Sobre a discussão estética vs. usabilidade
20 de novembro de 2002, 0:00O debate entre forma e função na internet ainda é apaixonado entre engenheiros de usabilidade e designers de mídia interativa. É possível a conciliação? É relevante? Veja aqui um panorama da discussão.
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O que é uma prática comum em outras áreas em que design já é uma ciência estabelecida – a busca consciente de equilíbrio entre os aspectos estéticos e funcionais de um produto/projeto de design – ainda é motivo de discussões “acaloradas” entre engenheiros de usabilidade/especialistas em interação humano–computador (IHC) e designers de mídia interativa, onde de um lado temos especialistas em cognição, interface e usabilidade, estabelecendo padrões de “otimização” da navegação dos internautas. De outro, temos webdesigners, diretores de arte, marketeiros, artistas plásticos – dentre outros – projetando, desenvolvendo e até experimentando os limites das chamadas “novas mídias”.
Esta tensão é – no mínimo – paradoxal, uma vez que, por trás de grande parte da pesquisa, tanto em design quanto em IHC, encontra–se o princípio de que os usuários vêm em primeiro lugar: suas necessidades, capacidades e preferências ao realizar diferentes atividades definiriam de que maneiras uma mensagem, produto ou sistema precisam ser concebidos e implementados. Cada dia mais se ouve falar em termos como User–Centered–Design, Participatory Design, User Involvement.
No entanto, a discussão continua: num dos livros mais citados no campo de IHC, The Psychology of Everyday Things, Donald Norman ridiculariza a tendência que designers tem de negligenciar usabilidade em favor da estética.
Enquanto reconhece o papel da estética em IHC, Norman se posiciona contra a tendência entre os designers de enfatizarem elementos estéticos da interface com o usuário, por que estes elementos podem degradar a usabilidade. Curt Cloninger, em resposta, satiriza a oposição dos engenheiros de usabilidade aos designers numa crônica cujo título é Especialistas em usabilidade são de Marte, designers gráficos são de Vênus.
Como começou a briga entre estética e usabilidade na internet? Tal discussão é relevante? Qual contribuição que tanto designers como especialistas em IHC podem dar para satisfação dos internautas?
Internet e usabilidade. Desde os primeiros experimentos de usabilidade realizados especificamente na web, como os de Jakob Nielsen, o foco dos estudos tem sido a performance dos usuários em realizar uma seqüência de tarefas–teste. As variáveis mais comumente medidas são: o tempo decorrido para realizar a tarefa, a taxa de erros, a satisfação subjetiva do usuário ao realizar a tarefa. Também é possível coletar métricas mais específicas, como a porcentagem de tempo que os usuários seguem um percurso de navegação “ótimo” ou número de vezes que eles precisam retornar.
Dado o custo relativamente alto, o tempo consumido para aplicar testes exaustivos de usabilidade em sites e a complexidade de medir variáveis subjetivas – principalmente no tocante ao aspecto de “satisfação do usuário” – os engenheiros de usabilidade tem criado guidelines na intenção de criar padrões que, uma vez seguidos, poderiam, ou melhorar a experiência, ou aumentar a performance, ou – pelo menos – diminuir a frustração dos usuários duração a navegação.
Jakob Nielsen, um dos “porta–estandartes” da cruzada dos engenheiros de usabilidade contra designers, apregoa a simplicidade como fator chave na construção de interfaces usáveis. “Simplicidade” significaria, em termos gerais, que internautas deveriam ser capazes de encontrar o que procuram, sem obstáculos, sem complexidade. Tal afirmação partiria, então, do pressuposto que usuários na internet, assim como sujeitos dos testes de usabilidade, são extremamente orientados a tarefas e que não tolerariam obstruções entre eles e seus objetivos durante a navegação em um website. Ou ainda que a satisfação do usuário está apenas em não se frustrar ao realizar tarefas, facilitando o uso do site.
Esta ênfase na simplicidade apregoada pelos engenheiros de usabilidade não é nenhuma novidade em termos de design. O funcionalismo, corrente que teve forte influência no Desenho Industrial – principalmente após o surgimento da Bauhaus – pregava, dentre outras coisas, a eliminação dos adereços “inúteis” e “supérfluos” dos produtos (por exemplo, ornamentos ou efeitos lúdicos); ênfase na padronização dos produtos; custos mínimos de fabricação e administração para obter rendimento máximo; renúncia à configuração de produtos com influências emocionais.
Design e a satisfação do usuário.
Assim como a ISO define que usabilidade cuida de aumentar a eficiência, eficácia e satisfação dos usuários durante a realização de tarefas, Bern Löbach, no livro “Design Industrial: Bases para a configuração dos produtos industriais”, define, de forma muito concisa, porém muito lúcida, o Design Industrial como: “O processo de adaptação de produtos de uso, fabricados industrialmente, às necessidades físicas e psíquicas dos usuários ou grupos de usuários”.
