Do tempo em que as gifs animadas reinavam
25 de fevereiro de 2003, 0:00Olhando para trás é um conforto perceber que o excesso de animações e os applets de texto correndo na tela caíram em desuso. É engraçado recordar o encanto que as figuras se mexendo despertavam.
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O ano era 1995. Não havia ainda o que chamamos de “projetos web”. Os conceitos e a mentalidade dos profissionais e clientes eram outros, pois nossa realidade era bem diferente. A internet ainda era uma incógnita. Ninguém sabia se emplacaria, se seria uma mídia poderosa e se acima de tudo se encontraria aceitação do público. Tecnologia sempre gerou receio dentro das empresas. Mudar é sempre muito difícil, mas a internet veio quebrando paradigmas e tornou–se cada vez mais sólida e reconhecida.
Para mim, que em 1993 com apenas 15 anos já estava trabalhando com os BBS*, a migração para a internet foi uma coisa automática. Mesmo porque, por conhecer o pessoal dos grandes BBS de Belo Horizonte, fui beta–tester da tal WWW numa tarde de sábado… Pois é, antes mesmo de ser comercializada já estava eu testando e apanhando de Trumpet Winsock, Mosaic… e pior de tudo, procurando algum site para acessar! (risos)
No início não existia tanta demanda para desenvolver as home pages. O trabalho pesado de então era o de instalar e configurar o acesso à internet e, pior de tudo, dar suporte aos clientes. Respondíamos às mais variadas e inusitadas perguntas, como: “Quanto vou pagar pra acessar um site do Japão?”. Era divertido!
À medida que foi crescendo o número de pessoas conectadas, aumentou a demanda para o desenvolvimento de sites. Foi aí que em 1995 comecei a trabalhar exclusivamente no desenvolvimento web.
Não haviam muitas ferramentas. Era Bloco de Notas para DIGITAR todo o código html, poucos softwares de edição de imagens e algumas pequenas aplicações para criar imagemaps e gifs animadas. Gifs animadas?? Pois é, site sem movimento não era site. Nem adiantava apresentar para o cliente uma página sequer sem alguma coisa mexendo na tela.
Convencionou–se que quanto mais animação, melhor. Era comum entrar em uma página com tantas animações e sentir–se perdido. Um cachorro corria pra direita, um fogo “queimava” no canto, as linhas mexendo, bolinhas piscando! Psicodelia total! Vivíamos a época das gif animadas.
Essa mania de “coisa mexendo” deu início a uma infinidade de sites com diversos tipos de animações. Quem não se lembra dos vários tipos de linhas que mudavam de cor e mexiam? Das bolinhas em 3D de várias cores que piscavam intermitentes? E das caixinhas de correio e envelopes para se linkar o endereço de e–mail!?!
Parecia que existia uma regra, pela qual ícones e marcadores teriam de ser as bolinhas coloridas, o link do e–mail tinha de ser o envelope ou caixinha de correio abrindo. Toda página era assim.
A mania de “coisa mexendo” não parou por ai! Surgiram os javascripts que faziam um texto correr dentro de um box de formulário ou no rodapé do browser. Isso virou quase que uma religião na web. Qualquer site tinha lá seu javascript correndo textos pela tela. A mania seguinte foi um applet java que dava o efeito do reflexo do céu na água. Tudo tinha seu reflexo agora! Fotos de paisagens, fotos pessoais, nomes, tudo ficava a balançar na tela.
Ao mesmo tempo você podia perceber que a internet estava reduzindo distâncias e propagando informação. Surgiam códigos e mais códigos de todos os cantos do mundo. Pequenas aplicações para todos os gostos foram surgindo e sendo copiadas. Acredito também que esta fase tornou a web mais interativa, pois você entrava em um site e aparecia uma janela perguntando seu nome. Logo quase todo site tinha mensagens personalizadas. Havia também os scripts que informavam sobre seu browser, seu navegador, a hora e data atual, etc. Claro que isso não é nada demais nos dias de hoje, mas naqueles tempos…
E a febre dos sonzinhos .mid? Parecia festa de casamento ou aniversário de avó. Aquele tecladinho que insistia em tocar de Michael Jackson a Raul Seixas. Enquanto você ficava no site, lá estava aquele sonzinho a embalar sua navegação. Não estou criticando quem usou, mesmo porque eu tinha lá meu midi do Mettallica tocando na minha página pessoal!
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Veio o Flash da Macromedia, que na minha opinião é a mais sensacional e poderosa ferramenta para web. E como toda novidade, caiu no gosto popular. É comum você escutar “Meu site tem Flash!!” ou “Fiz um site, e tem altas coisas em Flash”. É como se você estivesse agregando mais valor ao seu site. Como se um site pelo fato de ter Flash estivesse apto a figurar na galeria da fama.
Vieram então centenas de sites com os mesmos botões e sons das bibliotecas do Flash. Menu que não fizesse um barulhinho não era menu. Foi uma época mágica para os psicodélicos de plantão. Mudou a tecnologia, mas a mania de coisa mexendo preservou–se forte e intocável.
Hoje o excesso de animação pode servir para separar o joio do trigo. Saber dosar a quantidade de animações e, acima de tudo, analisar a usabilidade dessas animações em prol da boa navegabilidade é um excelente fator para medir a qualidade de um webdesigner ou produtor web.
O cliente continua querendo coisas mexendo pela tela. Muitas vezes você consegue impressioná–lo com um projeto gráfico trabalhado e harmonioso, mesmo que não existam animações.
A questão não é ser contra a animação, mas acredito que saber onde e o quê animar são fatores que fazem a diferença em qualquer website. [Webinsider]
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*BBS – Bulletin Board System: eram sistemas de trocas de arquivos e mensagens nos quais você ligava para o número telefônico do BBS e, quase sempre pagando uma quantia mensal, tinha acesso a softwares, grupos de mensagens nacionais e internacionais, jogos e outros entretenimentos online. Tudo em modo texto ASCII ou ANSI. Os grandes BBS se tornaram os primeiros provedores de acesso à internet do Brasil.

