Olhou o longe e não viu o perto
13 de fevereiro de 2001, 0:00A internet móvel dá sinais concretos de sua chegada, mas a relação custo/benefício ainda precisa realmente melhorar muito.
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Mais importante do que ser feliz ou fazer alguém feliz é cumprir o seu próprio dever – Immanuel Kant
Quem tem hipermetropia enxerga mal de perto, mas com esforço consegue ver ao longe. A mídia, no início do ano passado, sem saber exatamente como seria o universo da internet sem fio, enalteceu tanto a novidade que acabou criando uma expectativa exagerada demais na cabeça do público e, pior ainda, na percepção dela mesma. À primeira vista, parece que a internet móvel sofreu de ejaculação precoce.
A imprensa se desfocou radicalmente porque, quando o WAP chegou, quis enxergar a internet no celular que havia pregado ao invés de um celular com informações da internet. Houve, portanto, uma lacuna forte entre o WAP que apareceu no Brasil e a falsa, exagerada e fabulosa expectativa sobre "a internet no celular" que tanto foi badalada.
O problema, pouca gente entendeu, não é apenas da tecnologia em si, mas principalmente desta distorção do ponto de vista. Uma espécie de hipermetropia na visão da imprensa – que conseguiu enxergar bem de longe o panorama no futuro, mas não conseguiu mesmo discernir claramente a realidade do presente próximo. Cadê os óculos? 8–D
Toda tecnologia sofre um período natural de desenvolvimento e também de adaptação à sociedade. No caso do WAP, em sua primeira fase, ainda na volta de apresentação, esse período está se prolongando por diversos motivos… Entre eles: o alto custo no preço, a percepção distorcida na visão do público e os problemas da tecnologia, como a velocidade baixa e a interface limitada. Ficou no ar um gosto amargo de decepção, logicamente porque a expectativa criada prometeu mais do que a tecnologia atual pode oferecer.
Vale lembrar que, nos primeiros meses, a imprensa contribuiu com um ataque tendencioso ao WAP, ao contrapor a realidade intermediária de uma tecnologia emergente, em pleno desenvolvimento, com a sua prévia idolatria profética à internet móvel. Tentando corrigir esse desajuste, inverteu a lente desiludida para detonar com toda força a tecnologia, ao invés de compreendê–la em sua essência verdadeira e procurar reparar o exagero pré–anunciado com maturidade, criticando então as questões envolvidas que tenham lá o seu mérito.
Como, por exemplo, o custo de acesso ao WAP: as operadoras de telefonia ainda cobram muito caro, o mesmo preço da ligação de voz via celular. Só que o acesso é leeeento… E não existem pacotes de minutos com descontos para o WAP. Dessa forma, a relação custo/benefício acaba assustando muitos dos usuários potenciais. Se o WAP tivesse um preço mais justo, um público bem maior estaria "wapiando". Mas, com o custo atual, o WAP acaba sendo um susto não previsto na conta telefônica – que ninguém quer ter novamente no mês seguinte.
A internet sem fio é, e sempre será, uma experiência completamente diferente da internet no desktop. O bebê vai aprendendo a falar e daqui a pouco sai andando por aí. Vemos surgir produtos WAP cada vez mais criativos e complexos. Aos poucos, as pessoas vão descobrindo quando e para quê devem usá–lo, percebendo sua incomparável utilidade em diversos lugares e situações específicas.
A velocidade do WAP no Brasil irá melhorar consideravelmente, em breve. Algumas operadoras já prometeram redes de pacotes até 10 vezes mais rápidas (144KB!!!) até o final do ano… Com essas redes de pacotes estaremos conectados diretamente all time, sem precisar ligar à operadora a cada conexão, uma conveniência que também irá acelerar o acesso inicial e assim revolucionar nossa maneira de usar o WAP. O conteúdo vai se profissionalizar e a quantidade de serviços também. Em pouco tempo teremos terminais celulares mais poderosos, com músicas MP3 e interfaces mais ricas, até cores, quem sabe…
E o preço? Se continuar caro como hoje, quem irá usar? É um caso sério… Mas com a rede de pacotes as operadoras poderão cobrar por taxa de transferência (=número de bytes transmitidos), ao invés do air time (tempo da ligação), como acontece atualmente. Muito provavelmente teremos aí o pulo do gato sem fio!
Já no universo dos palmtops, outra vertente forte pela qual o mundo wireless invade nossa vida, estamos nas vésperas de uma guerra sangrenta entre os concorrentes, em que o principal vencedor, sem dúvida alguma, será o usuário.
A Microsoft, sabendo do imenso potencial do filão, une–se a outros gigantes, como Compaq e HP, investindo mais pesado a cada dia, para conquistar espaço com o seu Pocket PC (antes Windows CE). Além do ambiente idêntico ao Windows, os novos handhelds têm boa memória, são amigáveis, com um preço mais em conta e ainda tocam MP3s. A briga vai ser boa…
Líder absoluta do segmento, a Palm já prepara a defesa licenciando seu Palm OS para empresas como IBM, Handspring e (atenção!) Sony. Lançou agora o M100, o seu modelo "fusca popular", com preço bem camarada (isso lá fora – aqui, pra variar, o produto perdeu completamente o sentido, porque ficou com uma qualidade popular e um preço "chique" demais). Em poucos meses chega ao mercado o tão aguardado Palm V colorido. Um teclado portátil para Palm, vendido como acessório, virou o grande barato do momento. E o foco principal é disseminar ao máximo o sistema operacional (Palm OS), incluindo–o inclusive em telefones celulares, como o modelo já lançado nos EUA pela Kyocera – chegando ao Brasil (CDMA), ainda que com preço bem salgado, já em março.
No futuro próximo, teremos um movimento natural de simbiose entre os handhelds e os telefones celulares. Cada vez mais os celulares serão computadores. Afinal, se eles já fazem parte de nossas vidas, por que não podem ser ainda mais úteis, modernos e sofisticados? ;–)
A roda continua girando e a conclusão é: as correntes de bits estão invadindo o nosso cotidiano, por todos os lados. É fato, uma realidade irreversível. Diante da profusão de novidades, com a explosão da internet e das mídias digitais, continuamos focados nos acontecimentos triviais de hoje… Em pouco tempo, num piscar de olhos, quando nos dermos conta da grande revolução sem fio, ela já terá acontecido. [web insider]
