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Comportamento

Sergio Kulpas
Tevê

Uma receita para o brasileiro mudar a sociedade

02 de outubro de 2002, 0:00

Em entrevista, o escritor Bruce Sterling sugere uma nova abordagem: que o brasileiro venha a público e declare que os problemas sociais estão "afetando o clima para investimentos no Brasil".

Por Sergio Kulpas

Na seqüência do comentário sobre o mais recente livro de Sterling (ao lado), veja nesta entrevista os comentários (ácidos?) do visionário que poderia receber o prêmio Júlio Verne de delírio clarividente. Ele sugere, por exemplo, que usemos as normas globais de negócios, como “transparência” e “responsabilidade financeira” para empurrar o governo. “É meio assustador, mas é bem eficiente”, comenta.

– De que maneira você acha que os ataques terroristas de 11 de setembro afetaram a vida política dos países subdesenvolvidos, em termos de comportamentos e políticas digitais?

Bruce Sterling: Bom, se você quiser que todos os turistas ianques fujam correndo do seu país, você só precisa usar uma camiseta com o Osama bin Laden. Isso é algo totalmente novo.

Além disso, se você for de um país subdesenvolvido muçulmano, as chances de você conseguir emigrar para um país com água encanada e moeda estável caíram drasticamente. Os ricos vão aparecer em seu país para levar seu óleo, mas eles não vão mais querer que você fique rondando as principais cidades deles.

– Está surgindo no Brasil uma geração completamente nova de artistas, músicos, fotógrafos, cineastas, designers, animadores, criadores de videogames, programadores, DJs… Jovens, rápidos, cool, sem o peso de velhos conceitos. A qualidade de alguns trabalhos já foi percebida, e alguns desses artistas assinaram contratos com editoras e estúdios estrangeiros. O Rio faz festas como ninguém no mundo, com know–how e tecnologias próprias. O Brasil poderia se tornar um ponto chave na indústria global de entretenimento, como Bollywood já é na Índia. Como um país como o Brasil pode sair dessa posição atualmente marginal em um mundo faminto por entretenimento?

– Bem, as telenovelas parecem funcionar bem. Mas é essencial que os brasileiros se interessem seriamente pelo entretenimento de outros povos.

O Brasil poderia faturar alto reeditando, reempacotando [esses entretenimentos de outros países]; pegando novelas egípcias, indonésias ou iranianas e dando a elas um tratamento caprichado, com valores de produção mais altos. É claro que para isso, o Brasil teria que se interessar sinceramente pelo que se passa fora do Brasil. Mas o Brasil não está muito interessado nisso. O Brasil se interessa basicamente pelo Brasil. É uma nação paroquial, não uma nação imperial.

Se vocês quiserem vencer Bollywood em seu próprio jogo, tudo que vocês precisam é de um sistema de produção e distribuição que não seja totalmente dominado por gângsters corruptos, como é o caso na Índia. Vocês deveriam convidar alguns diretores de cinema indianos para vir ao Brasil. Digam a eles que aí as atrizes podem aparecer sem roupas e beijar. Os indianos ficarão completamente alucinados. Depois é só dividir os lucros.

– Como você imagina que estará o mercado mundial de trabalho dentro de oito anos?

Sterling: Bem, se forem oito anos de administração Bush, estará horrível.

– As leis trabalhistas locais e nacionais estão fadadas à extinção?

Não, essas leis provavelmente vão continuar valendo, mas com novas e incômodas leis globais de trabalho por cima.

– O que pode um brasileiro jovem e talentoso esperar do futuro digital?

Sterling: Bem, saia da frente do computador e vá dar uma voltinha na favela. Você está fazendo alguma coisa para ajudar essas pessoas a sair daquela situação? Então, você pode esperar exatamente a mesma atitude dos países ricos em relação ao Brasil. É a mesma história, realmente.

Uma coisa notável nessa situação digital é que você pode causar uma comoção surpreendente em pessoas que estão muito, muito longe e não têm a menor idéia de quem você seja e de como você se parece. Os russos, por exemplo. Ninguém mais do que os russos está precisando dessa saudável atitude brasileira, para animar suas vidas murchas, sombrias e sem luz. Os russos amam as telenovelas brasileiras. E para indianos e chineses, o Brasil é a Suíça, cara.

– Comunicações eletrônicas (internet, celulare etc.) foram essenciais para o surgimento de diversos grupos ativistas. Países de Terceiro Mundo como o Brasil poderiam usar as mesmas táticas, mas os movimentos independentes são geralmente reprimidos pelas autoridades nesses países. De DJs a programadores de software, como a nova geração de brasileiros pode mudar a sociedade?

Sterling: Mude a sociedade de outras pessoas. Aí manobre esses estrangeiros para atacar as autoridades de seu país. Por exemplo, se um policial corrupto está batendo em você com um cassetete, você não vai querer dar um tiro nele – isso está fora de moda. Espertamente, faça com que alguém da OMC ou do Banco Mundial: venha a público e declare que a “falta de confiabilidade da força policial” está “afetando o clima para investimentos no Brasil”. Então, os brasileiros ricos vão demitir o policial para limparem a própria barra.

Aí, devolvam o favor para o país de um outro alguém. “Nós, brasileiros esclarecidos, desaprovamos profundamente a atmosfera de repressão nas nações X, Y, Z; e somos profundamente solidários com os DJs e programadores dos países A, B e C”. Vocês conseguirão um monte de publicidade gratuita com isso, e todos vão considerá–los como exemplos de cidadãos globais. Vão ganhar um bocado de autoridade moral. Até seu próprio governo vai gostar de vocês, porque não vão ser considerados como encrenqueiros. Podem até conceder medalhas e títulos honoríficos, e mandá–los com as despesas pagas para agitos na Europa e no Canadá.

