Webinsider

Educação e ensino - Redes sociais

Compartilhar sem aprender não adianta muito

26 de novembro de 2002, 0:00

A principal atitude desejável em gestão do conhecimento não é o compartilhamento. O interesse da empresa do conhecimento não é todos saberem as mesmas coisas, mas sim todos saberem as coisas certas.

Por Saulo Figueiredo

Motivado por “provocações” feitas na lista de discussão que participo (competitive–knowledge@yahoogroups.com), estive pensando sobre as várias posturas e atitudes humanas úteis e desejáveis em gestão do conhecimento – como o compartilhamento de conhecimento, por exemplo –, de forma a avaliar como as pessoas enxergam os comportamentos apreciados pela gestão do conhecimento.

Outros importantes exemplos de atitudes desejáveis são: compromisso com a aprendizagem, coerência nas atitudes, saber contratar, reter, manter e demitir, saber indicar, delegar responsabilidades, promover, alocar, saber onde buscar e procurar informações, gostar de aprender, curiosidade, julgar e interpretar, imaginar, especular, criar e inovar, contar histórias, gostar de ensinar e aprender, dar idéias, informar, ler, realizar, fazer, construir, incentivar, apoiar, motivar, imitar, radicalizar, testar, experimentar, provar, observar, falar e conversar, conhecer e reconhecer.

Por que então as discussões em torno de gestão do conhecimento e das posturas admiradas se concentram principalmente em torno do compartilhamento de conhecimento dentro da empresa? Sinceramente, ando meio cansado de ouvir, na tentativa de demonstrar e justificar a importância das trocas de conhecimento entre as pessoas, aquela história da nota de um dólar (que uma pessoa empresta a outra e assim uma delas fica mais pobre um dólar, enquanto a outra fica um dólar mais rica e que isso não acontece com o conhecimento quando ele é doado a outro colega).

Também cansamos de ouvir relatos de casos que enfatizam os sucessos das trocas de conhecimento em detrimento do egoísmo intelectual. Neles, os autores se esforçam para justificar o compartilhamento do conhecimento, como se isso fosse a única coisa a ser feita ou como a coisa mais importante em gestão do conhecimento. Isso não é verdade. Compartilhar conhecimentos internamente continua sendo importante, mas certamente está longe de ser a coisa mais importante.

Não pretendo passar a idéia que o compartilhamento do conhecimento deixe de ser interessante para empresa. Não é isso. Com maior intensidade ele continuará sendo realizado. Não há como fugir disso, pois qualquer profissional que queira permanecer no mercado terá de abrir–se a oportunidades de troca. Esta é uma condição sine qua non para a empregabilidade.

Se conhecimento é poder, compartilhar é perder poder?. Pretendo chamar sua atenção para o fato que muitas questões e relutâncias surgem quando discutimos o compartilhamento do conhecimento frente ao medo das pessoas de compartilhar o que sabem e assim perderem o status ou a posição na empresa. Se conhecimento é poder, por que alguém compartilharia o que sabe? Se o conhecimento é tão importante para empresa, não seria também tão importante para as pessoas?

Muitas pessoas já deixaram de apoiar iniciativas de gestão do conhecimento por conta de discussões e justificativas em torno do compartilhamento do conhecimento, e isso é como discutir as diferenças entre dado, informação e conhecimento e deixar de fazer gestão do conhecimento por não se ter chegado a uma conclusão a respeito das diferenças entre eles. Observe como às vezes é inútil. Gastamos tanto tempo tentando explicar ou justificar essas diferenças e no mundo real de gestão do conhecimento teremos que desenvolver grande habilidade e aprender a lidar com todos eles (dados, informação e conhecimento) ao mesmo tempo.

Em prejuízo da gestão do conhecimento, muitos acabam deixando de acreditar em seu potencial por conta de discussões polêmicas deste tipo que pouco valor agregam ao contexto do dia–a–dia. Desprezar a gestão do conhecimento por conta das dificuldades do compartilhamento do conhecimento, frente ao seu gigantismo, de maneira pouco exagerada é o mesmo que deixar de produzir um carro por que não se encontrou uma solução para fixação do radiador.

Embora importante, a postura do compartilhamento não é única necessária à gestão do conhecimento. Tratada como única preocupação, transforma–se em risco e ameaça a existência de programas de gestão do conhecimento completos, cegando muitas pessoas para suas oportunidades e iniciativas.

Será que compartilhar tudo o que as pessoas sabem é suficientemente competitivo para empresa? Será que o compartilhamento do conhecimento justificaria todo um programa de gestão do conhecimento na companhia? Presumo que não. Muito mais que compartilhar, as empresas, os programas de gestão do conhecimento e as pessoas devem se focar também no aprender, existindo muitas fontes de aprendizado que não podemos desprezar. Quantos por cento representam o compartilhamento do conhecimento no contexto total das posturas desejáveis em gestão do conhecimento? Compartilhar conhecimentos, comparado com a grande lista de atitudes desejáveis e amigas do conhecimento representa apenas a ponta do iceberg.

Será que se nos preocuparmos demasiadamente como o compartilhamento do conhecimento e suas nuances, não estaremos aumentando o risco de desviar a atenção para coisas tão importantes e menos polêmicas? Ao preocupar–se acentuadamente no compartilhamento do conhecimento não estaria enfatizando muito mais o conhecimento existente e muito menos o conhecimento a ser produzido e adquirido? Quais seriam os prejuízos reais ao superestimarmos o compartilhamento do conhecimento em detrimento de outros comportamentos favoráveis a gestão do conhecimento?

