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Não seja masoquista tecnológico. Reaja.

24 de junho de 2002, 0:00

A vida como ela é – cheia de software que não funciona, sites enrolados, dificuldades de interação. Reclame, ache ruim, ligue para o SAC, mande um e–mail, fale com o ombudsman!

Por Nenhum

Livia Labate

“Somos seres analógicos presos em um mundo digital – e a pior parte é que fomos nós mesmos que o criamos.” Essa frase resume um pensamento de Don Norman em The Invisible Computer (MIT Press, 1997), que clarifica o fato de que somos pessoas e não máquinas, mas nos submetemos à máquina voluntariamente.

Me parece uma atitude bastante estúpida ter consciência de um problema e continuar a repeti–lo. Mas desenvolvemos novos softwares, novos websites, novos equipamentos e novos serviços sem resolvermos os problemas de suas versões anteriores. Suportamos e vivemos as dificuldades de interação com todos estes produtos – impostas por nós mesmos – e defendemos as novas criações levantando a bandeira da modernidade e inovação. Mas se não há melhora, por que se dar ao trabalho de criar uma nova versão?

Princípios econômicos. Essa é a resposta para justificar nosso padrão de ignorância que permite que aceitemos o pior e nos rendamos aos empecilhos que a interação humano–computador traz às nossas vidas. Desenvolvemos produtos que não se adequam ao usuário mas que são financeiramente viáveis. Criamos websites que glorificam o design, mesmo que o propósito não seja artístico. Provimos serviços que satisfazem a gerência enquanto o consumidor final fica a ver navios.

Essa economia rege uma sociedade insatisfeita e complacente com suas barreiras auto–impostas. Mas isso não vai durar. Estamos aprendendo a identificar os erros e vícios que herdamos de gerações anteriores, criadas para não participarem da ‘tecnologia’. Mas não os culpemos; eles não viviam na era da informação, onde o conhecimento é o fator que agrega real valor ao que fazemos. Mas nós vivemos, então o que estamos esperando?

Aqueles princípios econômicos serão sempre os mesmos e seria uma tentativa frustrada tentar modificar uma estrutura de mercado baseando–se em idealismo. É preciso exigir que o que é produzido seja aquilo o que queremos, não o que gostariam de que nos fosse adequado. Reclame, ache ruim, ligue para o SAC, faça propaganda contra, mande um e–mail, fale com o ombudsman! Não se sujeite a um produto que seja menos do que você espera e menos do que você merece.

Apesar da relativa pouca idade da internet, o conceito é difícil de ser difundido. Começamos aceitando todo o tipo de porcaria – hardware lento, conexões demoradas, sistemas falhos, browsers com bugs e sites que não facilitam a busca à informação. Não há ânimo para tentar informar o dono do site como ele poderia fazer aquilo melhor depois de ter sido lembrado repetidamente o quanto dependente e insignificante você realmente se tornou diante de toda aquela tecnologia.

Como usuário, é difícil contribuir para a melhoria da qualidade dos sites por livre e espontânea vontade, mas como alguém que produz esse tipo de serviço–produto tão complexo e completo como se tornaram os sites, é mais do que uma obrigação. É um dever social – correndo o risco de soar utópico – porque é o único meio de mudar este paradigma retrógado e anti–evolutivo de que temos que aceitar as coisas como elas são.

Chega de sites “aceitáveis”. Difunda a necessidade de um projeto consistente, de um serviço funcional, de tecnologia adequada ao seu alvo, de profissionais competentes, de arquitetura da informação bem estruturada e acima de tudo, resultados que supram as necessidades desse público frustrado e faminto por qualidade, além de justificar os princípios econômicos que regem a sociedade masoquista da tecnologia. [Webinsider]

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