P2P está sendo minado pela desconfiança
29 de junho de 2002, 0:00Se alguém quiser envenenar os programas de troca de arquivos, um caminho seria destruir a confiança das pessoas que formam este tipo de rede. Bom, parece que já estão fazendo isso.
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Não é exagero dizer que depois do advento do MP3 e do Napster a internet e a indústria do entretenimento nunca mais foram as mesmas. A internet deixou a imagem de ser um reduto de nerds desesperados por baixar pornografia e virou um repositório aparentemente infinito de músicas, e mais recentemente, vários outros formatos de arquivo.
Evidentemente essas mudanças não vieram sem alguma reação dos detentores do copyright das músicas que eram trocadas impunemente. Não demorou muito e os programas de troca foram caindo vÃtimas do próprio sucesso: Napster e Audiogalaxy são o melhor exemplo disso tudo.
O monstro de sete cabeças responsável pelo fim desses dois serviços responde por meio de uma sigla: RIAA (Recording Industry Association of America) e o trabalho deles é representar os detentores do copyright das músicas que você e eu trocamos por estes serviços do mal. Os detentores do copyright são as empresas que faturam com a venda fÃsica desse material, hoje em CD e até recentemente, em fita cassete ou vinil.
Desde que começou essa onda de trocas de arquivos, a RIAA pensa em um modo de acabar com esses programas. Já chegaram até a cogitar uma licença especial para invadir os computadores de todo mundo e apagar os mp3 que lhes pertenciam, isso no pós 11 de setembro, quando a paranóia americana anti–terrorista estava em seu auge.
Outra solução maravilhosa cogitada pela RIAA foi o uso de ataques DoS contra os usuários desses programas que distribuem as suas músicas. Ataques DoS (denial of Service) foram os responsáveis por tirar a Amazon e o Yahoo do ar um tempo atrás, o ataque consiste de vários computadores enviando pacotes para um único servidor web, sobrecarregando e fazendo este servidor ficar fora do ar.
Óbvio que a medida não foi vista com bons olhos, nem pelos usuários, nem pelos provedores, que teriam que arcar com os custos dos milhares de ataques lançados pela RIAA, já que estes ataques consomem recursos de rede e são extremamente ineficazes (como você pára 2 milhões de usuários lidando com um de cada vez?).
Agora vem a parte irônica da história. O sucesso desses programas está sendo o maior aliado da RIAA. Explico:
Se eu disponibilizo um arquivo chamado, digamos, David Bowie – Heathen – 01 – Sunday.mp3 e alguém busca por Heathen no programa e esse arquivo aparece como resposta para essa busca, qual a reação natural de qualquer usuário? “Puxa, vou baixar esse arquivo!”
O que muitas vezes não temos condição de saber é que esse arquivo, o qual estamos tentando baixar, pode ser o Marilyn Manson – The Horrible People.mp3 renomeado como o arquivo do Bowie. Qual o objetivo de alguém fazer isso?
Em primeiro lugar, pode ser um estratagema da RIAA para começar a tentar coibir a troca de arquivos pelos programas de troca ou, mais simples, podem ser usuários chatos apenas com vontade de socar qualquer um que queira baixar algum artista que eles detestem – ou adorem.
Quando – e se – estas pessoas fazem isso, estão acabando com o sistema de confiança que é necessário para o bom funcionamento das redes de troca de arquivo. A grande pergunta é: isso é ilegal?
Provavelmente não, já que eu renomeio os meus arquivos para o nome que eu quiser, e ninguém tem nada a ver com isso. Agora, isso deve ser antiético de alguma forma. Opa… eu estou trocando arquivos mp3 que eu, legalmente, não possuo. Como eu posso falar em ética?
É uma grande e nebulosa zona cinza, meio terra de ninguém, onde a RIAA não tem controle e muito menos os usuários. Todos somos reféns uns dos outros quando nos conectamos a uma mesma rede de troca de arquivos e a única coisa que mantém o serviço funcionando é a confiança que temos uns nos outros. Quando morre essa confiança, como que fica?
E, o mais importante, quanto tempo até a RIAA e outros detentores de copyright começarem a usar essa tática como parte de sua estratégia contra os programas de troca? Provavelmente vai surgir algum outro programa ou recurso que avalie a qualidade de um usuário, resolvendo um pouco o problema. Mas com certeza esses usuários do mal (ou do bem?) acharão outro jeito de chacoalhar e abalar as estruturas convencionais dos sistemas de troca de arquivos.
Procura–se Bowie desesperadamente
Depois de ficar sabendo pela imprensa do lançamento do novo disco de David Bowie, Heathen, resolvi baixar as músicas gratuitamente da internet, através do programa que utilizo, o Kazaa.
Dei a busca e rapidamente o programa achou várias canções do álbum. Fiquei navegando na rede à espera do primeiro download completo. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir as primeiras palavras da música? Estava claro que aquilo nunca poderia ser David Bowie.
Mas tudo bem, esperei mais alguns instantes para conferir se as outras músicas estavam certas. Não estavam. Nenhuma das cinco primeiras que baixei eram do Bowie. Eram apenas duas músicas, de alguma banda que eu não faço a mÃnima idéia de qual seja, que se repetiam nos meus ouvidos.
Apesar da frustração desse dia, não desisti. Naquela mesma semana fiz mais três tentativas e fiz o download de diferentes usuários do Kazaa. Nova frustração. Não consegui encontrar nenhuma música do Heathen. Depois de todo esse tempo perdido e pouca esperança de conseguir o álbum inteiro gratuitamente, acho que o jeito vai ser ir até a loja de CDs mais próxima. [Webinsider]
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