Vocês precisam ler um livro chamado “The Lexus and the Olive Tree”, escrito por Thomas Friedman. Há um capítulo sobre “globaluação”. Fala sobre como usar os as normas globais de negócios, como “transparência” e “responsabilidade financeira” para derrubar o seu próprio governo, sem que ninguém sequer note que você fez isso. Bom, leiam o livro e façam isso. É meio assustador, mas é bem eficiente.

Vocês podem entrar em contato com uma organização alemã na Web chamada “Transparency International”. Contem a eles tudo o que vocês sabem que está acontecendo de errado.

– Existe alguma maneira de sair do aperto de instituições globais como o FMI ou o Banco Mundial?

– Claro que sim! Você descola algumas armas nucleares, como a Índia. Então todos ficam com medo de você e ganha uma puta vantagem. É claro que as chances de você ser horrivelmente bombardeado aumentarão drasticamente.

– Mas você acredita que os termos atuais da Organização Mundial de Comércio são justos e honestos?

– Veja, se “honestidade” e “justiça” fossem valores fundamentais, o “comércio” nem existiria. As pessoas comercializam coisas porque percebem um sentido inato de desigualdade entre os bens, recursos e serviços. Não existe uma “Organização Mundial da Justiça e Honestidade”. Se você quiser criar essa organização, vá em frente. Vai ver se alguém liga.

Ainda é sexy falar mal da OMC, mas a Administração Bush odeia qualquer coisa que contenha as palavras “global” e “mundial”. Os americanos querem sair do aperto das instituições globais. É por isso que eles mataram o Tratado de Kyoto e não vão concordar com um tribunal internacional de crimes de guerra. É muito possível que os Estados Unidos em breve se rebelem e rejeitem a OMC. O que o Brasil fará então? Pelo menos antes vocês tinham um fórum.

Se os diplomatas e os economistas do Brasil tivessem o bom senso de estabelecer uma causa comum com outros países que têm os mesmos interesses globais, eles poderiam contornar os países ricos e dominar o comércio mundial. Brasil, Índia, China: se esses três países agissem como um bloco, que poderia resistir a eles? Mas o Brasil não está interessado nesses países exóticos e distantes, enquanto China e Índia se odeiam mutuamente.

Os países ricos do NAFTA e da União Européia gostam uns dos outros. Eles estão ocupados coçando as costas uns dos outros, e reescrevendo as regras do comércio a seu favor. É por isso que eles têm tanta honestidade e justiça. Ninguém deu essas coisas a eles. Eles sequer precisaram pedir por elas.

– Um sentimento de anti–americanismo que usa camisetas com o rosto de Osama bin Laden está pipocando em todos os cantos do mundo, e não apenas em países muçulmanos.

– É verdade. E a situação está difícil no Brasil, mas pelo menos vocês não têm que enfrentar o espectro do “anti–brasilianismo”.

– A propósito, se Bush Jr. declarar guerra contra o Iraque, não chegaríamos perto daquele cenário que você descreveu no conto “We See Things Differently”? (”Vemos as Coisas de Modo Diferente”. No conto, Sterling fala de uma América no futuro que está financeiramente arruinada, porque as nações islâmicas se uniram contra o Ocidente, esvaziando os bancos de Wall Street)

– Se acontecer, será uma guerra não–declarada.

– A propósito desse seu conto, que bela bola de cristal você encontrou esquecida em algum sótão, não? Ou foi um presente do querido tio Ray Bradbury?

– Você não acreditaria no que estão cobrando por uma bola de cristal. É mais barato apenas ler os jornais.

– E isso num momento de ‘meltdown’ corporativo nos EUA, e falência ou quase–falência de vários aliados tradicionais, inclusive o Brasil.

– A guerra é um inferno. Mas se você está pensando que o Iraque pode vencer esse conflito devido ao um colapso do capitalismo mundial, então você anda fumando crack.

– Sobre a questão da propriedade intelectual e copyright em uma era de comunicações digitais, existe alguma saída pacífica para essa enorme confusão?

– Em teoria, existe. Talvez apareça um sujeito muito esperto que apresente uma solução comercial e política que acalme todos os ‘big players’ em conflito, mas no momento a situação da propriedade intelectual parece tão próspera e pacífica quanto a Colômbia.

– Então os big players podem tentar aplicar a força máxima da lei para proteger seus direitos de audiovisual, enquanto países como China e Brasil continuam pirateando e vendendo DVDs nas ruas por centavos – nenhuma mudança à vista?

– Não, eu tenho certeza de que haverá mudanças importantes. A situação está piorando tanto que eu aposto na eclosão de uma grande crise. Uma crise já aconteceu no campo da propriedade intelectual: a falência das empresas de telecomunicações. Essas empresas implementaram milhares de quilômetros de cabos de fibra óptica na esperança de que alguém usasse as conexões de banda para algo útil, mas os proprietários dos conteúdos foram tímidos demais na hora de digitalizar suas maiores atrações, e os consumidores pagaram uma puta grana por nada. Conseqüência: os donos dos cabos acabaram morrendo como pintos na chuva. Agora paira no ar um cheiro de morte, e ninguém está seguro.

– O que virá a seguir de Bruce Sterling, o escritor de ficção–científica?

– Estou lançando um livro de não–ficção chamado Tomorrow Now: Envisioning the Next 50 Years (”Amanhâ Agora: Antevendo os próximos 50 anos”). O livro sai em dezembro. [Webinsider]

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Esta entrevista foi realizada em julho de 2002 e publicada originalmente na revista Play, da Conrad Editora.

Sobre o autor

Sergio KulpasSergio Kulpas (sergiokulpas@gmail.com) é jornalista e escritor.

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