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Criação

Sergio Kulpas
Tevê

Uma nova televisão

12 de fevereiro de 2001, 0:00

A adoção generalizada dos formatos digitais vai inaugurar uma fase inédita na programação da net–TV, com milhares de canais.

Por Sergio Kulpas

Há muitos indícios que o meio de comunicação que chamamos hoje de televisão deve desaparecer nos próximos cinco ou dez anos. Esse "desaparecimento" será algo como a transição do cinema mudo para o falado, que separou o que chamamos de cinema em duas formas completamente distintas. O que está em transição é o próprio modelo da TV; a nova televisão será diferente da TV do século XX justamente naquela finíssima membrana que é a fronteira entre a tela do aparelho e o olho humano.

Em boa parte, essas mudanças serão conseqüência da revolução tecnológica em andamento. A tecnologia da televisão tem dado largos saltos nos últimos anos, mas a adoção generalizada dos formatos digitais poderá ser o gatilho de uma fase completamente nova na história da TV.

Uma conexão de rede, uma net–câmera… alguma idéia?

As câmeras na web nasceram quase ao mesmo tempo que a WWW. Segundo a lenda, a primeira câmera focalizava a máquina de café de um laboratório universitário; a cada hora, os pesquisadores podiam checar através da rede se havia café fresco.

Desde meados da década de 90, houve uma explosão mundial dessas pequenas câmeras que enviavam fotos através da internet, focalizando do prosaico ao exótico. Aquários, gaiolas, máquinas, corredores, paisagens. É claro que os net–canais de maior sucesso são aqueles que simplesmentetransmitem a vida cotidiana de pessoas. O exibicionismo na web é do tempo em que sua avó se conectava por um modem de 9.600 bps. Logo que se entediaram com fotos de cafeteiras e corredores, as pessoas começaram a mandar imagens mais calientes para uma platéia potencial de cem milhões de espectadores.

E essas net–emissoras que exibem rotinas individuais (com ou sem apelo sexual) estão atraindo a atenção de muita gente, por várias razões. Porque é uma novidade, porque a internet é um meio interativo e um net–espectador pode mandar uma mensagem instantânea para o "astro" do programa, porque existe uma fascinação hipnótica pelo desenrolar da vida alheia – em parceria com o desejo de exibir, de mostrar o corpo, os móveis da sala de estar.

Além do exibicionismo em tempo real, a onda quente é a produção caseira de net–TV. Espalhados pelo mundo existem centenas de "canais" não–profissionais, criados por indivíduos ou grupos, com uma variada programação televisual pela rede. Podem ser talk shows, sofisticados ou improvisados em porões, à moda de "Waynes World".Outros canais exibem esquetes ou pequenas peças de net–teatro. Continua em voga o registro cotidiano de animais (domésticos ou selvagens). Os velhos panoramas captados através de janelas, topos de prédios e torres ainda existem, com melhor qualidade. Qualidade e velocidade das imagens vem melhorando a cada volta no parafuso da Lei de Moore. Essa nova TV está tendo um nascimento silencioso, sem fanfarra.

Isso pode ser o amadurecimento de uma cultura criada com a sexagenária televisão. A terceira ou quarta geração de telespectadores não se contenta em apenas ver as imagens; querem ser imagens. E mesmo que a maioria desses primeiros web–canais seja francamente decepcionante (pessoas e objetos comuns, fazendo coisas comuns, com qualidade ainda baixa de imagem e som), o alto volume de interesse é um fenômeno que está chamando a atenção de psicológos.

A maior parte desses web–canais é de acesso gratuito. Após atingir um volume crítico de globos oculares, seus criadores seguem o caminho normal do financiamento de meios de comunicação, buscando anunciantes e patrocínios. No caso dos canais de conteúdo sexual, o sistema de assinatura funciona melhor. Exibicionistas descobriram que podem cobrar até US$ 30 mensais de seus fiéis voyeurs. E, descontando–se algumas fraudes de cartão de crédito, o público é garantidamente adulto, para alívio dos guardiões da moral.

É possível que uma galáxia de canais pipoque nos próximos anos e venha a ocupar parte do destaque que hoje é da velha televisão. Muito mais do que uma emissora de TV por cidade, é a promessa de um canal para cada terminal na rede. Indivíduos, grupos, associações, organizações não–governamentais deverão colonizar essa nova fronteira com vigor nos próximos anos.

Zapeando pela net–TV

Earthcam. Para ter uma idéia geral do alcance das webcams, este site é um ponto de partida bastante didático.

Beerfridgecam. É como o seriado "Friends", só que em tempo real e com atores não–milionários. A câmera montada por Scott Binkley focaliza a geladeira de chope do apartamento, e mostra as idas e vindas de seus convidados em busca de um gole. O site chega a receber 6.000 visitas nos fins de semana, quando pessoas do mundo todo acompanham as noitadas de Scott e seus amigos.

Newborncam. Esta câmera focaliza os recém–nascidos na maternidade do Overlook Hospital. Novos bebês podem ser vistos pelos pais, pelos familiares e pela torcida do Flamengo.

Ashtraycam. Esta câmera focaliza, creia, um cinzeiro. É uma das webcams mais populares de Toronto, no Canadá. É atualizada a cada 35 segundos.

Eaglewatch. O mundo animal em tempo real. Aqui você pode ver um casal de águias carecas chamadas Chief Reelfoot e Laughing Eyes, em seu ninho no parque nacional de Reelfoot Lake, no Tennessee.

Sobre o autor

Sergio KulpasSergio Kulpas (sergiokulpas@gmail.com) é jornalista e escritor.

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

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