Ainda sobre o fim do no. e o inÃcio da internet
22 de maio de 2002, 0:00O que significa o fim do site de jornalismo dream team? Que a inteligência deve tirar o time? Que a única chance de sobrevivência é produzir um mix entre o besteirol e a pornografia? De jeito nenhum.
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O no. acabou. No universo da internet brasileira, mais humilde e menos pujante do que em outros tempos, a notÃcia não deu nem manchete, apenas insuficientes “notinhasâ€. O fim do no. encerra – com atraso, como sempre acontece no Brasil – a era dos sites regidos pela benevolência dos “investidoresâ€; gente empenhada em “injetar capitalâ€, é bom que se diga, a fundo perdido. Isso já acabou há muito tempo nos Estados Unidos; mas aqui ainda persistia, por isso, a notÃcia estampada na “capa†do próprio site: “Por decisão de seus investidores, a partir de hoje no. deixa de ser renovadaâ€.
Como tudo começou. Embora a maioria não achasse (e o discurso geral sempre fosse esse mesmo, ou seja: de que a internet estava aà para todo mundo), os jornalistas sempre tiveram a nÃtida impressão de que a internet fora feita para eles. E só para eles. Professores de HTML, depois de passagens pelos “centros de treinamento†da Folha e da Abril, afirmavam para quem quisesse ouvir: “A internet veio para substituir o jornal. No começo não se sabia; hoje já se sabe: o jornal.†Os alunos – interessados em coisas como e–commerce, tecnologia wap, troca de arquivos via Napster e sites de entretenimento – de repente, sentiam–se órfãos (muitos pensavam em ir para casa), quando descobriam que a internet simplesmente não fora feita para eles.
E, de fato, para os jornalistas, era just too good to be true: a internet oferecia a única possibilidade de dar furos em tempo real; a capacidade de armazenar dados, beirando o infinito; a fluidez e flexibilidade para redesenhar e redefinir conteúdos, da noite para o dia; a chance de interação real ou virtual com a audiência (milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares de leitores); a oportunidade de lançar–se numa empreitada solo, mandando banana para a chefia, a um custo baixÃssimo; o fim da burocracia, dada a falta de legislação especÃfica, permitindo a reprodução indiscriminada de imagens e de textos; era, enfim, o sonho de recriar o mundo, sem regras e sem limites, ganhando, de lambuja, rios de dinheiro em Nasdaq (a equivalente internética de Wall Street).
Não foi bem assim, no entanto, que aconteceu. Ou talvez tenha sido; mas o certo é que o final não foi feliz.
Administradores do pior tipo. Os jornalistas, embora capazes de gerar o melhor conteúdo, como mostrou o próprio no. (e seu modelo supremo, a Salon.com), revelaram–se administradores do pior tipo. (Uma constatação já feita e refeita, no Brasil, em décadas de experiências fracassadas na mÃdia impressa.)
O modelo da internet – aqui e no mundo todo (diga–se) – contemplava geralmente um “modelo de despesas†perfeito, mas nunca (ou muito superficialmente) um “modelo de receitas†efetivo. Trocando em miúdos: linhas editoriais eram definidas; equipes eram contratadas; escritórios eram montados; gastos eram previstos – mas sempre apostando em esquemas frágeis de faturamento. Pensava–se, por exemplo, em publicidade via banner [1]; em parcerias com grandes portais [2]; em venda de conteúdo [3]; em comércio eletrônico [4]; e, numa perspectiva mais ambiciosa (à la iG), em abrir capital na bolsa de valores tupiniquim [5].
A publicidade internética [1] teve de dividir verba com a mÃdia tradicional (televisão, rádio, jornais e revistas). Resultado: uma campanha difamatória resolveu provar por “a+b†que a internet era um fiasco (uma vez que apenas 3% do total de internautas clicava nos anúncios exibidos). Já as ditas parcerias [2], quando o parâmetro era a visitação e o número de pageviews, funcionaram à s mil maravilhas, rendendo fama e fortuna a pequenos sites (de repente, catapultados por uma ZipNet da vida).
Resultado: os portais terminaram endividados; muitos quebraram, muitos voltaram a seus paÃses de origem, muitos permanecem afundados em resultados operacionais negativos. A venda de conteúdo [3] parecia um filão, mas só decolou em sites de grandes corporações, interessadas em notÃcias especÃficas sobre produtos e serviços (não em conteúdo mais abrangente e rico). O comércio eletrônico [4] permanece como mistério insolúvel. Já foi desacreditado (quando do quase–fim da Amazon), hoje engatinha (tendo tirado o Submarino, em 2001, do prejuÃzo). Já a abertura de capital [5] é um sonho impossÃvel, principalmente depois do baque da Nasdaq, da explosão da “bolha†(ainda mais na meca da mÃdia eletrônica, os Estados Unidos).
