Executivos calculistas
25 de julho de 2002, 0:00Crise nas empresas americanas é ruim para o Brasil? Talvez não.
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Leio que pesquisa realizada pela rede de televisão NBC e o Wall Street Journal revelou que 68% dos americanos pensam que os Estados Unidos já estão em recessão ou estarão em um ano; que somente 49% confiam no presidente George W. Bush para conduzir a economia; que 70% da população não confia nos números divulgados pelas companhias sobre sua situação financeira; e que 93% desta não acredita nos dirigentes das grandes empresas.
Empresas possuem acesso a relatórios carÃssimos, que conseguem com bastante precisão apontar os passos da economia nacional e global nos próximos anos. Uma multinacional não se dá o luxo de não prever onde estará nos próximos 10 anos.
Então lembro as palavras do presidente mundial de um conglomerado de agências de propaganda, para quem a desvantagem da enormidade empresarial é que, quando não sabemos exatamente onde estamos pisando, podemos terminar com um enorme elefante branco. Finalmente, as palavras de um dos donos da falida Mesbla, que me disse que, independente do resultado da empresa, o executivo sempre consegue se dar bem. Aà aparece então a fórmula.
Somente os executivos têm acesso às informações que prevêem o futuro financeiro de suas empresas e da economia em geral. E somente os executivos podem alterar os números do balanço, desviar dinheiro para contas particulares, e se precaver de todas as formas contra o futuro sombrio que essas informações e relatórios previram. À piãozada embaixo só resta remar, sem ter idéia para onde o barco está indo.
E quando o barco vai afundar as ratazanas são as primeiras em saber. E isto se faz notar no monte de empresas que de repente apareceram com balanços maquiados. Porquê? Mera coincidência? Não, meros relatórios que, anos atrás, já apontavam para os problemas estruturais que a principal economia do mundo está hoje tendo. E só agora, uma vez que ficou claro até para a piãozada que o barco está mesmo afundando, é que isso tudo veio à tona. Tarde demais: os executivos já rasparam o pote e acabaram por enviar a empresa pro buraco. Só lhes resta esperar por dias melhores, enquanto vêm o barco lá longe no horizonte, tragando toda aquela gente que não poderia ver (e provavelmente nem iria querer ver) o que se aproximava.
Papo urubu? Conversa de fim de mundo? Nada disso. O Brasil é como um carro com o acelerador no chão, mas também com o freio de mão puxado; só falta alguma circunstância que solte esse freio para a economia disparar.
Os EUA só viraram potência depois da Inglaterra ter perdido as suas colônias. E a melhor maneira de se perder colônias é estar ocupado demais internamente para dar atenção a elas. Portugal que o diga. E, agora que os EUA estão ocupados demais com suas Enrons, Worldcoms, e demais “ons”, é a chance para nós, Brasil, sua colônia, dar o troco. [Webinsider]
