Divulgação de AI é mais virtual que o virtual
17 de julho de 2001, 0:00Sites fictícios criados para a divulgação do novo filme de Spielberg sobre inteligência artificial mexem com a imaginação, em interessante campanha publicitária que usa estratégia de desinformação.
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O mais recente filme de Steven Spielberg só estréia por estas bandas no dia 7 de setembro, mas até lá os fãs não têm do que se queixar: a estratégia de marketing que envolve o filme contou com o auxílio da internet de forma bastante inteligente.
O site oficial do filme é bem bacaninha: quase todo em flash (rápido de carregar e com um design limpo e eficiente), contém as tradicionais informações sobre o filme, além de entrevistas com atores, storyboards e fotos, e o indefectível trailer. Só que, além desses dados obrigatórios, ele contém um algo mais que ajuda a aumentar o interesse do espectador em potencial pelo universo em que se passa a história. Textos explicando o que são inteligências artificiais, pequenas entrevistas com experts da área, e até uma simulação do teste de Turing, onde você pode conversar com um chatterbot (veja ao lado, sobre a Sete Zoom).
Mas o mais curioso é o que não está no site. Através de informações disseminadas no trailer, o espectador atento começa a montar um grande quebra–cabeça, onde o mais importante está disperso pela rede. Na parte dos créditos, damos de cara com algo muito estranho: Jeanine Salla, Terapeuta de Máquinas Inteligentes. E, caso você seja curioso o bastante para procurar em algum mecanismo de busca pela profissão ou pelo nome dessa pessoa, é aí que começa a aventura.
Se você usar o Google, é quase certo que o primeiro site encontrado seja o do currículo de Jeanine Salla: a terapeuta de máquinas inteligentes é formada pela Bangalore World University, instituição fundada em 2028 (segundo informação da página) que contém em seu portal diversos textos acadêmicos sem qualquer relação aparente com o filme, mas que fazem você saber a quantas anda a pesquisa sobre inteligências artificiais no futuro. E nessa estranha realidade paralela não estamos livres sequer dos famosos problemas de compatibilidade entre computadores: ao entrar, por exemplo, no site da família Salla, abre–se uma janela pop–up com uma ameaçadora mensagem de erro da Earth–Net 39 (?), alertando para a necessidade de um upgrade na sua máquina. Mas se você ignorar o aviso e prosseguir na exploração do site, irá se deparar com uma história bizarra de intriga e assassinato envolvendo humanos e inteligências artificiais, com links levando a lugares ainda mais caóticos… do ano de 2142!
Nessa barafunda toda de sites, o que de fato é relevante para o espectador do filme? Provavelmente nada, mas aí é que está o barato da estratégia de Spielberg e companhia: da mesma forma que os tie–ins (jogos e livros associados ao filme) que deram tanta fama e fortuna a Star Trek e Guerra nas Estrelas, por exemplo, os sites contendo informações adicionais dão um colorido novo à história para quem é maníaco por detalhes – mas não atrapalham em nada o espectador que estiver apenas a fim de curtir o filme.
Assim como os livros imaginários descritos pelo escritor argentino Jorge Luis Borges em diversos de seus contos, os sites de "desinformação" da campanha publicitária de IA constituem um grande universo a partir de uma única e pequena história: o conto Supertoys Last All Summer Long, do escritor de ficção científica inglês Brian Aldiss. Publicado pela primeira vez na revista americana Harper´s Bazaar em 1969, o conto recebeu recentemente duas continuações: "Supertoys when winter comes" e "Supertoys in Other Seasons", recentemente reunidos em uma nova coletânea do autor. As seqüências também foram compradas por Spielberg, e passagens delas aproveitadas na construção do universo do filme (no caso da terceira história, Spielberg aproveitou apenas uma frase).
Pode até ser que o filme não agrade aos puristas, especialmente os fãs de Brian Aldiss, já que Spielberg declarou que tentaria executar o projeto conforme o plano original de Stanley Kubrick (que declarara a Aldiss que mudaria muito da história original) – mas o universo que envolve A. I. e seus sites fictícios talvez seja a primeira grande (e bem–sucedida) tentativa de mergulhar com mais profundidade na experiência de recriação da realidade que a web pode proporcionar. Depois da Bruxa de Blair e sua estratégia de cinema–verdade–porém–fake, e de filmes só com atores digitais como "Final Fantasy", o mínimo que se pode dizer é que isto é só o começo. [web insider]



