Os novos caminhos da internet
24 de maio de 2001, 0:00Alguma coisa já dá para saber até o momento. O resto, o tempo vai dizer.
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No final de 1994, uma grande revolução. A invenção de um simples programa chamando browser estava prestes a mudar o mundo para sempre, de forma inimaginável.
Muitas pessoas do meio acadêmico e militar interessadas em computadores e tecnologia a essa altura já conheciam ou haviam utilizado ao menos uma vez uma rede internacional de computadores, que permitia enviar mensagens e entrar em máquinas em outras partes do mundo. Esta rede, como você pode imaginar, se chamava Internet.
Mas o uso da internet era algo bem trabalhoso e difícil. Era necessário estar dentro de uma universidade ou centro de pesquisa ligado à rede e a conexão se fazia através de terminais UNIX, em modo texto. Mesmo assim, muita gente já começava a fazer uso principalmente do e–mail. Havia outras ferramentas de comunicação, como o talk, que permitia uma conversa em tempo real entre dois computadores ligados na rede e o IRC, que era parecido com o talk, mas permitia que muitas pessoas falassem ao mesmo tempo.
O Gopher era um sistema de navegação por diretórios. Ele permitia a listagem de conteúdo de computadores remotos, a busca e até a leitura de determinados textos ali guardados. Tudo isso em modo texto: apenas um fundo escuro e letrinhas na tela.
Foi então inventado o browser e um sistema de comunicação via internet chamado World Wide Web. O WWW era semelhante ao Gopher, mas com uma diferença fundamental: era em modo gráfico e permitia a visualização de imagens junto com os textos. Portanto, ao visitar o computador da universidade de Illinois, além dos textos, daria para visualizar ainda uma bela foto da entrada do campus com uma placa escrita "bem–vindo à universidade de Illinois".
Com a invenção do browser, simples como isso possa parecer, estava deflagrada possivelmente a maior das revoluções de que se tem notícia.
Meu primeiro contato com o tal browser foi muito pouco tempo depois da sua invenção. Na época eu estava fazendo um mestrado em telecomunicações interativas na New York University. Meu curso, chamado ITP, era bastante focado em tecnologia e portanto tínhamos diversos computadores conectados à rede da universidade, através do qual líamos e enviamos e–mails, fazendo um login remoto ao servidor UNIX central e a partir dali para a internet.
Numa bela tarde de inverno de 94, vi o tal programete instalado em uma das máquinas do departamento e me acerquei para conhecer. Me pareceu muito semelhante ao Gopher, mas extremamente fácil de usar (já que eu não era fluente em UNIX) e muito interessante por causa das fotos e de um sistema interessante que eu já tinha visto uma vez e tinha uma noção vaga do que era: palavras em azul sublinhadas podiam ser clicadas com a ajuda de um mouse e isso fazia com que fosse possível se aprofundar em algum assunto relacionado com a tal palavra. Este aprofundamento podia ser alguma referência no mesmo computador ou mesmo me levar para outro computador em outra universidade em outra parte do mundo. Era o conceito do hipertexto que eu havia conhecido no final da década de 80, mas dentro de uma rede internacional.
Levantei da máquina impactado, confuso, atordoado. Aquilo não era só um simples programa. Era uma revolução. Se alguém da universidade de Illinois podia botar a foto do campus, eu também podia fazer a minha página e botar a minha foto, ou a Coca–cola podia fazer sua página e botar sua foto, ou telefone. Não era um simples programa. Aquilo era ameaçador, subversivo, revolucionário.
Sete anos depois, estamos do outro lado da onda que tomou de assalto o mundo, à medida que aos milhões e em todas as partes dos planetas, cada uma das pessoas era impactada exatamente da mesma maneira que eu fui naquela tarde de inverno em Nova York.
Uma onda que alterou pessoas, mercados, empresas, profissões, economia, educação e a ciência. Redefiniu valores, metas, padrões, escolhas, carreiras, vidas.
Todos passamos pelas etapas inevitáveis da onda: notar sua formação; ver que ela chega; decidir ou não entrar; entrar e correr para ficar por cima; perceber que a onda cresce sem parar e se assustar com o exagero daquilo; entender que a onda vai quebrar em algum momento; prender a respiração e agüentar enquanto a onda quebra e você rola com ela; e depois que a onda terminou de quebrar e você voltou para a margem da areia, entender onde você foi parar, o que aconteceu com o resto das pessoas e o que você vai fazer agora.
Pois bem, aqui estamos: depois que a onda quebrou, na margem do mar, com areia no calção, tentando entender o que aconteceu, como ficaram as coisas depois da arrebentação e como a gente toca a vida agora. O primeiro efeito que a gente sente depois que uma onda arrebenta na nossa cabeça e a gente se encontra na praia, com a cara na areia e a barriga ralada, é o susto seguido do desânimo e da vontade de desistir.