A satisfação de necessidades pode ser considerada como motivação primária da atuação dos seres humanos na sociedade. Sob esta ótica, todos os objetos de uso em nossa sociedade são configurados para atender uma necessidade/aspiração. Por conseqüência, todas as coisas produzidas pelo homem teriam uma função. Quando um designer projeta produtos industriais, ele deve levar em contas estas funções dos produtos. Poderíamos identificar três possíveis funções destes objetos em: prática, estética e simbólica, onde:
Função prática: é a relação entre um produto e seus usuários que se situa no nível orgânico–corporal, ou seja, satisfazem necessidades fisiológicas do usuário.
Função estética: é a relação entre um produto e seus usuários que se situa no nível dos processos sensoriais, ou seja, a função estética dos produtos é um aspecto psicológico da percepção sensorial durante o uso.
Função simbólica: é a relação entre um produto e seus usuários que se situa no nível espiritual, estimulada pela percepção do objeto, estabelecendo ligações com suas experiências e sensações anteriores.
Não é preciso muito esforço pela chegar à conclusão que estas funções são intercambiáveis dentro de um mesmo produto, e dinamicamente modificadas à medida que os usuários estabelecem outras relações mediante o uso do produto, ou ao trocarem experiências com outros usuários. Poderíamos dizer que cada produto pode realizar as três funções simultaneamente, porém uma delas está mais em evidência do que as outras.
Por exemplo, um carro satisfaz uma necessidade fisiológica, ao locomover o usuário de forma confortável e segura. Este carro teria, então, uma função prática. A experiência em marketing nos prova, no entanto, que determinadas configurações do desenho do carro (linhas, curvas, cores etc.) caem na preferência dos usuários em detrimento de outras, o que concede uma função estética ao carro. Este mesmo carro, ainda, apesar de função prática (locomover o usuário de um canto para outro), estética (suas cores e formas são da preferência do usuário), pode ainda satisfazer uma necessidade simbólica do usuário (conferir ou usuário status ou prestígio).
Configuração dos objetos segundo sua função
Todo produto industrial tem uma aparência sensorialmente perceptível, determinada por elementos de configuração como forma, cor, superfície etc. Possui também uma função estética que definimos como aspecto psicológico da percepção sensorial durante o uso, percepção esta que costuma ser a primeira relação que o usuário estabelece com o produto. Alguns produtos não estabelecem nenhuma relação com o usuário além deste nível. Em outros, a esta função estética podem–se juntar a função prática, a função simbólica ou ambas. Sempre, porém, uma das funções terá prevalência sobre as outras.
Assim, Bernd Löbach dividiu todos os objetos de design em duas grandes categorias: os de configuração prático–funcionais e os de configuração simbólico–funcionais. Os produtos nos quais predominam a função prática seguiriam o princípio de configuração prático–funcional – ou uma estética prático–funcional – e os produtos nos quais predominam a função simbólica seguiriam o princípio de configuração simbólico–funcional – ou uma estética simbólico–funcional.
Configuração prático–funcional.
A idéia de configurar os objetos orientando–se principalmente por sua função prática encontrou bastante respaldo da indústria na primeira metade do século XX, graças à difusão das teorias funcionalistas desenvolvidas no século XIX pelos arquitetos Henri Labrouste e Louis Sullivan, e do escultor Horatio Greenough. Estas teorias teriam como seus principais seguidores os arquitetos Adolf Loos, Le Corbusier e Walter Gropius, fundador da Bauhaus, escola alemã que influenciou profundamente o perfil da profissão de design como conhecemos hoje.
Como foi dito anteriormente, podemos traçar um visível paralelo entre os guidelines apregoados pelos engenheiros de usabilidade e os princípios funcionalistas. Sendo assim, as críticas que foram feitas ao funcionalismo – que alguns autores também classificam como racionalismo – poderiam, de forma indireta, ser feitas também aos guidelines de usabilidade: os produtos industriais com configuração prático–funcional tendem a ser “frios” e impessoais e com eles o usuário não consegue desenvolver qualquer tipo de relação emocional. Sua aparência é pobre em informação, são rapidamente apreendidos e despertam pouco interesse. Com o tempo, acabam ficando monótonos. Possuem pouca função estética e simbólica pelas quais possam ser satisfeitas as necessidades psíquicas.
Configuração simbólico–funcional.
Os produtos nos quais as funções simbólicas e estéticas são preponderantes e as funções práticas ocupam posição secundária, falamos do princípio de configuração simbólico–funcional ou do princípio da estética simbólico–funcional. Vemos este tipo de produto surgir durante a Idade Média: os produtos com configuração prático–funcional cobriam necessidades modestas e eram utilizados principalmente pelas classes camponesa e burguesa, enquanto os membros do clero e da nobreza utilizavam produtos que se distinguiam daqueles do povo principalmente pelo uso de adornos caros (luxos estéticos que também implicavam em custos elevados). Os produtos utilizados pelo clero e pela nobreza tinham significado simbólico que sobrepujava a função prática.
