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René de Paula Jr
Página 3

Seeeeeeentido!

16 de outubro de 2002, 0:00

Se você vai ao prospect propor coisas que fazem sentido, passe antes pela lição de casa.

Por René de Paula Jr

Alguém por favor me esclareça. Eu não consigo atinar por que militares escolheram justo essa palavra pra empertigar soldados e disparar gestos bruscos: olhar para o nada, bater a mão na testa, juntar calcanhares, etc.



Por que “sentido”? Pelo que sei, a última preocupação de um soldado é se algo faz sentido. E “sentir” também não deve ser um sine qua non nas casernas. Mistério.



Essa palavra de ordem vem me perseguindo ultimamente. Já a ouvi de colegas, de fornecedores, li em artigos…e, ao invés de bater continência, eu bato sempre o pé: “Sim, mas até a página três, só.”



Eu me explico. Não tenho nada contra “sentido”, nem contra o apelo à razão. O que me incomoda é se achar que bom senso vale mais que – por exemplo – o consenso.



Apelar para o bom senso é perigoso. Um xará meu, Descartes, já dizia: se em alguma coisa esse mundo é justo, é no bom senso. Todo mundo acha que tem, e que tem mais do que todo mundo.



Ou seja, quando você levanta a bandeira do bom senso e do “fazer sentido”, a reação mais provável será: “Você está dizendo então que o que eu faço não faz sentido?”, ou ainda pior, “Quem é você para se achar mais sensato do que eu?”. Muita calma nessa hora. Sobretudo se você for um fornecedor e o outro um prospect.



A grande armadilha na questão do “sentido” é que coisas fazem sentido para alguém. Alguém que pense de uma determinada maneira. E esse alguém, além de pensar, deve querer coisas que você desconhece. É aqui que nascem equívocos, é aqui que eu mesmo já tropecei inúmeras vezes.



Se você vai a campo sugerir ao seu prospect coisas que “fazem sentido”, eu sugiro uma lição de casa prévia:



– veja bem que apito o seu interlocutor toca. Quanto maior o tamanho da empresa, mais intrincada vai ser a rede de poder em que ele está inserido.



– ao invés de pensar nos objetivos da empresa baseado em análises mil, tente adivinhar quais os objetivos particulares do seu interlocutor. O mais comum é que ele só tenha olhos para aquilo no seu alcance, e não se sinta parte dos objetivos maiores. Sua proposta deve ajudá–lo a se dar bem, isso sim.



– ao delinear qualquer proposta, veja se ela não ultrapassa a alçada de decisão do prospect. Ou pior: ela pode desrespeitar a cartografia feudal da empresa. Toda corporação é um campo minado cujo mapa só existe na cabeça das pessoas, e você corre o risco de ir pelos ares no menor passo em falso, enquanto todos gargalham da sua ingenuidade.



– ao apresentar sua visão da situação atual, cuidado com críticas. O prospect sabe dolorosamente bem porque as coisas são como são, e você não. Ele só vai gostar de críticas se elas disserem respeito a desafetos.



– evite exibicionismos. Buzzwords, jargões, estrangeirismos podem provar várias coisas, inclusive a sua incapacidade para falar a língua do seu cliente.



– a sua proposta não deve ser ambiciosa e genial, deve ser factível. Se alguém tem que parecer inteligente no final é o seu interlocutor, não você.



– tempo é relativo: imaginar que algumas corporações sejam ágeis é como esperar que um elefante saltite. Igualmente micado é propor meses de estudo prévio para empresas que preferem errar amanhã e tentar de novo do que acertar daqui a uma semana.



– “resultados”… taí algo bastante relativo. Melhorar algo que seu prospect jamais considerou não é percebido como melhoria. Veja antes que tipo de resultado vai fazer sucesso.



baixe a bola. Você não é um Messias ansiosamente esperado, nenhuma profecia prometeu sua chegada, ninguém vai soltar rojões pela sua vinda. Pelo contrário: seu prospect não quer ser convertido, salvo, nem catequizado. Ele quer que você o ajude em planos que você não conhece, e talvez não venha a conhecer. Nem ele, aliás.



“Sentido”, enfim, é um critério fraco. O que define o sentido de qualquer coisa são forças, interesses, poder, pessoas num tabuleiro intrincado, em jogos que começaram há tempos e vão durar bastante. A razão até ajuda, mas só até a página três. [Webinsider]


Sobre o autor

René de Paula JrRené de Paula Jr (rene@usina.com) é a pilha da lista Radinho e da Usina e mantém uma grande produção de podcasts.

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