A empresa que superestima o compartilhamento do conhecimento em detrimentos de outras posturas, não estaria propensa a ver todas as suas iniciativas focadas e hiper dependentes também do compartilhamento do conhecimento? Além disso, o compartilhamento do conhecimento não poderia estar embutido dentro de outras iniciativas, preservar seu potencial e produzir seus efeitos sem que as pessoas o percebessem explicitamente?

Outro aspecto interessante em relação a isso, é que se todos na empresa não tivessem nenhum problema com o compartilhamento do conhecimento e todos se dedicassem somente a ele, isso levaria a empresa a um estado de hibernação intelectual total. Se concentrar apenas no compartilhamento do conhecimento em uma empresa dessas, simplesmente igualaria o conhecimento de todos e isso não garante vantagem competitiva alguma. O interesse da empresa do conhecimento não é esse. Não é todos saberem as mesmas coisas. E sim todos saberem as coisas certas.

No exemplo acima, a empresa em pouco tempo se tornaria burra. Mais importante que compartilhar é aprender. E aprender envolve aprender com outros funcionários e profissionais, com o mercado, com os clientes, com os concorrentes, com os parceiros, com os processos, com os fornecedores, com os centros de excelência, com os erros e acertos, com os institutos de pesquisa, com os benchmarks internos e externos e muito mais. Além disso, o aprender não despreza as forças externas, uma vez que grande parte do conhecimento necessário à competitividade está fora da empresa.

Compartilhar sem aprender é o mesmo que decretar a morte. Entre tantos outros comportamentos admiráveis, o ideal seria que todos compartilhassem e aprendessem ao mesmo tempo. Contudo, é terrivelmente pior a uma empresa quando seus funcionários compartilham e deixam de aprender, do que quando eles deixam de compartilhar, mas continuam aprendendo. Este é o sentido deste artigo.

Compartilhar a vacina encontrada para combater um determinado vírus, deixando de aprender mais sobre ele, significa decretar a morte de todos, que se aproximará logo após sua primeira mutação. Tribos indígenas inteiras já extintas compartilharam tudo o que sabiam entre seus membros e isso não as livraram do extermínio. Mesmo compartilhando, se tornaram incapazes de aprender e se preparar contra as ameaças que foram mais tarde as causas de sua ruína.

Por fatores como estes, prefiro enfatizar o aprendizado e utilizar a expressão colaboração. Incrível, mas é muito diferente de compartilhar conhecimentos. Em muitas empresas, o termo compartilhar conhecimento vem carregado de pré–conceitos implícitos e negativos ao sucesso de gestão do conhecimento. Nos programas de gestão do conhecimento, compartilhar o conhecimento deve ter o peso que merece. Nem mais, nem menos.

Se você perguntar na maioria das empresas: Quem vai compartilhar conhecimentos com fulano? Possivelmente muitos passem a se ocupar com outras coisas e encontrem mil desculpas para fugir dessa tarefa. No entanto, quando perguntamos às pessoas, se alguém poderia ensinar fulano, sempre aparecem mais pessoas do que precisamos.

Aprender, compartilhar responsabilidades de maneira inteligente, delegar desafios com base nas competências, estruturar e organizar as entregas de conhecimento aos clientes, elaborar estratégias mercadológicas para o conhecimento, todos exigem certa dose de eficácia em gestão do conhecimento e tal como o compartilhamento do conhecimento, continuam muito importantes a gestão do conhecimento. Também difíceis de serem alcançados, infelizmente estão quase completamente ausentes das discussões inflamadas.

Que pena. [Webinsider]

.

Sobre o autor

Saulo Figueiredo (sfigueiredo@soft.com.br) é pós-graduado em Engenharia da Informação, associado à SBGC e consultor em gestão do conhecimento pela Soft Consultoria

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

Comentários

5 pessoas comentaram o artigo "Compartilhar sem aprender não adianta muito"

Davi Data: 05/06/2007 às 19:12

Atividade: Vendas

Cidade: São Paulo

Amigos…esse tema é apaixonante…não consigo entender COMO não comentaram nada ainda…

( deve ser por isso…não se gosta de compartilhar…comentar então…)

Razões são variadas…desde o fato de que ao se compartilhar pode-se se desnudar e aparecer muitas ou poucas falhas…até mesmo o fato de que compartilhar é um processo de trabalho do ego…

Enfim… o que posso dizer é que gostaria muito de receber artigos que falem mais desse tema…

Deus lhes paguem por tudo e ao autor um abraço…

Do amigo Davi

Anna Data: 13/05/2008 às 11:59

Atividade:

Cidade: Rio de Janeiro

Muito Bom!

Luís Oliveira Data: 02/12/2008 às 20:00

Atividade: professor reformado

Cidade: Estoril

Postura é o número de ovos que uma galinha põe. Também significa a posição do corpo. O que o autor pretende dizer é atitude. A palvra abordagem também seria apropriada.

sergio Branco de Holanda Data: 05/03/2009 às 15:18

Atividade: Vendas

Cidade: Rio de Janeiro

Não acredito que compartilhar seja menor que aprender. Penso que a atitude de compartilhar justamente potencializa o ensinar e muito mais ainda o aprender.

Obrigado Saulo.

Keity Pocelli Data: 23/06/2009 às 22:08

Atividade:

Cidade:

Conhecimento não se divide, se multiplica.

Avisos
Os ítens com asterisco ( * ) são campos de preenchimento obrigatório.
Todos os links inseridos nos comentários possuem o atributo rel="nofollow" para impedir com que user agents (como os mecanismos de busca) sigam os links inseridos para desestimular spammers.
Todos devem se identificar através de e-mail válido.
Os e-mails dos usuários não serão divulgados no site.
Comentários:

Preencha os dados abaixo e clique em enviar

Webinsider