29 de janeiro de 2009, 20:25
A marca que não fizer comunicações dirigidas para cada um de seus públicos estará condenada à pior das maldições: ficar esquecida para sempre. Se o gênio da lâmpada aparecesse hoje, teria que mudar o discurso padrão.
A era da comunicação de massa já era.
Basta ver que termos como “horário nobre” perderam toda a sua nobreza com a evolução das mídias fragmentadas – como internet e celular – em que as pessoas são impactadas a qualquer hora, de qualquer lugar. Assim, o “um por todos” cada vez mais dará lugar ao “todos por um”, fazendo com que ações “focais” se tornem – em tempos de crise – tão importantes quanto as virais. E muito mais rentáveis.
Afinal, o poder passou de uma vez por todas para as mãos do consumidor, cada vez menos receptivo às publicidades “tradicionais”. Ele agora quer interagir com a mensagem, alterar o conteúdo, fazer sua própria versão e convidar os amigos para ver o resultado. Deixou de ser apenas um número nos relatórios de audiência para ter nome e endereço completos. E sentindo sua importância crescer, muitas vezes ousa até desafiar as próprias marcas.
Fico imaginando, por exemplo, como seria a receptividade ao gênio da lâmpada nos dias de hoje. O “consumidor moderno” provavelmente duvidaria bastante da tal mega oferta dos três pedidos. E, principalmente, teria uma imensa dificuldade para engolir aquele discurso genérico padrão – já que, hoje em dia, cada consumidor pode responder aos estímulos de uma forma diferente.
Acho que seria mais ou menos assim:
- Nossa, é o que eu estou pensando? Deixa eu esfregar esse troço pra ver se…
- Ó meu amo! Obrigado por me libertar!
- Não acredito! É o gênio da lâmpada!!!
- Eu mesmo, ó meu novo senhor! E em retribuição por ter me libertado de séculos de sofrimento, concedo-lhe o direito de fazer três pedidos, ó meu amo.
- Jura? De verdade???
- Sim, ó meu novo amo e senhor.
- Então, antes de mais nada, me esclarece uma dúvida: por que te chamam de “gênio da lâmpada” se esse troço de onde você sai não tem nada a ver com uma lâmpada?
- Bom, ó meu amo e senhor… na época em que fui aprisionado, ainda iluminavam os cômodos dos palácios com recipientes assim cheios de óleo incandescente?
- Sorte sua: com essa barriguinha aí, você ia sofrer muito mais pra entrar em uma lâmpada incandescente dos dias de hoje… Isso se não te obrigassem a entrar em uma fluorescente?
- Mas, graças ao meu novo amo e senhor, eu?
- Primeiro pedido: para de me chamar assim. Pode ser?
- Pedido concedido, ó meu brou.
- Isso, bem melhor assim. Agora me esclarece uma outra dúvida: e se eu pedir algo impossível de ser realizado?
- Eu farei o possível e o impossível para poder lhe retribuir o favor, ó meu nego.
- E se for um pedido que você não pode realizar de jeito nenhum?
- Eu posso realizar qualquer pedido, ó meu chapa.
- Ah é?
- Hum-hum.
- Então agora eu quero ver: desejo saber quantos anos tem a Glória Maria.
- Três desejos? Posso pedir qualquer coisa, né?
- Sim, ó meu novo amo e senhor.
- Então vamos lá, sem perder tempo. Pedido nº 1: quero que o meu número de pedidos seja multiplicado por 1 milhão.
- Mas, meu amo… Apesar de ser eternamente grato ao senhor, poderei realizar somente três deles.
- Tudo bem, sem problemas. Realiza esse meu desejo então?
- Desejo realizado, ó meu novo amo e senhor.
- Perfeito. Pedido nº 2: quero que todos os meus pedidos sejam realizados em dobro.
- Mas, meu amo… não sei se…
- Não pode qualquer coisa? Não é isso que tá no contrato?
- Sim meu amo, mas?
- Então, não tem o que discutir. Pode realizar, senão te processo.
- Está certo. Desejo realizado, ó meu novo amo e senhor.
- Falta mais um, né? Vamos lá: desejo que, a partir de hoje, eu passe a ocupar o seu lugar.
- Mas, meu amo? aí o que seria de mim?
