Arcanjo e a ficção na web
18 de julho de 2002, 0:00Alguns assuntos do interesse do autor que publica online.
Por
Há duas semanas, quando decidi, após meses de estruturação, dar o pontapé inicial em minha primeira série para a web, Arcanjo, a maior de todas as preocupações não foi imaginar como eu trabalharia seu conteúdo, mas sim de que forma ela seria estruturada e, principalmente, como ela chegaria ao leitor.
Como assim? Simples: até o cadarço do seu sapato já sabe, a esta altura, que escrever para a Rede – seja ficção ou não – é um compromisso com a visibilidade da informação, a
objetividade dos dados e a boa navegabilidade entre as páginas, e que a carta na manga sempre será a utilização do link para costurar todos estes pontos. No caso especÃfico da online fiction, o link é também o pulo do gato para desenvolver personagens ou acontecimentos em paralelo à trama central, sem interferir no andamento da história.
Pois este raciocÃnio – o básico do básico – tem sido responsável pelo fracasso da ficção online. Não há registro de histórias construÃdas online que tenham ultrapassado a fronteira das lÃnguas em que foram produzidas, ou que tenham ganho tanta notoriedade a ponto de receber a atenção de outras mÃdias, como revistas ou jornais genéricos.
Qual o problema, então? Correndo por fora, há as temáticas. Por que ficção na internet precisa ser cientÃfica? Ou por que ela precisa, quase que obrigatoriamente, envolver a participação do leitor? Ainda há muito de deslumbre e bastante de infantilidade na produção de histórias online.
Além disso, é preciso perceber que o autor de online fiction só conseguirá a fidelidade que deseja apenas se os textos forem disponibilizados em sub–sites de grandes portais, e mesmo assim será preciso grande e constante divulgação para que a história obtenha visibilidade. Caso contrário,
seu ‘capÃtulo seguinte’ morrerá no esquecimento, a cadeia de persuasão irá se desfazer. Neste ambiente de portais, boa parte do sucesso está garantido, por mais que (pasmem) a trama possa não ser lá essas coisas.
E se sua história não mora em terras abastadas – como acontece em boa parte dos casos –, o que fazer?
· Faça trabalho de formiguinha, trabalhe tijolo a tijolo, capÃtulo a capÃtulo. Venda cada um deles de porta em porta, construindo seu público, cadastrando cada nome. Ganhe seu leitor por cada passo dado.
· Trabalhe para que cada capÃtulo possa responder pelos outros, ou seja, faça com que quem começou a ler pelo capÃtulo 4 consiga entender a trama central sem dificuldades. O raciocÃnio é de um quebra–cabeças inverso, em que, através de uma única peça, o leitor seja capaz de compreender o cenário completo que irá se formar.
· Esqueça tramas paralelas. O internauta é, por natureza, disperso demais – e encare isso não como um defeito, mas como uma caracterÃstica. Se você trabalhar com afinco, ele o seguirá pela estrada afora, mas não dê chances da paisagem chamar mais atenção que o destino final.
Você já deve ter percebido que estas idéias acima desfazem muito do ‘básico do básico’ a que estamos acostumados a ver ou ouvir sobre online fiction. Portanto…
· Ao trabalhar capÃtulo por capÃtulo, o envio do texto por e–mail passa a ser muito mais importante que ter um site que onde sua história possa morar. Estudiosos de ficção online já
apontam estes sites como recursos apelativos, onde design e tecnologia tentam ganhar o leitor, e não a história a ser desenvolvida. Egotrip pura.
· Ver cada capÃtulo como uma peça independente, e que fale pelo todo, desfaz a idéia de que novelas ou minisséries online são o caminho a seguir, onde o próximo passo não sobrevive sem o anterior – e pobre do leitor se ele perdeu algum deles. Arquivo de capÃtulos anteriores? Esqueça – é como dizer a um cliente que você deseja que ele assista a apresentação de um novo produto agora… mas se não der, ele pode ver depois, afinal o produto não vai deixar de existir, blá–blá–blá. É jogar o poder de persuasão no lixo. Crie séries, então. A cada semana, um capÃtulo independente sobre uma mesma história.
· A espinha dorsal da história merece atenção total na ficção para a web, nela o personagem central deve se desenvolver à vontade, sem ruÃdos. Mais que dar vida a ele, sua missão é
torná–lo quase palpável. Detalhamento é tudo neste caso.
O que resta disso? Um teste insuperável para sua criatividade, um exercÃcio Ãmpar para sua escrita, um desafio e tanto para seu poder de persuasão: tudo necessário ao desenvolvimento de um bom escritor, e não à criação de um belo site, recheado de animações e – desculpe o trocadilho – vazio de conteúdo.
Para mim, foi um choque. O Arcanjo que você será convidado a ler dentro de pouco tempo possui a mesma essência da história que surgiu há dezenove anos e a mesma intenção da
pré–sinopse aprovada por Gilberto Braga há dez anos, mas mudou radicalmente quanto à formatação dos capÃtulos e à estrutura da trama – não porque foi adaptada à veiculação na
internet, mas porque a online fiction está intimamente ligada não aos recursos da tecnologia, mas à mais pura e simples emoção dos folhetins de autores como Júlio Verne ou Machado
de Assis.
Mais uma vez, e em outro campo de atuação, é hora dos webwriters observarem os mestres, e não acharem que o aqui, o agora e o futuro é que possuem as respostas para nossas eternas questões sobre o texto na web. [Webinsider]


1° Lucas Data: 23/10/2009 Ã s 3:24
Atividade:
Cidade:
Interessante!
Lucas
email marketing
http://www.geekle.com.br