O surgimento da indústria permitiu a produção em massa de produtos de uso. É natural que os objetos de uso com predomínio de funções práticas – que anteriormente eram fabricados manualmente – se multiplicassem, devido ao baixo grau de complexidade estética, o que facilitava a produção e diminuía custos. Custos menores de produção também implicavam em menores preços, tornando os produtos mais acessíveis a uma camada maior da população, aumentando o número de possíveis usuários.
Com o aumento do número de empresas industriais, atuando nos mais diversos ramos da industrial, concorrendo entre si, e com o acesso de amplas camadas da população às posições sociais mais elevadas – através da especialização e qualificação dos trabalhadores – com poder de compra cada vez maior – aumentando o mercado para produtos industriais –, os produtos industriais abundam de tal maneira, que em certas áreas podemos falar de uma saturação de mercado. Como resultado, as empresas se vêem forçadas a atrair o interesse dos possíveis compradores, com a finalidade de manter sua posição no mercado e, se possível, ampliá–la.
Para tanto, cada vez mais fabricantes procuram dotar seus produtos com valores adicionais. Assim, produtos orientados para função passaram a ser orientados adicionalmente para conferir prestígio. Em outras palavras: são adicionadas funções estéticas e simbólicas aos produtos, de forma a aumentar seu valor. As empresas modernas passam a criar produtos industriais direcionados a indicar maior prestígio e maior status social.
Podemos questionar até que ponto configurar mercadorias de acordo com a estética simbólico–funcional realmente satisfaz necessidades psíquicas dos usuários – como prestígio e status. No entanto, ao adicionar funções estéticas e simbólicas aos produtos funcionais, empresas industriais procuram assegurar suas vendas e seu lucro, por meio da diferenciação do que é fabricado: com a ajuda de meios estéticos, o produto pode se destacar da forma mais evidente de seus concorrentes, instigando o desejo dos usuários em possuí–lo.
Websites: produto de função prático–funcional ou simbólico funcional?
Poderíamos dizer que os guidelines de usabilidade, com sua preocupação em priorizar os aspectos práticos ao custo de não endereçar questões nem estéticas nem simbólicas os usuários, privilegiariam a configuração de websites de acordo com a estética prático–funcional, uma vez que tais guidelines partem do pressuposto que seus usuários têm objetivos muito claros da função prática do site e não tolerariam que artifícios estéticos – imagens puramente “decorativas”, animações, publicidade etc. – se interpusessem entre eles e seus objetivos durante a navegação.
O Google, por exemplo – um dos maiores mecanismos de busca e indexação de documentos hipermidiáticos na internet e uma das maiores marcas na internet segundo as pesquisas do NetRatings – é uma referência mundial em termos de usabilidade. A simplicidade de sua diagramação e a pouca ênfase aos aspectos estéticos de seu layout são típicos de produtos configurados segundo a estética prático–funcional.
Por outro lado, designers, ao confeccionar websites que, além de satisfazer alguma necessidade prática do usuário – prestando algum tipo de serviço, por exemplo – tentam agregar valores adicionais à marca do cliente/produto a que se relacionam, privilegiariam a configuração de websites de acordo com a estética simbólico–funcional.
O Yahoo!, por exemplo – grande concorrente do Google – presta um serviço similar ao de outros mecanismos de busca. Porém, a identidade corporativa da marca Yahoo! é reforçada através de estetização de sua interface. A composição relativamente complexa de seu layout é típica de produtos configurados segundo a estética simbólico–funcional.
Desta forma, um dos motivos da tensão entre designers e engenheiros de usabilidade surge nos momentos iniciais do desenvolvimento de websites, quando estes se fazem a pergunta crucial em qualquer projeto: qual é o objetivo deste projeto?
Se o objetivo do site for ajudar o usuário a realizar uma tarefa específica ou fornecer informações de forma fácil e rápida, engenheiros de usabilidade dirão que podemos sacrificar a relação estética/simbólica em prol de aumentar a performance da realização de tarefas durante a navegação, minimizando o índice de frustração do usuário.
Se o objetivo do site for, além de satisfazer alguma necessidade prática do usuário – prestando algum tipo de serviço, por exemplo – agregar valores adicionais à marca do cliente/produto a que se relacionam, designers insistirão em privilegiar a configuração de websites de acordo com a estética simbólico–funcional.
No próximo artigo, entraremos em mais detalhes sobre agregar valores à marcas na internet. Comentários são bem–vindos. [Webinsider]
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1° Isabel sousa pereira Data: 13/11/2008 às 23:42
Atividade: estudante
Cidade: salvador
Amei esse site, pois ele fala muita coisa interesante sobre a estetica, estão de parabéns, e continue escrevendo mas , pois sempre que puder estarei visitando esse site.
Abraços e beijos.
Ass: Isabel sousa pereira