Webinsider

Negócios

A intranet entre o discurso e a prática (9 – final)

06 de janeiro de 2003, 0:00

Quando a intranet está inserida em um ambiente muito hierarquizado e burocrático, os resultados simplesmente não aparecem. Assim, quanto mais avançada a organização, melhores as chances de proveito.

Por Nenhum

Ricardo Saldanha

Chegamos ao nono e último artigo da série. No decorrer dos anteriores, tentei sistematizar uma seqüência “ideal†de passos que nos ajudassem a alcançar sucesso na implantação de uma intranet. Falamos de mitos, endomarketing, gestão do conhecimento e muito mais. Disso tudo, você, leitor fiel, já sabe.

O que talvez não saiba é de onde veio a motivação para assumir essa empreitada. Ou será que sabe? Afinal, o título do primeiro artigo (“de prima pobre a popstarâ€) já era em si uma boa dica…

Motivações

Quem já trabalhou com intranets sabe que há, em geral, uma dissonância entre discurso e prática.

Por um lado, não há um empresário sequer que abra a boca para falar mal de uma intranet. Elas constituem um daqueles inéditos consensos: qualquer cristão, se perguntado, dirá que trata–se de uma “ferramenta maravilhosaâ€. Dizem que ela “aumenta a produtividade†e pode ser “rapidamente implementadaâ€. O adjetivo “revolucionária†também é muito comumente associado a elas, mas…

Na prática, não é o que se vê por aí. O discurso continua lá, mas os investimentos na intranet normalmente são pífios, principalmente quando comparados a orçamentos de outras áreas. Quando existem, prevalece uma certa confusão, onde quase sempre o imediatismo (somado ao trabalho de marketing das software houses) faz com que os recursos sejam aplicados na compra de alguma “soluçãoâ€, prevalecendo a visão de que intranets são apenas ferramentas de TI.

Depois, os mesmos que as endeusam acabam procurando um bode expiatório para os fracassos. “Se dizem que é tão bom e aqui não funciona, deve ser porque as pessoas não colaboramâ€, pensam alguns. Mudam o software de gestão de conteúdo, mudam as pessoas, parte–se para um retrabalho e… na maioria das vezes, o que não mudam são as frustrações. Ninguém pergunta, por exemplo, porque as pessoas não colaboram…

Navegar é preciso

Esse foi o motivo de eu ter optado, quase sempre, por um enfoque prático – embora tenha procurado, aqui e ali, ressaltar que cada proposição tinha uma razão de ser, um fundamento maior.

Afinal, fácil e rápido é roubar doce de criança. Todo o resto, nessa vida, leva algum tempo e demanda planejamento (dependendo da criança, até para tirar–lhe o doce precisaremos de um pouco de cada…).

A isso se resume nossa odisséia em nove artigos: não é simples introduzir na vida de uma comunidade, por mais íntima da informática que ela seja, uma nova forma de trabalhar e de ver o mundo. Mas é possível.

Portanto, mostrar que intranets são ferramentas viáveis – mesmo que sub–utilizadas – foi minha primeira grande motivação e meta. E talvez seja o primeiro grande passo para alcançarmos, no futuro, um resultado mais a altura do seu potencial.

O grande guarda–chuva da Era do Conhecimento

Aliás, se você está “antenado†com os últimos acontecimentos, deve saber que as intranets não estão sozinhas nos seus pleitos por mais atenção e compreensão.

Não só as mídias interativas, como a intra e a internet, mas também as ferramentas de cunho interativo, como o CRM, pagam o preço por serem filhos da Era do Conhecimento nesse momento de transição.

Quem trabalhou com internet nos últimos dez anos sabe do que estou falando. Após a efervescência das .COM, veio a ressaca, o estouro da bolha, que ainda hoje condena os profissionais da área a viverem de esperança, aguardando tempos melhores.

Quem leu recentemente a Revista Exame também viu uma pesquisa que tentava elucidar o porquê do CRM não ter decolado, redundando em seguidos fracassos, não obstante os grandes investimentos das corporações. A Consultoria responsável pelo estudo concluiu: não funciona porque as empresas simplesmente não o compreendem…

Todos esses filhos do novo tempo trazem no seu DNA a mesma exigência: só será possível retirar deles todo o seu potencial quando nós, seres humanos, funcionários, empresas, nos libertarmos de boa parte dos paradigmas da Era Industrial.

Revolução?

Assim, para os que pensam que intranets e cia. são revolucionárias, eu reafirmo: na verdade, elas exigem uma revolução. Demonstrar isso sempre foi minha segunda – e maior – motivação, desde o início.

