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Fábio Fernandes
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Literatura de horror também pede sangue novo

28 de janeiro de 2003, 0:00

Off–topic: coletânea recente de histórias de vampiros apresenta uma série de bons contos inéditos, mas peca pelo óbvio. Há novos e bons escritores em torno do tema, inclusive brasileiros.

Por Fábio Fernandes

Na literatura de horror através dos tempos, uma categoria adquiriu tamanho destaque que hoje forma praticamente um gênero isolado: as histórias de vampiros. O fascínio que o vampirismo exerce sobre as pessoas de modo geral é evidente na quantidade de livros publicados, que excedem em muito a extensa filmografia sobre o tema: nos países de língua inglesa, as histórias de vampiros talvez só percam para as lendas arturianas em termos numéricos.

Se no Brasil não temos uma tradição de escrever histórias de vampiros (coisa que parece estar lentamente mudando, mas sobre isso falarei mais adiante), nunca nos faltou o fascínio pelas chamadas “criaturas da noite” – fascínio recompensado de tempos em tempos por lançamentos de traduções do que está circulando lá fora.

A coletânea 13 dos Melhores Contos de Vampiros da Literatura Universal, organizada por Flávio Moreira da Costa (Ediouro), é o exemplo mais recente desta “vampiromania”. Ao contrário das coletâneas temáticas anteriores editadas por Flávio (sobre humor e literatura policial), que continham cada uma cem contos, esta apresenta o indefectível e cabalístico número 13. Maldade com os leitores: a coletânea é tão bacana que merecia mais material.

Um presente para os leitores: a maioria dos contos é inédita em português, como os ótimos Luella Miller, de Mary Eleanor Wilkins–Freeman e Porque o Sangue é a Vida, de Francis Marion Crawford. Destaque para O Hóspede de Drácula, de Bram Stoker. Este último conto é na verdade um capítulo de Drácula que foi cortado pelo próprio Stoker na edição final de seu clássico, e mostra o encontro quase fatal de Jonathan Harker com um estranho (pero no mucho, para quem leu o livro) lobo.

Das republicações, duas histórias se destacam: Carmilla, de Sheridan Le Fanu, novela escrita em 1872 (uma das inspirações para Stoker criar o seu vampiro – Drácula foi publicado em 1897) e inovadora no gênero por suas insinuações nem um pouco sutis de lesbianismo, aparece na íntegra. Infelizmente, não ocorre o mesmo com uma das histórias vampirescas mais emocionantes de todos os tempos: Eu sou a Lenda, de Richard Matheson. Única história de ficção científica da coletânea, ela apresenta o vampirismo como resultado de uma praga que contaminou toda a humanidade, à exceção de um único homem, que dedica os dias a caçar os vampiros em suas casas e exterminá–los. Deste romance, que já foi levado às telas em 1971 com Charlton Heston (A Última Esperança da Terra), aparece apenas um capítulo. Que, no entanto, é o suficiente para deixar no leitor um gostinho (de sangue, claro) de quero mais.

Se a coletânea vale a leitura? Claro que vale, e muito. Mas…

O livro poderia ser mais, digamos, saboroso. O título da coletânea poderia, por exemplo, ser mais específico e avisar: 13 histórias góticas de vampiros. Porque, com a exceção de Eu sou a Lenda, todas as demais, até mesmo a história que encerra a coletânea, de Anne Rice, se passam no século dezenove ou no início do vinte, e sempre com ambientação gótica.

Nada contra, mas, por melhores que sejam as histórias, elas acabam soando um pouco repetitivas. Flávio Moreira da Costa talvez não saiba, mas novos escritores andaram revisitando o tema nos últimos anos e criaram trabalhos interessantes, como Children of the Night, de Dan Simmons, Lost Souls, de Poppy Z. Brite, e Anno Dracula, de Kim Newman. Destes autores, apenas a americana Poppy Z. Brite foi publicada no Brasil, com o recente Plastic Jesus (Editora Conrad). Simmons e Newman, dois escritores bastante premiados nos EUA e na Inglaterra, ainda não deram o ar de sua graça por aqui.

Existem até dois exemplos dignos de nota de autores brasileiros da nova geração: André Vianco e Gérson Lodi–Ribeiro. O primeiro, em seu livro Os Sete (Editora Novo Século, 2000), conta uma história ambientada no litoral do Rio Grande do Sul envolvendo uma nau portuguesa do século XVI e nada menos que sete criaturas das trevas, num verdadeiro clima “A Noite dos Mortos–Vivos”. Já Gérson criou um cenário bastante interessante envolvendo uma raça de vampiros indígenas no Brasil colonial em O Vampiro de Nova Holanda. O livro foi publicado em 1998 em Portugal, pela editora Caminho (a mesma de José Saramago). Gérson nunca conseguiu publicação no Brasil.

Pena que esses autores não constem da coletânea: para usar um trocadilho tão velho quanto os familiares de Drácula, a literatura de vampiros está precisando de sangue novo. [Webinsider]

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Sobre o autor

Fábio FernandesFábio Fernandes (zeroabsoluto@gmail.com) é jornalista, escritor e tradutor. Mantém o blog Pós-estranho.

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