Livro traz à tona passado colaboracionista da IBM
12 de fevereiro de 2001, 0:00Pensando em dominar mercados globais, IBM alemã teria prestado eficientes serviços de tecnologia de banco de dados para Hitler rastrear judeus.
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Por Eric Auchard e Joan Gralla, da Reuters
A IBM se prepara para enfrentar as acusações formuladas num livro recém–lançado e num processo na Justiça, segundo os quais os equipamentos de tabulação produzidos pela empresa em sua unidade na Alemanha ajudaram Adolf Hitler a sistematicamente identificar e selecionar as vítimas do Holocausto.
O livro, já lançado em vários países e também no Brasil (O Livro Secreto: A IBM e o Holocausto, Editora Campus, R$ 54,00 na Livraria Siciliano), foi escrito pelo pesquisador Edwin Black, com a ajuda de uma equipe de 100 outros pesquisadores.
Os historiadores sabem há décadas do uso que os nazistas faziam dos tabuladores Hollerith, o computador mainframe da época, mas o livro lança luz sobre as transações comerciais da IBM e até que ponto a empresa pode ter adequado suas máquinas para satisfazer às exigências nazistas.
Na sexta–feira a IBM respondeu a questões gerais possivelmente suscitadas no livro com uma carta publicada no mural informatizado interno da empresa, lido por seus mais de 307 mil funcionários.
Processos na Justiça
A polêmica em torno das alegadas conexões nazistas da IBM ocorre num momento em que diversas empresas européias vêm enfrentando processos na Justiça movidos por vítimas do Holocausto e seus descendentes.
Segundo o advogado Michael Hausfeld, da firma Cohen, Milstein, Hausfeld & Toll, de Washington, a IBM foi citada num processo aberto na sexta–feira num tribunal federal do Brooklyn em nome de cinco vítimas do Holocausto. Hausfeld integrou uma equipe de advogados que, no ano passado, obrigou a Alemanha a criar um fundo de reparação de quase 5 bilhões de dólares para escravos da era nazista.
O processo, cuja abertura foi programada para coincidir com a publicação do livro de Black, afirma que a IBM, com conhecimento do que fazia, forneceu tecnologia usada para catalogar vítimas dos campos de extermínio e colaborou na "perseguição, sofrimento e genocídio" antes e durante a 2ª Guerra Mundial.
"Hitler não teria podido identificar de maneira tão rápida e eficiente os judeus e outras minorias, usá–los como escravos e, finalmente, exterminá–los, sem a ajuda da IBM", disse Hausfeld em comunicado à imprensa, no domingo.
Uma porta–voz da IBM disse que a empresa não fará comentários até tomar conhecimento do teor do processo. O processo também afirma que a IBM negou acesso a historiadores e outros aos arquivos que demonstrariam a cumplicidade da empresa no Holocausto.
No entanto, grandes trechos do livro se baseiam em correspondência da empresa que a IBM afirma ter disponibilizado através de bibliotecas de pesquisa acadêmica, numa iniciativa de transparência incomum entre empresas americanas que teriam tido vínculos com a Alemanha nazista.
Tecnologia da IBM teria sido crucial para a política nazista
O livro reaviva uma discussão carregada sobre o papel dos altos executivos da IBM, incluindo seu fundador e presidente, Thomas J. Watson, em fazer negócios com Adolf Hitler, desde sua chegada ao poder.
O livro também descreve os vínculos complexos e as relações cada vez mais tensas entre a IBM e sua subsidiária alemã, a Dehomag, que foi o segundo maior território de vendas da empresa na década de 1930, apesar do boicote internacional à economia nazista.
"A IBM e o Holocausto" destaca a fome estatística subjacente à campanha nazista de localizar, identificar e classificar suas vítimas. Na condição de fornecedora quase exclusiva de equipamentos de bancos de dados ao Terceiro Reich, a IBM alimentou essa fome, não por simpatizar com os ideais nazistas, afirma Black, mas pelo desejo de dominar os mercados globais de seus produtos.
Black descreve como as máquinas Hollerith proliferaram no governo e nas empresas alemães na década de 1930, permitindo que os nazistas indexassem nomes, endereços, mapas genealógicos e as contas bancárias de seus cidadãos. Ele afirma que a IBM manteve o controle da tecnologia Hollerith durante toda a era, além de controlar seus cartões perfurados exclusivos e as peças de manutenção.
O livro inclui a descrição de como os campos de concentração usavam os cartões da IBM para classificar suas vítimas. Os homossexuais eram identificados com o número 3, os judeus como número 8, ciganos como 12 e assim por diante. Cada prisioneiro tinha um número de identificação exclusivo seu em seu cartão Hollerith.
As máquinas de cartões perfurados da IBM datam de 1890, quando foram criadas pelo americano de origem alemã Herman Hollerith para compilar o censo demográfico americano. Elas passaram a ser amplamente usadas em escritórios de todo o mundo muito antes da era nazista. O que mudou nessa época foi a finalidade com que os nazistas as usavam.
Vários estudiosos do Holocausto se negaram a comentar o livro de Black, dizendo que ainda não o viram. Um deles disse temer que, devido ao segredo que cercou o projeto, os especialistas não tenham podido avaliar as provas em que o livro se baseia e rebater possíveis erros.
A IBM ainda hoje é um dos maiores fornecedores mundiais de bancos de dados. Os cartões perfurados Hollerith são a mesma tecnologia à qual foi atribuído o fracasso na contagem dos votos na eleição presidencial americana na Flórida, no ano passado. [Webinsider]
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