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Sergio Kulpas
Tevê

A TV mecânica

23 de março de 2001, 0:00

A história da radiovisão tem tudo a ver com a internet e com o próprio futuro da TV atual.

Por Sergio Kulpas

Talvez o leitor não saiba, mas existe um Cemitério dos Meios de Comunicação, um limbo das mídias que se tornaram obsoletas. É uma necrópole muito antiga, alguns túmulos já têm séculos. Mas a maioria das tumbas é do século XX, período pródigo na criação e extinção de mídias. Nessa ala, entre gramofones e projetores de filmes super–8, está a lápide da "televisão mecânica", também chamada de "radiovisão". A história já está meio apagada pela inclemência do tempo, mas é bastante interessante.

A TV tem uma história que começa bem antes de I Love Lucy fazer sucesso. Na década de 1920, já se faziam experimentos bastante engenhosos com a transmissão de imagens pelo ar. Dois inventores, o escocês John Logie Baird e o americano Charles Francis Jenkins, criaram em 1925 um sistema que transmitia imagens ao vivo sincronizando dois discos perfurados em alta rotação. As demonstrações da invenção atraíram a atenção de muitos curiosos e da imprensa da época.

Veja nos links ao lado mais dois modelos de receptores (o Octagon e a Visionette) e uma imagem transmitida pelo Blaird Televisor.

Na foto acima vemos o "Radiovisor" de Jenkins, de 1929. O aparelho de TV mecânica foi criado e produzido pela Jenkins Television Corporation, fundada pelo pioneiro Charles Jenkins. Desde 1894, Jenkins já teorizava sobre a transmissão de imagens por meios elétricos. O sistema também tinha resolução de apenas 48 linhas, o que tornava difícil apreciar os "radiofilmes" de Jenkins.

Entre os maiores interessados no aparelho estavam os mais de 250 mil operadores de rádio amador, uma verdadeira mania nos Estados Unidos dos anos 20. Esses aficcionados são considerados responsáveis por boa parte dos desenvolvimentos iniciais em rádio e TV nos EUA. Para esse público, Jenkins começou em 1928 a fazer transmissões irregulares das imagens rudimentares que ele chamava de "radiofilmes". Milhares de radioamadores construíam equipamentos caseiros para "pescar" esses sinais. Segundo o próprio inventor, as imagens eram pantomimas curtas, danças e mímicas. As imagens eram minúsculas e quase sem foco. Um receptor à parte recebia o som que acompanhava as imagens.

Apesar dessas limitações, os pioneiros dessa forma primitiva de televisão puderam demonstrar os princípios básicos da sincronização entre transmissão e recepção. E também anteciparam a vocação para a narrativa da TV. Em 1928, o primeira transmissão de uma história dramática com som e imagens de três câmeras foi recebida por aparelhos "Octagon" da General Electric. Em 1931, a RCA testou em Nova York a transmissão de desenhos do gato Félix. O personagem é considerado por isso a primeira estrela da televisão.

Mas em 1935, a televisão mecânica já tinha atingido a estagnação na América do Norte. A resolução nunca passou de 120 linhas, e não existiam padrões de transmissão ou recepção. Para piorar, não havia nenhuma garantia quanto aos horários e a freqüência das transmissões, o que não interessou os anunciantes. Apesar do interesse público, nunca foi levantado o capital necessário para iniciar a produção em massa de receptores de radiovisão.

Na década de 30, o desenvolvimento acelerado do tubo de imagens fez surgir a TV eletrônica, que foi lançada com grande fanfarra durante a Feira Mundial de Nova York, em 1939. A TV mecânica baixou à sepultura e foi esquecida imediatamente.

E o que tem essa história a ver com a internet e o futuro da televisão?

Em primeiro lugar, o conto edificante serve para mostrar que as tecnologias se adaptam ou morrem, por mais sucesso e popularidade que atinjam. Há duas analogias que parecem estar contidas na história da radiovisão. Por um lado, é possível dizer que a TV mecânica de quase 80 anos atrás lembra o estado atual da netvisão: imagens minúsculas e de má qualidade.

A TV pela internet está longe de representar uma ameaça à indústria da televisão e ao domínio dos aparelhos plantados em quase todas as salas de estar do mundo. Por outro, o tempo segue adiante e um processo primitivo é substituído por um método mais aperfeiçoado. As vantagens do sinal digital em relação ao analógico são muitas, mais do que poderíamos listar aqui.

E, diferente daqueles velhos pioneiros, não se trata de começar do zero. A netvisão poderá fagocitar sessenta anos de talentos técnicos e artísticos, toda a experiência e profissionalismo acumulados.

Aquela multidão de hobbistas e aficionados impulsionou a criação da TV moderna naquela época. Hoje, esses amadores são em número muito maior e desta vez estarão fazendo os programas, em vez de apenas assisti–los. [web insider]

Sobre o autor

Sergio KulpasSergio Kulpas (sergiokulpas@gmail.com) é jornalista e escritor.

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Palavras-chave relacionadas a este texto: [ TV, vídeo ]

Comentários

1 pessoa comentou o artigo "A TV mecânica"

Elaine Data: 24/05/2008 às 10:03 pm

Atividade: Acadêmica

Cidade: São Luís

Achei interessante, me ajudou um pouco em minha pesquisa sobre o surgimento da televisão!

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