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Meu fim de semana com Crawford Kilian

07 de outubro de 2002, 0:00

O autor de Writing for the Web abriu um espaço em sua apresentação realizada em São Paulo para conversar conosco sobre o papel fundamental da redação e as possibilidades da ficção com hipertexto.

Por Nenhum

Alexandre Kavinski

Depois de transformado em um espião pelo artigo de nosso editor Vicente Tardin (veja ao lado), lá estava eu em São Paulo, no saguão do Crowne Plaza, pronto para assistir a dois dias de palestra do webwriter canadense Crawford Kilian. Finalmente venho trazer minhas impressões sobre o evento e uma entrevista exclusiva do palestrante para o Webinsider.

(Antes de começar, aviso que usarei por comodidade a palavra “webwriting” e suas variações, apesar da aversão do editor ao termo. A polêmica não vem ao caso neste momento, mesmo porque o conteúdo – que alguns dizem texto – dos websites ainda não ganhou devida importância no todo.)

Os dois dias. O evento foi dividido em duas etapas. No primeiro dia foram apresentados conceitos gerais sobre webwriting; no segundo dia, conceitos sobre a criação de conteúdo para sites comerciais. No período da manhã os conceitos eram apresentados e discutidos e à tarde eram revistos e analisados na prática, com a visita a sites canadenses e brasileiros.

Crawford Kilian é um velhinho muito simpático e carismático que, do alto de seus 60 anos, mostrou muita energia e bom humor nas 12 horas em que apresentou ensinamentos e conceitos sobre conteúdo para internet. Infelizmente, foi justamente aí que o evento começou a perder seu brilho, pois os conceitos básicos de webwriting não eram novidade para boa parte do público presente.

Também as análises de sites no período da tarde não foram muito proveitosas (pelo menos para este que vos escreve). Devido à limitação de tempo e à quantidade excessiva de sites observados, tais análises aconteciam de forma rápida e superficial, onde nada se viu de novo ou diferente.

Não podemos aqui responsabilizar totalmente o palestrante, que durante todo o evento se mostrou muito preocupado e, em certos momentos, até mesmo chateado com a falta de interatividade do público. A todo o momento Crawford solicitava a participação e intromissão do público em sua apresentação, destacando que o proveito de seus ensinamentos dependia muito disso. Parte da responsabilidade cabe a Crawford, por permitir que a dinâmica da apresentação dependesse da participação do público. Outra parte cabe aos presentes, que, após um “investimento” significativo, não souberam tirar proveito desta abertura.

Apesar das críticas, não posso deixar de elogiar a atitude da Projecto Tao ao proporcionar um evento internacional com foco em webwriting, assunto pouco valorizado em nosso país, muitas vezes deixado de lado como objeto de estudo e como profissão.

A entrevista: ao final do primeiro dia de palestras, Crawford Kilian teve a gentileza de dedicar alguns minutos para uma entrevista exclusiva para o Webinsider.

– Quais são as suas impressões sobre a produção de textos para a web no Canadá?

Crawford Kilian: O webwriting canadense é dominado por hábitos norte–americanos. Em geral os sites canadenses são orientados para uma audiência americana e canadense, o que é uma pena, pois são públicos diferentes. No Canadá temos uma dificuldade a mais na hora de desenvolver o conteúdo de um site, uma vez que somos um país bilíngüe, acabamos por ter o trabalho redobrado, criando textos em inglês e francês.

– Em sua palestra, assim como em seus livros, você cita diversas vezes o nome de Jakob Nielsen. Qual a sua opinião sobre ele e como você vê a polêmica que gira em torno do nome dele?

– Eu conheci o Nielsen 12 anos atrás, quando ele ainda não trabalhava com internet, é claro. Nesta época ele já estudava a forma como as pessoas utilizavam os computadores e como liam nos monitores. Desde então ele já fazia o tipo de pesquisas que faz hoje e procurava passar seus ensinamentos. A polêmica vem do fato de que ele está sempre querendo apresentar alguma coisa nova, quando algumas vezes elas não são.

– Se a polêmica ajuda a manter o nome em evidência, talvez por isso ele apareça volta–e–meia com opiniões tão radicais.

– Com certeza isso vem dando bons resultados (risos).

– O serviço de Marketing de Otimização em Buscadores (MOB) vem ganhando cada vez mais importância na estratégia dos sites. Este serviço envolve em grande parte conhecimentos de webwriting. Como você vê este mercado?

