Falências nos EUA nos apontam outros caminhos
02 de julho de 2002, 0:00Investidores americanos não estão nem aí para a América Latina. Paciência. Enquanto eles assimilam seus escândalos financeiros, brasileiros devem pensar em ampliar vínculos com outros países.
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A primeira coisa que se aprende em análise de investimentos é que a única diferença entre o mercado de ações e Las Vegas reside nas análises contábeis das empresas em que se pretende apostar. Credibilidade é a alma das finanças: sem dados precisos e reais e análises inteligentes, o investidor fica totalmente à mercê da sorte. Se é para isso, então é até melhor investir em BlackJack, que pelo menos é divertido.
Dentro dessa esfera, vemos agora uma série de escândalos financeiros atingir o âmago da maior economia do mundo e ficamos apreensivos sobre possíveis e profundas mudanças que poderão trazer. Alguns exemplos:
Enron. Empresa com somente 16 anos de vida e ex–queridinha de Wall Street acaba indo à falência. Contabilidade tão furada que obriga a destruição de documentos, para evitar que a SEC os acabe encontrando.
Consultoria Arthur Andersen acaba parte do problema. Com isso, perde 70% dos seus clientes e precisa vender unidades em outros países a concorrentes. Dez ex–funcionárias da Enron posam peladas em frente à sede da empresa, na próxima edição da revista Playboy. Credibilidade zero.
Global Crossing. Uma das maiores empresas de fibra ótica e telecomunicações vai à falência.
WorldCom. Começou como uma modesta empresa de longa distância e engoliu inúmeras empresas (até a nossa Embratel) durante sua curta vida. Agora aparece com um rombo contábil de US$ 3,8 bilhões.
A Arthur Andersen fazia também a sua contabilidade. Acho que vai perder os 30% dos clientes restantes… A WorldCom há meses tenta convencer bancos e investidores de que tem caixa para pagar seu enorme endividamento, o que parece cada dia mais difícil. Ações despencam 90% nas últimas 24 horas e ficam em meros 8 centavos, tornando a empresa passível de ser eliminada da Nasdaq, o que significa zero investidores.
Xerox. Recente (e ainda por ser melhor explicado) escândalo financeiro no qual a empresa acaba confessando que engordou os números de receita. Até agora se fala em US$ 2 bilhões no lugar errado dos balanços financeiros, mas o pessoal acredita em mais de US$ 6 bi de incorreções desde 1997.
Disney. Mesma (e já repetitiva) história de balanços mentirosos etc.
Enquanto uns vêem nisso o final dos tempos, outros enxergam uma oportunidade para países em desenvolvimento como nós. Eu me incluo neste time. De fato, é bem possível que a gente até lucre com esta bagunça toda. Por exemplo, é sabido que os japoneses são tradicionais investidores nos lucrativos mercados americanos, uma vez que as taxas de juros oferecidas no seu país não passam de ridículos 0.5% ao ano. Por que não aproveitar nosso sucesso na Copa e mandar o Malan para uma visitinha ao Japão?
Para piorar, os próprios americanos não parecem interessados em investir em outros mercados, como a América Latina. Questionado sobre o que se pode fazer para combater o desprezo dos Estados Unidos pela região, FHC recentemente disse não ter certeza de que vale a pena combatê–lo: “Primeiro, é necessário perguntar se é preciso combater essa irrelevância. Porque essa irrelevância nos dá espaço para fazer o que queremos. Temos a possibilidade de fazer uma inserção na economia internacional que nos seja favorável. Nesse momento em que parece que somos mais irrelevantes, tratemos de cuidar de nós, mas também de fazer vínculos como o que fizemos com o México, como o que o México fez com a Europa, como o que o Chile fez com a Europa, como o que estamos tentando fazer com a Europa. Temos que ampliar essa rede de vinculações comerciais e econômicas para que, num segundo momento, quando for possível ganhar mais relevo na cena internacional, tenhamos mais força.”
Concordo em gênero e grau com o Fernando Henrique: temos que nos focar em outros mercados e deixar os gringos pra lá. A China é uma boa opção, a Europa melhor ainda. Talvez até sejamos seguidos. Já há quem diga que os investidores estrangeiros estão se retirando ou pensando seriamente em se retirar dos mercados americanos: talvez isso explique porque o euro já está a somente 7 centavos abaixo do dólar. [Webinsider]

