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Criação

Sergio Kulpas
Tevê

Berçários da Netvisão

01 de março de 2001, 0:00

A filha da TV com a web já nasceu e seus primeiros passos podem ser vistos aqui.

Por Sergio Kulpas

Temos tentado definir aqui o termo netvisão, um neologismo para falar de um híbrido entre a TV e a net, que pode se tornar uma mídia dominante nos próximos anos. A soma do veículo televisão com todas as facilidades do formato digital. Programas transmitidos não mais através de ondas no ar, mas em pulsos luminosos de fibra óptica. Ou ainda através do ar, para serem captados pela próxima geração de PDAs e celulares.

A TV nasceu como um experimento de grandes redes americanas de rádio, com tecnologia caríssima e nenhuma experiência em programação. Seis décadas depois, a netvisão está sendo colonizada por todos os tipos de pioneiros, desde corporações gigantes de mídia até o juquinha da esquina, com sua webcam de 100 reais. Qualquer adolescente médio que assista seis horas de TV por dia sabe mais sobre programação e tecnologia visual do que toda uma geração de profissionais da NBC ou da Tupi. Há abundante oferta de softwares, aplicativos e equipamentos que são relativamente baratos.

Assim, a pergunta mais urgente sobre o novo meio é: muito bem, agora que temos toda essa tecnologia, como gerar uma programação?

Desde meados da década de 90 vem surgindo na internet uma grande variedade de sites de "entretenimento digital", que parecem ser os passos iniciais em busca dessa programação tão necessária. Muitos desses sites são patrocinados por grandes empresas do setor de TV, cinema, vídeo e áudio. As grandes corporações dão mostras de estar atentas à mudança inexorável no cenário do entretenimento popular. Várias empresas estão competindo com seus softwares e aplicativos para tornar melhor a recepção de netvisão. Alguns dos sites mais proeminentes nessa tendência:

Atom Films

Um desses "berçários da netvisão" é a Atom Films, um pólo gravitacional de novíssimos formatos de produção e–televisual. Além de exibir o que há de mais recente na produção de curtas para a net, o site está aberto aos talentos independentes. Novos cineastas e animadores surgem dos subúrbios e porões, pessoas criativas trabalhando em estúdios caseiros. Isso basta para tornar o processo de produção algo completamente diferente dos atuais métodos da televisão.

A Atom tem uma grande variedade de títulos, produzidos nos Estados Unidos e em vários países da Europa. Há séries, curtas experimentais, paródias, vários métodos de animação. Há inclusive uma área de filmes "adultos", com algumas coisas realmente talentosas. Infelizmente, o puritanismo americano é muito ativo na internet, e alguns trabalhos são mutilados pela censura interna.

Entre os bons títulos da Atom Films, está "The Periwig–Maker", um curta inglês de animação de bonecos que está concorrendo ao Oscar deste ano como melhor curta de animação. Dirigido por Steffen Schaffler, a história é uma fábula tocante sobre doença e compaixão, no período da Peste Negra em Londres. O personagem principal é dublado pelo ator Kenneth Brannagh. Um outro trabalho, na seção "adulta", é "Titler", de Greg Roman. É um estranho musical com paródias maliciosas de várias músicas famosas.

O site envolve a audiência. É preciso se cadastrar para assistir ou fazer o download dos clipes e filmetes, e a Atom Films pede ao espectador que comente e dê uma nota para o que assistir. O "micro–ibope" cria listas de filmes favoritos, de autores favoritos. Fama à moda da web.

A Atom se orgulha de distribuir os programas em várias plataformas e softwares concorrentes. É um dos primeiros sites a produzir para telas de PDAs e celulares, que recebem os desenhos via WAP.

O grande problema é que a qualidade da exibição depende da velocidade de conexão. Para a maioria de nós, que usamos modems de 56kb ligados a uma linha telefônica comum, é um pouco frustrante.

A Atom Films tem uma história turbulenta. Criado originalmente como centro de exibição independente para curta–metragens feitos para a internet, o site foi recentemente absorvido pela Macromedia, empresa que produz o software Shockwave Flash, usado em boa parte das animações.

A imprensa noticiou o acordo como um mau momento das empresas de entretenimento digital, de acordo com uma visão pessimista que dominou o mercado pontocom americano no final do século passado.O final de 2000 pegou várias dessas empresas de calça curta; Icebox, Digital Entertainment Network, POP.com e Pseudo Networks encerraram suas atividades.

Mika Sami, executivo–chefe da Atom Films, reconhece que sua empresa enfrenta dificuldades para ampliar seu capital. Segundo fontes de Wall Street, a Atom começou avaliada em US$ 140 milhões, valor que caiu para US$ 70 milhões quatro meses depois.

A Macromedia parece ser a grande beneficiada pela operação. Com o negócio, sua participação no Shockwave.com se tornou inferior a 50%. Isso livra a empresa da dependência de um mercado publicitário incerto, o que pode melhorar sua posição no mercado.

Apesar da relação com a Macromedia, o site da Atom Films se diz aberto outras tecnologias de animação e vídeo. Mika Salmi disse que "a Atom é agnóstica no que se refere a formatos".

Wild Brain, o Cartoon Network da web

A empresa americana de mídia Wild Brain Inc. transformou seu site Wildbrain.com em um canal de desenhos muito popular. Não há muito para crianças, mas há vários desenhos "cult", cada vez mais aclamados pela crítica especializada e legiões de fãs.

Sediada em San Francisco (EUA), a empresa foi criada pelo famoso desenhista Frank Kozik. Entre os sucessos da WildBrain está "Romanov", um personagem criado por Chris Lanier. É humor para adultos, claro. A crítica não sabe bem o que pensar do desenho, e muitos acham "artístico" demais. Porém é uma prova de que as pessoas param diante do PC para assistir uma série animada, em vários capítulos.

Recentemente, a WildBrain anunciou um acordo com a PVAirguide e PacketVideo, para distribuir seus desenhos e curtas para aparelhos móveis conectados à internet, como PDAs e palmtops.

Bulbo

Bulbo é uma criação fantástica. É um personagem que homenageia todos os velhos desenhos animados em preto–e–branco, do início da era do cinema. Há nele traços de Mickey Mouse e Pernalonga, e a ação é recheada de clichés de velhos desenhos. Até a trilha sonora imita uma charanga meio desafinada, como se o som viesse de um gramofone. Muito bem realizado, os desenhos ocupam grande espaço na tela e podem ser apreciados até em conexões lentas.

O personagem é criação do animador Seth Feinberg, que fundou sua empresa Mishmash Media em 1997. Há no site vários outros desenhos de Feinberg. Seth diz que faz questão de trabalhar de modo independente, com uma equipe reduzida. Apesar disso, os desenhos da Mishmash foram premiados diversas vezes, e a empresa tem clientes e parceiros de peso, como a MTV, Icebox.com, Scifi.com, Hotwired.com, Comedy Central e Cartoon Network.

Newton Welt

A famosa empresa alemã Eye 4U Active Media realizou uma interessante experiência de programação infantil em Newton Welt. Newton é um monstrinho roxo, e seu "Mundo" é todo feito em Flash. Há vários edifícios e objetos que podem ser clicados, enquanto Newton tagarela, sugerindo jogos e brincadeiras. Infelizmente, o site é todo falado em alemão. [web insider]

Sobre o autor

Sergio KulpasSergio Kulpas (sergiokulpas@gmail.com) é jornalista e escritor.

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