– Até hoje eu tive pouco contato com este tipo de serviço, mas conheço uma pessoa que tem idéias muito interessantes em relação a este assunto, a Rachel McAlpine. Ela escreveu um livro que trata sobre este tema, chamado Web Word Wizardry, lançado pela Ten Speed.

– Outro autor citado em suas palestras é o seu conterrâneo Nick Usborne. Nick prega que os textos em sites comerciais devem ter diferentes versões, implementadas com o passar do tempo. Cada uma destas versões deve ser testada e avaliada para se medir a influência do conteúdo em relação à eficácia do site. Você realiza este tipo de experiências?

– Nick com certeza nos trouxe idéias inovadoras em relação à criação de conteúdo para sites comerciais. No entanto meu foco é dar aulas, eu sou apaixonado por isso. Em relação a estas experiências eu sou um mero observador e não tenho interesse em me aprofundar. Eu gosto de ensinar sobre como escrever e estou satisfeito com isso.

– Em sua palestra e também em seu livro você prega que o texto domina a arte e que a arte deve servir como suporte para o conteúdo. Você não acha que este tipo de posicionamento acaba colocando os webdesigners contra os webwriters e vice–versa? Você não acha que este tipo de discórdia acaba prejudicando o resultado final dos sites, uma vez que ambos deveriam trabalhar juntos em prol do site?

– Na verdade eu acho que isto gera uma controvérsia saudável (risos). Gráficos são legais, mas a função do texto é mais importante. Os gráficos servem como apoio para o texto. Veja, eu trabalho com texto, eu tenho que defender o meu lado (risos).

– Ainda em relação a este assunto, temos visto em algumas agências o conceito de duplas de criação, como no modelo publicitário. Estas parcerias têm sido muito bem sucedidas. Você não acha que trabalhar em dupla pode ser muito mais produtivo, uma vez que uma função depende da outra?

– Com certeza isto pode ser bem produtivo. Principalmente se formos levar em consideração a forma como apresentamos o texto, como o disponibilizamos para nossos leitores. Sem desperdiçar espaço de forma inadequada. Dizendo de forma clara a que se refere aquele site, aquela página. A idéia de duplas pode dar bons resultados.

– Eu percebi que existem duas versões distintas de seu livro (aqui estou me referindo à versão Writers Edition e Geeks Edition do livro Writing for the Web). Em que elas diferem?

– Isso mesmo. Na verdade, eu senti a necessidade de escrever uma segunda versão (Geeks Edition), quando percebi que muitos de meus leitores eram também desenvolvedores de sites. É um público diferente, que eu não havia considerado na primeira edição. Eu acabei incluindo uma porção de dicas em relação ao HTML entre outros detalhes de desenvolvimento e aproveitei para revisar alguns links que já não existiam mais.

– E quais são os planos para o futuro?

– Antes de vir para o Brasil, meus editores me contataram e disseram que já é hora de começarmos a pensar numa terceira edição. E eu concordo com eles, tenho muitas idéias novas para esta edição, acho que está mesmo na hora.

– O que podemos esperar desta terceira edição?

– Muita coisa. Além de uma total revisão, estou pensando em incluir exemplos reais de bom e mau webwriting e gastar mais tempo falando sobre textos de ficção para web (Kilian é autor de mais de uma dezena de livros de ficção científica), onde sei que posso dar dicas importantes. Há um grande potencial na rede para estes textos de ficção (hypertext fiction) em meu site recebo um enorme fluxo de visitas procurando por dicas sobre este assunto, foi uma surpresa muito grande para mim, pessoas do mundo todo me procuram através do site para pedir dicas.

– Para concluir gostaria que me passasse sua percepção sobre o webwriting no Brasil.

– Eu sinto que a produção de textos para a web aqui, assim como no Canadá, ainda está começando. Acredito que ainda vamos ver muita coisa nova pela frente e muita gente se destacando nesta área, tanto no Brasil, como no Canadá.

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A Projecto Tao, que deu um show à parte na organização do evento, está programando a vinda ao Brasil ou do polêmico e cultuado guru da usabilidade Jakob Nielsen ou do genial webwriter Nick Usborne, que, apesar de pouco conhecido no Brasil, já vem se destacando com suas idéias inovadoras no cenário web norte–americano. Seja qual for o escolhido, vai valer a pena o “investimento”. [Webinsider]

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