Com o fim da moda da internet, a mesma imprensa que tanto a inflou nos últimos anos, agora se diverte com o obituário.com. Todos os dias a manchete é a demissão de 30 aqui, 40 ali, a falência da Zequinha.com ou a compra de uma pequena por uma gigante.
A conseqüência do fim da moda da internet é o enxugamento do capital de risco que jorrava nas nossas cabeças no ano passado, é o também enxugamento do mercado. Menor número de empresas, menos opções de trabalho, menos demanda por profissionais, menos emprego.
Menos emprego, mais gente desempregada, maior oferta de profissionais do que vagas disponíveis, menores salários, maior disputa por vagas.
Podem chamar de recessão na internet. Pra mim estamos falando de ajuste à realidade. É duro, nu e cru, mas é o que me parece. Simplesmente estamos entrando finalmente no mundo real.
Não era possível que aquilo fosse verdade:
–5 milhões de usuários estimados no Brasil;
– 8 grandes lojas de comércio eletrônico brigando por um mercado sem cultura de compra por catálogo nem cartão de crédito. A penetração do comércio eletrônico não passava de 10% da população (o que dava uma média de 62.500 potenciais compradores por loja);
– 12 sites de leilão competindo por um mercado que não sabe o que é leilão online, todos com expansão panregional, abrindo versões em espanhol em outros países da América Latina;
– 7 portais gigantescos empregando uma média de 200 pessoas cada. A maioria, ou quase todos, pretendendo viver da receita publicitária online, dentro de um mercado onde as agências de publicidade ainda estavam definindo sua estrutura de internet e a maioria dos anunciantes nem sequer tinha algum tipo de site transacional;
– 5 provedores gratuitos com dezenas de milhões de reais em investimento de marketing e centenas de empregados;
– Milhares de startups e pontocoms com idéias geniais abrindo em todos os cantos do país;
– Oferta de emprego inacreditavelmente maravilhosa. Milhares de pessoas largando seus empregos e profissões para se tornarem profissionais de internet, com salários inacreditavelmente distorcidos e inflacionados;
– Qualquer pessoa que andasse nas principais ruas do Rio ou de São Paulo veria quatro outdoors sobre internet e telecomunicação para um de outro assunto. Parecia o próprio Sillicon Valley.
Simplesmente não correspondia à realidade. E não correspondia mesmo.
Basicamente o que vimos foi o entusiasmo do mundo pela grande novidade, traduzido em uma gincana financeira na bolsa de valores americana empurrando os investidores de risco para o mercado de internet. Gringos e brasileiros entornando milhões na promessa de um novo mercado e na esperança dos inexplicáveis IPOs, a abertura de capital e venda de ações na bolsa de valores de Nova York.
Os efeitos desta enxurrada podem ser resumidos à uma superaceleração de um processo de desenvolvimento que normalmente levaria anos para acontecer e a expansão de um mercado de trabalho em tempo recorde. A questão é que apenas um dos lados se desenvolveu, o da oferta. A demanda permaneceu crescendo em seu ritmo normal, com uma eventual aceleração causada pelo impacto da propaganda paga pelas empresas de internet.
A questão é que não se pode acelerar além do que se pode acelerar o desenvolvimento, a penetração e a mudança de hábito que a internet causa na vida das pessoas e na sociedade como um todo.
É um processo natural, que está acontecendo, mas que tem seu tempo e não há muito o que se possa fazer a respeito. E hoje o que vivemos é o processo de adaptação do mercado ao mundo real.
Importante agora, é entendermos o que acontece com nosso mercado de trabalho para webdesign e como as coisas vão se ajustar daqui pra frente.
Algumas coisas podemos tomar como fatos:
– Os salários voltam a ser compatíveis com outros mercados. A oferta de trabalho também;
– Aqueles que tiverem interesse em trabalhar com o maravilhoso mundo da internet, o farão por real interesse na prática e nos desafios que o trabalho propõe e não no dinheiro fácil que ele oferecia até pouco tempo;
– Milhares de pessoas que haviam migrado para o mercado de internet em busca de oportunidades fáceis ficam sem opção de trabalho e retornam ao seus mercados originais;
– A concentração das áreas de atuação passa a ser a de oferta de serviços relacionados, como desenvolvimento de sistemas, software, interface, publicidade e marketing interativo;
– As empresas que oferecem trabalho voltam a ser as tradicionais dentro de novos departamentos criados para cuidar do assunto de internet dentro de cada contexto, com destaques para as áreas de comunicação, telecomunicações, bancos, mercado automotivo, compra e venda de imóveis, publicidade e marketing;
– Todas as empresas tradicionais em algum momento estarão se voltando para a internet, mas o processo de migração e de adaptação de cada empresa para o uso da internet irá variar de acordo com as necessidades mercadológicas específicas.
Isso é o que dá para saber até o momento. O resto, o tempo vai dizer. [web insider]

