Os segredos da NSA
18 de junho de 2001, 0:00A ex–super–secreta agência dos EUA é tema de um segundo livro.
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A NSA (”National Security Agency”), a mais secreta das agências de inteligência dos EUA, foi criada em 1952 com uma dupla missão: bolar sistemas criptográficos para uso do governo dos EUA (”communications security activities” ou COMSEC, no jargão do setor) e quebrar aqueles utilizados por outras nações, para poder espionar suas comunicações (”signals intelligence” ou SIGINT).
As entranhas da NSA começaram a ser expostas em 1982, ano em que foi publicado “Puzzle Palace”, primeiro livro de James Bamford. Até então a sigla NSA significava “Never Say Anything” para seus integrantes e “No Such Agency” para os demais norte-americanos. Não por acaso, o livro tornou-se um “best-seller” até dentro da própria agência.
Desde a publicação de “Puzzle Palace”, o planeta mudou, e muito: terminou a Guerra Fria, explodiram o uso de computadores e o acesso à internet e popularizou-se o uso da criptografia. Em resumo, uma boa oportunidade para Bamford lançar um segundo livro sobre a NSA, “Body of Secrets” (Doubleday, ISBN 0-385-49907-8, US$ 29.95), que aborda suas ações mais recentes, revisita acontecimentos mais remotos e, de quebra, faz um “tour” por “Crypto City” (a sede da instituição).
Para fazer o retrato da NSA do século XXI, Bamford peregrinou por inúmeras repartições governamentais nos EUA e protocolou diversas solicitações de informação previstas pelo “Freedom of Information Act” (FOIA), instrumento legal similar ao nosso “habeas data”. Além de ter acesso a milhares de documentos internos da NSA, Bamford conseguiu obter depoimentos não só de ex-arapongas mas também de agentes na ativa e, quem diria, até mesmo de seu diretor, o general da força aérea Michael Hayden. Se na década de 80 a NSA tentou, sem sucesso, impedir que “Puzzle Palace” visse a luz do dia, desta vez a agência concluiu que o melhor seria contar sua versão dos fatos.
O que salta aos olhos em “Body of Secrets” é a onipresença da NSA, desde sua criação, em um sem-número de episódios: a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis de Cuba, o ataque ao navio USS Pueblo, o acidente com o submarino Kursk, a Guerra do Vietnã, operações na China, Oriente Médio e até nos EUA. “Body of Secrets” poderia ser confundido com um romance de espionagem de ficção, não fossem reais os detalhes expostos.
Após o avião U-2 de Gary Powers ser abatido pelos soviéticos em 1960, conta Bamford, o presidente Eisenhower determinou a seus assessores que negassem perante o Congresso norte-americano, mesmo sob juramento, o envolvimento do presidente na frustrada missão. Essa atitude, se descoberta na época, certamente levaria ao “impeachment” de Eisenhower.
Durante a Guerra da Malvinas (1982), revela “Body of Secrets”, só 2% das informações sobre movimentações militares e navais da Argentina foram produzidas pela inteligência britânica; a quase totalidade foi obtida pela NSA, que quebrou o código utilizado pela nação platina.
Nem cidadãos norte-americanos escaparam do longo braço da NSA. De acordo com Bamford, o exército norte-americano pediu à agência em 1967 que bisbilhotasse os líderes de protestos contra a Guerra do Vietnã, entre eles a cantora Joan Baez, a atriz Jane Fonda, o pediatra Benjamin Spock e o ativista Martin Luther King Jr. Outra ameaça à privacidade dos norte-americanos foi a operação Shamrock, montada na década de 70 para esquadrinhar todos os telegramas internacionais enviados dos EUA.
Há quatro menções ao Brasil em “Body of Secrets”. Uma delas relata a facilidade com que o navião-espião USS Oxford pôde interceptar comunicações navais brasileiras após entrar no porto do Rio de Janeiro em 1962. Em outro trecho, Bamford afirma que foi a CIA (!) que descobriu a tentativa de suborno feita pela empresa francesa Thomson, que disputava com a norte-americana Raytheon o contrato do Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) em 1995.
A NSA, quase sempre o caçador, tem também seus dias de caça. Um monumento de granito, com o significativo título “Eles serviram em silêncio”, lembra em “Crypto City” a memória de 152 militares e civis mortos em serviço, a maioria a bordo de aviões e navios.
“Body of Secrets” foi publicado antes da infortunada missão realizada por um avião-espião norte-americano EP-3 que colidiu com um caça chinês quando sobrevoava a costa da China em abril passado. Depois de longas negociações entre governos, os 18 tripulantes do EP-3 foram liberados e retornaram a salvo aos EUA (o piloto chinês perdeu-se no mar).
Menos sorte tiveram os tripulantes do navio-espião USS Liberty, atacado por aviões e lanchas torpedeiras israelenses na costa de Gaza durante a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967. Nesse polêmico episódio, o pior da história da NSA, morreram 34 marinheiros e outros 171 foram feridos.
Revelando um segredo guardado durante 35 anos pela NSA, Bamford afirma que o ataque foi não acidental - como declararam na época os governos dos EUA e de Israel - e sim deliberado. Segundo o autor, um avião-espião EC-121 da marinha norte-americana, que voava nas proximidades, registrou a comunicação entre os aviões israelenses e sua base, evidenciando que seus pilotos sabiam estar atacando uma embarcação dos EUA e não do Egito, como Israel afirmou mais tarde. Ainda segundo Bamford, a investida israelense objetivava eliminar as evidências, obtidas eletronicamente pelo USS Liberty, de um massacre de prisioneiros egípcios no Sinai ocorrido naquele mesmo dia.
“Body of Secrets” esclarece ainda uma pequena confusão associada ao famoso “Echelon”. A espionagem em escala mundial executada em conjunto por EUA, Inglaterra, Canadá, Austrália e Nova Zelândia (todos países de língua inglesa) está amparada no acordo secreto denominado “UKUSA”, originalmente assinado por EUA e Inglaterra em 1946 (antes mesmo da criação da NSA). O “Echelon”, diz Bamford, é tão apenas o software desenvolvido com o objetivo de uniformizar procedimentos de SIGINT e, assim, permitir o intercâmbio de informações entre seus membros. Seja qual for o nome dado ao sistema, entretanto, seu poder é enorme: a NSA, conta Bamford, costuma impressionar visitantes importantes exibindo gravações de conversas mantidas por Osama bin Laden, terrorista refugiado no Afeganistão, com sua mãe (só falta agora capturá-lo :-).
Por essas e muitas outras razões há quem diga que, após a publicação de “Body of Secrets”, a sigla NSA passou a ter um outro significado: “Not Secret Anymore”…
Até a próxima coluna![web insider]