O que vemos hoje é uma tentativa de enquadramento das novas ferramentas a um modelo instrumental, ultrapassado. Crawford Kilian, pai do termo “webwritingâ€, é brilhante ao identificar isso. E mais brilhante ainda ao falar da necessidade de evoluirmos para um modelo construtivista.

Pode–se dizer que diariamente um acordo tácito está sendo descumprido. As intranets dizem: “construa uma comunidade ao meu redor e eu proporcionarei a todos a possibilidade de elevar o conhecimento do grupo à enésima potênciaâ€. E o que fazemos? Empurramos um monte de informação goela abaixo da rede e nos limitamos a criar mais formas de controle por meio delas. E mesmo com excesso de matéria–prima, construímos pouco ou quase nada. Não pode mesmo dar certo…

Pragmatismo, um caminho para a utopia

No artigo anterior a este, sonhamos o Portal do Conhecimento – e tudo pareceu demasiado utópico, acredito. Mas não é.

Note que mesmo para a implantação da mais simples das intranets, é preciso avançar ao menos um pouco em direção a uma empresa diferente do modelo atual. Ou seja: mesmo para criar um repositório de informações, é preciso que os funcionários se disponham a compartilhar, sejam estimulados a fazer isso – o que é a sementinha da mudança maior, que irá permitir, muito mais adiante, o nascimento do Portal do Conhecimento.

Quando esse mínimo não está presente – quando a intranet é inserida num ambiente arcaico, muito hierarquizado e burocrático –, os resultados simplesmente não aparecem. E não haverá milagre capaz de resolver esse dilema. Assim, quanto mais avançada a organização, melhores as chances de retirar grande proveito da sua intranet.

Chegamos ao último artigo da série trilhando um caminho prático porque creio ser esse o melhor meio de alcançarmos o objetivo maior de mostrar que intranets podem mesmo reviver a fábula do patinho feio, deixando de serem primas pobres da internet e passando a desfrutar da posição de popstar.

Talvez a intranet possa tirar vantagem de ter sido esquecida ou subestimada: sobre ela não pesam, ainda, retrocessos retumbantes como aconteceu com a internet – e como parece ser cada vez mais o caso do CRM. Quem sabe ela não poderá valer–se da situação de descrédito para, como boa mineira, comer pelas beiradas, sendo a primeira a demonstrar na prática a real força das mídias interativas?

Trilhamos, juntos, o caminho do possível para apontar para a existência do que hoje parece inviável, mas que ainda não pode ser dito impossível. Se essa série puder ter contribuído para isso, ficarei muito feliz. Se ajudou a jogar um pouco de luz sobre o assunto, também.

O fim do começo

Espero que tenha ficado claro: nunca foi minha pretensão tecer aqui axiomas universais, mas sim compartilhar o que vivi e estimular o debate. A julgar pelas respostas positivas e pelo excelente ritmo da lista de discussão que criamos (a WI Intranet, veja abaixo), creio que valeu a pena. A você, que me acompanhou nesse trajeto até aqui, o meu sincero muito obrigado.

Esse deveria ser um artigo de despedida, o começo do fim da série. Mas transformou–se também no fim do começo, já que a resposta que vocês, leitores, me ofereceram, fez com que o editor do Webinsider me convidasse a assinar, daqui por diante, a primeira coluna fixa sobre intranets da internet brasileira.

Essa é uma daquelas situações inusitadas, quando você passa de platéia cativa a co–produtor do programa. Quando enviei a proposta da série de artigos ao Webinsider, não foi à toa: sempre fui fã do site (para mim, o melhor meta–site da internet brasileira) e, agora, vou poder ser parte dele…

Assim, é com muita honra e muita alegria que convido você a começar 2003 acompanhando os artigos quinzenais que estarei escrevendo. Neles, vou abordar novos pontos, aprofundar outros e, sobretudo, procurar acompanhar de perto a evolução das intranets. Até lá! :o )

• • • • • • • • • • • • • •



Como assinar a WI Intranet

Há duas maneiras:

1. Acesse http://www.10minutos.com.br/wi_intranet e clique em “Quero entrar na listaâ€; depois, é só seguir as instruções; ou

2. Mande um e–mail para wi_intranet–10minutos.com.br–request@lists.10minutos.com.br com a palavra “Subscribe†no assunto (não coloque nada no corpo da mensagem, ok?).

Depois, é só responder o e–mail de confirmação e embarcar na verdadeira aventura que é discutir as possibilidades que as intranets nos trazem! [Webinsider]


Sobre o autor

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Palavras-chave relacionadas a este texto: Nenhuma palavra-chave foi encontrada!

Comentários

Ninguém comentou o artigo "A intranet entre o discurso e a prática (9 – final)"

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Webinsider