Torre de Babel. O no. (“notÃcia e opiniãoâ€, para quem não sabia) tinha, portanto, todos esses defeitos e mais um: o da experiência (a mesma que não se transfere de uma mÃdia para outra mÃdia). Começou escalando a nata dos colunistas dos jornais do Rio (leia–se JB e O Globo): Arthur Dapieve, Flávio Pinheiro, Mario Sergio Conti, Sérgio Abranches, Tutty Vasques, Villas–Bôas Corrêa, Walter Fontoura e Zuenir Ventura. Depois, incorporou uma gama infindável de colaboradores [para ler todos os nomes, é preciso um fôlego incrÃvel]: Aldir Blanc, André Corrêa do Lago, Andrea Kauffmann–Zeh, Arnaldo Cohen, Beatriz Horta, Beatriz Resende, Cacá Diegues, Carlos Alberto Mattos, Claudio de Moura Castro, Drauzio Varella, Elena Landau, Francisco de Oliveira, Frédéric Pagès, HeloÃsa Buarque de Hollanda, Hermano Vianna, Inês Pedrosa, Jesus Paula Assis, João Gordo, João Moreira Salles, Joaquim Ferreira dos Santos, Jonathan Kandell, José Augusto Pádua, Jurandir Freire Costa, Kenneth Maxwell, Leandro Piquet Carneiro, Luiz Felipe de Alencastro, Marcos Augusto Gonçalves, Marcos Ribas de Faria, Maria Rita Kehl, Paulo Lins, Renato Lessa, Ricardo Prado, Roberto Muggiati, Sérgio Alcides, Sérgio Bermudes, Sérgio Miceli, Suzy Capó e Silvio Meira.
Em que pesem as qualidades individuais de cada um (no seu ramo ou setor), uma redação desse tamanho – sem contar o diretor, os editores, os conselheiros, os redatores e os repórteres (estão todos lá listados, na homepage do no.com.br) – seria simplesmente inexeqüÃvel (já no “mundo realâ€, que dirá no “mundo virtual ). Conclusão: o “modelo de despesas†estava, seguindo a fórmula, mais–que–perfeito – mas e o “modelo de receitasâ€?
O visitante mais assÃduo enxergava um banner lá no topo, periodicamente renovado, e, na página principal, à s vezes, um outro banner à direita, em posição vertical. Mas será que isso era suficiente para sustentar todo esse cast [supracitado]? Mais as atualizações diárias e as reportagens de grosso calibre, rivalizando com os grandes jornais do Rio e de São Paulo? Claro que não. A “injeção de capital†vinha, então, dos investidores [os tais, como querÃamos demonstrar]: Opportunity, GP Investimentos e La Fonte. O último, um belo dia, resolveu abandonar o barco; a equação – na hora – se desequilibrou; deixaram de ser pagos os salários; em poucos meses, o no. expirou.
Mocinhos e bandidos. O que tudo isso significa? Que a inteligência deve tirar o time? Que a única chance de sobrevivência é produzir um mix entre o besteirol e a pornografia? Que internet, assim como a televisão, é um caso perdido? Que neste paÃs ninguém valoriza a cultura, a educação e as artes assim constituÃdas? Não, não, não e não.
O fim do no. deixa muitas lições, todavia.
Primeira: como na “economia realâ€, não se pode implementar um “projeto virtual†sem um “modelo de receitas†consistente e firme.
Segunda: em qualquer organização que se preze, o número de remadores deve ser maior que o de comandantes (e de vips), caso contrário, a empresa afunda como o Titanic.
Terceira: a “mÃdia eletrônica†não pode ser encarada com uma simples derivação da “mÃdia impressa†(embora influências sejam detectáveis aqui e ali).
Quarta: jornalistas, escritores e artistas devem abrir mão de seu idealismo – e encarar a internet como um meio que precisa ser comercialmente viável, para, como todos os outros, poder existir.
Quinta: a História da internet mal começou a ser escrita, há ainda muitos lugares nesse panteão de mocinhos e bandidos. [Webinsider]
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1° icommercepage Data: 31/05/2008 Ã s 20:04
Atividade: autonomo
Cidade: londrina
Bela exposição de idéias, é muito bom ver o ponto de vista do brasil em relação à essa massa que é a internet.
Lembrando que sob a ótica mundial, tudo se volta para o vale do silÃcio, tudo gira em torno deles, acionistas, curiosos e até a ralé da internet.