Bem-vindo aos fundos
29 de outubro de 2002, 0:00Aquilo que realmente pulsa não está nas entrelinhas da primeira página.
Por
“Mas isso, René de Paula, só até a página três, claro…”
E Wanda apagaria o cigarro no cinzeiro com vivacidade, e retomaria o trabalho com a velocidade e competência de sempre, enquanto eu, aprendiz atento, tentaria acompanhar o raciocÃnio rápido dessa grande editora.
Bons tempos. Saudosa Wanda. Ela sempre me chamava pelo nome completo, e eu idem. Risadas fartas no espaço exÃguo e no tempo exÃguo e nos recursos exÃguos que eram nosso dia–a–dia nas ilhas de edição daquele canal de TV.
O trabalho de um editor é pedreira. O que lhe jogam nas mãos é um material mui propriamente chamado de bruto: uma barafunda de gravações e fitas e imagens e sons, que numa corrida contra o relógio deve ser transformado em algo compreensÃvel, esteticamente correto, redondo.
Tempo é tudo. As perguntas–chave são: em quanto tempo deve ficar pronto? Qual o tempo total que o vÃdeo deve ter? Dois minutos? Vinte dividido em duas partes? Trinta segundos? Pois não. E no dia seguinte começava tudo do zero.
“Jornal é matar um leão por dia”, dizia Wanda, e ela tirava isso de letra.
Tive a felicidade de conviver com ela e com mais uma safra de editores de primeira, gente que vem a cada dia formatando o que você vê, o que um paÃs inteiro vê na telinha. Miloca, Wander, Paulão, FC…
Quem já mexeu com a confecção daquilo que a nação vai tomar como verdadeiro, como real, sabe que nem tudo é contado, que muita coisa fica de fora, que toda história não tem só começo–meio–fim, mas uma infinidade de ramificações e desdobramentos e zonas cinzentas que não cabem nos poucos minutos que um jornal te dá.
Fulano era inocente? “Até a página três, só”. E aquele escândalo, foi esclarecido? “Até a página três, só”. Genial, essa expressão.
Eu deveria ter explicado isso antes, antes de publicar meu primeiro artigo, mas é daà que vem a história do “página três”, tÃtulo deste meu modesto e honesto espaço.
A opção por esse tÃtulo é uma opção ética também. O que vem depois da página três, afinal? O que acontece nas páginas quatro, cinco, dez? Há algo além das manchetes, das notinhas e matérias? O quê? Matéria bruta? Fluxos confusos e obscuros, se entrelaçando como um bacanal de vÃboras? Ou apenas caquinhos, serragem e fragmentos de história? Ou apenas embriões de histórias, frutos ainda verdes misturados a flores murchas e sementes?
Claro que é mais cômodo circular pelas matérias de capa, pelos grandes destaques, pelas fotos coloridas… Tudo parece fazer sentido ali. Mas a menos que eu esteja muito enganado, aquilo que realmente pulsa, aquilo que move as engrenagens e que secreta a seiva que corre por veios invisÃveis, tudo isso escapa entre as entrelinhas da primeira página, se esvai no vão das manchetes, não consta das opiniões de ban–ban–bans.
Se o futuro está sendo gerado, gestado, digerido é pra lá da página três. E é para essas vizinhanças suspeitas e pouco iluminadas, para essas paragens sem mapas que eu te convido. O caminho é tortuoso, mas prometo te apontar as pedras onde eu já tropecei.
Bem–vindo à página três. [Webinsider]

