Davi e Golias
07 de março de 2001, 0:00Como um bando de rebeldes derrotou o poderoso Tio Sam
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Finalmente – após ter seu lançamento adiado no início de 1999 – chega às bancas o mais novo livro de Steven Levy, "Crypto: When the Code Rebels Beat the Government – Saving Privacy in the Digital Age" (Viking, ISBN 0–670–85950–8, US$ 25.95).
Esse é um projeto antigo de Levy, autor do clássico "Hackers" (1984) e editor–chefe de tecnologia da revista semanal Newsweek. Não por acaso, a matéria de capa da edição de 15 de janeiro passado, "Beating Big Brother", trata do lançamento de "Crypto". O livro é baseado em alguns artigos escritos por Levy para a revista Wired, dos quais o mais famoso é "Crypto Rebels", publicado em sua segunda edição.
Diferentemente de outros livros históricos sobre criptografia, Levy focaliza somente acontecimentos ocorridos nos últimos trinta anos, a partir da criação da criptografia de chave pública por Diffie, Hellman e Merkle, "o avanço tecnológico mais importante dos últimos mil anos" na opinião de Lawrence Lessig, autor do respeitado "Code and other laws of cyberspace" e professor de direito em Stanford.
"Crypto" conta como um grupo de acadêmicos, visionários, homens de negócio e cripto–anarquistas conseguiu vencer um adversário poderosíssimo, o governo dos EUA, representado pela National Security Agency (NSA). Segundo o governo norte–americano, a guerra santa movida contra a disseminação da criptografia buscava proteger a sociedade dos quatro cavaleiros do apocalipse moderno: traficantes, seqüestradores, terroristas e pedófilos (leia–se, nas entrelinhas, segurança nacional interna e externa). Seus oponentes lutavam por diferentes bandeiras, algumas nobres – como a defesa da privacidade – e outras nem tanto, como a possibilidade de vender criptografia para mercados fora dos EUA (caso as restrições à exportação fossem relaxadas).
Esse embate "cripto–ideológico" num país de longa tradição democrática como os EUA talvez não mostre a importância da privacidade de forma tão dramática como aquela exposta pelo recém–lançado (e polêmico) livro de Edwin Black, "IBM e o Holocausto", que descreve o gigantesco trabalho de identificação e catalogação dos judeus e de outras minorias realizado nos anos 30 pelo III Reich – com tecnologia fornecida pela IBM – sem o qual Hitler não teria conseguido executar com tanta eficiência, na década seguinte, um processo de matança em escala industrial.
"Crypto", um livro agradável de ler, conta fatos interessantes e episódios curiosos. A NSA, como não podia deixar de ser, é personagem onipresente. Levy refere–se à agência ora como "The Fort" (fortaleza), numa referência a Fort Meade, cidade onde está sediada a NSA, ora como "Triple Fence", fazendo alusão à cerca tripla eletrificada que protege o prédio da agência.
A publicação, em 1967, da monumental (mais de 1.100 páginas!) obra de David Kahn, "The Codebreakers" – que conta a história da criptografia desde a antigüidade até a era moderna – incomodou, e muito, a NSA, que tentou evitar, sem sucesso, que o livro viesse a público. Levy afirma que a agência cogitou até mesmo invadir a casa de Kahn(!) que, nesse meio tempo, havia se mudado para Paris. Daí em diante, sua correspondência e seus telefonemas passaram a ser monitorados pela NSA (primeiros passos do Echelon?).
Um dos muitos leitores de "The Codebreakers" foi Whitfield Diffie que, segundo Levy, não largava o livro nem mesmo quando ia a festas… Concluída a leitura, Diffie, obcecado pela utilização da criptografia na proteção da privacidade, iniciou uma jornada pelos EUA, mantendo contatos com diversos interlocutores, entre eles o próprio Kahn e Martin Hellman, professor em Stanford desde aquela época.
De acordo com Levy, a inspiração para Ronald Rivest bolar um novo sistema criptográfico veio após uma festa na casa de uma estudante de pós–graduação do MIT. Tendo bebido muito vinho, Rivest deitou–se no sofá de sua casa e adormeceu. Subitamente, ao acordar, veio à sua mente uma nova idéia, diferente de todas as anteriores que ele e seus colegas Adi Shamir e Leonard Adleman tinham examinado exaustivamente até então. Excitado, Rivest ligou para Adleman no meio da noite (essa é versão de Adleman; Rivest diz não se lembrar do telefonema) para contar a inspiração. Nascia aí o sistema RSA.
Em agosto de 1977, Martin Gardner publicou, em sua famosa coluna na revista Scientific American, um artigo sobre o sistema bolado pelo trio do MIT. A repercussão foi enorme, como Adleman pode constatar. Aguardando sua vez na fila do caixa de uma livraria em Berkeley, conta Levy, Adleman ouviu um cliente conversar com o vendedor(!) a respeito do artigo de Gardner. Quando Adleman, orgulhoso, identificou–se como um dos autores do novo sistema, não conseguiu se furtar a dar alguns autógrafos. Algo habitual para um artista de cinema, mas nada mau para um criptógrafo!
"Crypto" relata como Philip Zimmermann, pacifista militante, hipotecou sua casa para bancar o desenvolvimento do PGP (Pretty Good Privacy) e assim colocar, gratuitamente, um software criptográfico de "qualidade militar" ao alcance das massas. Zimmermann, de quebra, sofreu um processo do governo dos EUA (arquivado em 1996), sob a acusação de ter colaborado para a exportação ilegal do PGP (as restrições à exportação de criptografia sempre foram uma arma poderosa na mãos do governo norte–americano).
Mais à frente, Levy fala de outro idealista, o finlandês Julf Helsingius, criador do Penet, um serviço gratuito de "anonimização" de correio eletrônico ("anonymous remailer").Helsingius foi obrigado a tirar o Penet do ar em 1996 por pressão da Igreja da Cientologia, que alegava que alguns de seus documentos estavam sendo divulgados de forma não–autorizada através do Penet (obviamente, Helsingius não sabia do fato). Também cooperou para o fechamento a divulgação, feita por um jornal sueco, que "grande parte" da pornografia infantil da internet estaria passando pelos servidores do Penet. A denúncia era falsa – Helsingius bloqueava a passagem de fotos (arquivos binários) – mas o mal já estava feito.
"Crypto" nos permite chegar a diversas conclusões. Uma delas, certamente, é unânime: não se faz uma revolução sem homens como Kahn, Diffie, Rivest, Zimmermann e Helsingius!
Até a próxima coluna! [web insider]
