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Um ano estranho para a internet, para variar

05 de janeiro de 2003, 0:00

Opinião: se em 2002 houve progresso em comércio, serviços e negócios, a internet não foi levada a sério, pelo menos na parte que concentra o que chamamos de conteúdo.

Por Nenhum

Julio Daio Borges

A internet passou 2002 inteiro sem ter sido levada a sério. As notícias que chegaram (e ainda chegam) a seu respeito se restringem ao caráter adolescente, vicioso e até mórbido da Grande Rede.

Em 2002, os cadernos de “Informática” (os únicos que restaram) se mobilizaram em torno das mortes ocorridas na Coréia do Sul, por inanição: dois jovens que passaram dias jogando online. É assim que se vê, infelizmente, a internet no Brasil. Ou então como um “poço dos desejos”, em que pessoas marcam encontros às escuras, depois culpam o meio pelo fracasso na relação.

Então Veja descobre e revela à classe média a internet, que já existe há pelo menos cinco anos no País. Claro, ainda há pesquisadores sérios, mesmo no Brasil, estudando a web e as mudanças de comportamento que se seguem. Como Alice Sampaio, que escreveu “Amor na Internet”, um livro que lhe consumiu dois anos, divertidíssimo, mas que foi virtualmente descartado. Nesse contexto, o jornalismo feito em internet ainda sofre de preconceito e, algumas vezes, já ameaçou acabar.

Foi–se o tempo em que se acreditava na internet como substituta do jornal. Mas se a imprensa vive hoje na corda bamba financeira, não era de se esperar (dela) outro comportamento: autodefesa e autopreservação. O mais grave, contudo, é que a própria internet não se leva a sério e está cedendo às pressões para se transformar num circo a céu aberto, num hospício sem limites.

Em 2002, muita gente boa preferiu ser “clown”, rendendo–se à piadinha e ao trabalho de superfície – em vez de arregaçar as mangas e produzir algo consistente e profundo. E tivemos a explosão dos blogs. Quer queira quer não, a forma mais comodista de abdicar de qualquer responsabilidade, de qualquer compromisso, parasitando a grande mídia e ainda por cima falando do próprio umbigo. É o individualismo, que não admite mediação, trocas ou relacionamentos – encarcerando o sujeito na cela da imaturidade adolescente.

Não é à toa que a internet concentra, por pixel quadrado, o maior número de revoltados da boca pra fora. Muita gente ainda prefere vociferar na WWW a enfrentar a dura realidade do “mundo real”. Universos são concebidos e ideais são traçados sem a menor conexão com o que há do lado de fora.

A conclusão é a mesma de sempre: espera–se que a inteligência, derrotada e à míngua, não abandone a internet como abandonou há muito a televisão. [Webinsider]

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