- Não se preocupe. Você passa a trabalhar como meu assistente e, em troca, te dou 10% dos pedidos realizados. Fechado?
- Só três pedidos?
- Sim, ó meu novo amo e senhor.
- Eu não posso parcelar em mais vezes?
- Creio que não, ó meu novo amo e senhor.
- Mas quando esse valor vai ser reajustado?
- Temo que não haverá reajustes, ó meu novo amo e senhor.
- Hmmm, entendi? Política de contenção de gastos, né?
- Mas o senhor pode pedir o que quiser, e farei de tudo para realizar qualquer um de seus desejos, ó meu novo amo e senhor.
- Então posso gastar só um pedido agora e guardar os outros dois?
- Bom, geralmente eu costumo realizar todos os pedidos de uma vez só, ó meu novo amo e senhor?
- Mas eu preferia estudar melhor o mercado de desejos antes? Analisar todos os riscos com calma, e fazer um estudo mais apurado, sabe? É que você me pegou meio desprevenido?
- Tudo bem, ó meu novo amo e senhor. Se esse é o seu desejo, assim será: faça um pedido agora e realizarei os outros dois quando o senhor assim desejar.
- Legal! Posso pedir?
- Sim, ó meu novo amo e senhor.
- Desejo passar um dia dentro da cabeça do Barack Obama.
- Por que três pedidos? O que eu fiz pra merecer isso?
- Me libertou de uma maldição que me obrigou a passar séculos preso dentro dessa lâmpada, ó meu novo amo e senhor.
- Lâmpada? Que lâmpada? Eu só dei uma chacoalhadinha nesse suporte de molho de salada para ver se ele ainda tava cheio…
- Mas esse seu gesto acabou com minha interminável agonia, e agora me sinto obrigado a retribuí-lo, ó meu novo amo e senhor.
- Que papinho mais estranho esse, hein? Me chamando de “amo”, querendo me agradar… O que você tá querendo em troca, hein?
- Não quero nada. Quero apenas realizar três dos seus desejos como forma de gratidão por ter me livrado dessa maldição, ó meu novo amo e senhor.
- Isso tá me cheirando a golpe… Quando a esmola é muita…
- O que eu posso fazer para provar que desejo apenas gratificá-lo, ó meu novo amo e senhor?
- Você jura POR DEUS que não vai pedir nada em troca? Jura?
- Posso jurar por Alá, ó meu novo amo e senhor.
- Então ajoelha aqui na minha frente e jura.
- Mas, meu amo… eu não tenho pernas.
- Sabia! Impostor sempre tem umas desculpinhas esfarrapadas.
- Ó meu novo amo e senhor! Em retribuição por ter me libertado de uma maldição que me condenara a séculos de sofrimento, concedo-lhe o direito de realizar três desejos.
- Três? Precisa não. Um só já é suficiente.
- Como quiser, meu novo amo e senhor. E qual seria esse desejo?
- Quero que você volte lá pra dentro.
- Ó minha nova ama e senhora! Em retribuição por ter me libertado de séculos de aprisionamento, concedo-lhe o direito de realizar três desejos.
- Muito obrigada querido, mas só quero uma coisinha simples?
- Assim como desejar, ó minha nova ama e senhora. E qual seria esse único pedido?
- Me bate!
Ou seja, brincadeiras à parte, a marca que não fizer comunicações dirigidas para cada um de seus públicos estará condenada à pior das maldições: ficar esquecida para sempre.
E não precisa ser nenhum gênio para chegar a essa conclusão. [Webinsider]
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4 comentário(s)
Data : 30/01/2009 às 14:01
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é... o mesmo produto(os 3 desejos) mudando a abordagem, já que todos em comum precisaram dos desejos. o marketing para cada perfil.
Data : 30/01/2009 às 11:07
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O gênio ficou 10000 anos aprisionado por um problema grave de usabilidade...
No lugar de esfregar, a lãmpada tinha um botão vermelho com o texto Click Here que ficava piscando.
Data : 30/01/2009 às 07:30
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ha ha ha ha....
Boa, boa.
E a última frase do texto deixa as brincadeiras à parte para dizer a real verdade.....
Junior
Data : 03/02/2009 às 07:51
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Como dizemos aqui no interior de SP.
Muitos empresários tentam vender focinho de porco como se fosse tomada.
Aí complica!
Excelente texto.