e elogiado no fim da vida não só por seus colegas cientistas, mas como personalidades como Charles Dickens.
Já Lavoisier não teve a mesma sorte: austero e arrogante, o homem que descobriu o princípio da conservação de energia (resumido na famosa máxima "na natureza nada se perde, tudo se transforma") viria a ser preso e decapitado na Revolução Francesa, por sua desastrada idéia de criar barreiras de pedágio para forçar todos os habitantes de Paris a pagar impostos.
Mas isto é só o começo. A leitura reserva mais surpresas, como a relação que o filósofo Voltaire tinha com a ciência através da figura de sua amante Emilie du Châtelet, uma das primeiras pesquisadoras. Bodanis não esquece o sexo feminino, tão injustamente relegado a segundo plano na história da ciência: além de Châtelet, as vidas de Marie Curie e Cecília Payne e suas contribuições para E=mc2 (a primeira, descobrindo a radioatividade, e a segunda, a composição química do sol) também são mostradas com toda a atenção que as 319 páginas do livro permitem. É pouco espaço para muitos dados, mas Bodanis consegue fazer o milagre de transmitir informação relevante de forma sucinta, inteligível e prazerosa.
A linha do tempo por ele proposta se detém em Einstein e na criação da fórmula propriamente dita e segue em direção ao Projeto Manhattan e aos cientistas que criariam a bomba atômica, como Robert Oppenheimer e Edward Teller, terminando com as contribuições do cientista e dublê de escritor de ficção científica Fred Hoyle e do astrofísico Subrahmanian Chandrasekhar na descoberta dos buracos negros.
Mas a parte sobre Einstein não é menos interessante. Apesar de não conter novidades com relação a outras biografias exclusivamente voltadas para o cientista (com destaque para Sutil é o Senhor, de Abraham Pals e Einstein: His Life and Times, de Philipp Frank, esta escrita em 1947 e que o próprio Einstein apreciava), o livro explica por que a teoria no início se chamava Teoria dos Postulados Invariantes, e que o mito de que a equação era ininteligível foi criado a partir da péssima cobertura de um jornalista do New York Times que estava no lugar certo, na hora certa, mas era o profissional errado para a tarefa (era repórter de golfe).
Estas e outras curiosidades, todas pertinentes e quase sempre engraçadas, dão o tom light do livro, que tem um site para complementar. Além de conter o currículo do autor, americano nascido em Chicago e que conduziu durante muitos anos uma pesquisa sobre história intelectual na Universidade de Oxford, o site contém adendos ao livro, na seção de mesma nome.
Ali, no link The Promised Notes (As Notas Prometidas), Bodanis conduz ao leitor a notas que fornecem detalhes mais aprofundados sobre o conceito de relatividade, mas sem cair no linguajar estéril dos livros acadêmicos. Como o próprio Einstein fizera na década de 30 ao escrever o ainda hoje imbatível A Evolução da Física, em parceria com Leopold Infeld, Bodanis vai direto ao assunto e usa o mínimo de terminologia científica. Na parte ligada à beleza, ele fala de tópicos como "porque a criatividade de Einstein acabou" e compara Enrico Fermi a Charlie Parker ao falar de como o ambiente em que você vive é determinante para a formação do seu talento.
No entanto, a grande estrela é de fato o livro. Que deve ser lido num fôlego só, quase como um romance de aventura (vocês podem achar essa comparação meio absurda, mas leiam a passagem referente ao esquadrão norueguês que foi enviado em uma missão suicida para impedir a fabricação da bomba atômica alemã e vejam se é exagero), altamente recomendável para todas as idades. Ciência e arte, neste caso a literatura, poucas vezes estiveram tão harmoniosamente juntas. [web insider]



1° Míriam Data: 25/11/2006 às 4:02 pm
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O artigo, por si, já apresenta, de forma simples, esses conceitos tão importantes para a compreensão da Física. Imagina-se, então,a leitura do livro E=mc2, o qual, pelo artigo, é incentivado. São fantásticas essas pessoas que importam-se com a educação ao público leigo.Parabéns!