O fundamentalismo da política externa americana
19 de maio de 2002, 0:00Novo livro de Tariq Ali desvenda o mundo do Islã para os ocidentais e alerta contra as conseqüências da dominação ideológica e militar dos Estados Unidos sobre o resto do mundo.
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“Quero perguntar por que tantas pessoas em partes não–islâmicas do mundo não se comoveram com o que aconteceu e por que tantas comemoraram, segundo a expressão arrepiante de Osama Bin Laden, uma ‘América golpeada em seus órgãos vitais pelo poderoso Alá’”.
A indagação referente ao 11 de setembro é do escritor paquistanês Tariq Ali, que esteve na última Bienal do Livro de São Paulo, no dia 1o. de maio, para lançar a edição brasileira de seu livro mais recente, Confronto de Fundamentalismos: Cruzadas, Jihad e Modernidade (Editora Record).
Editor da prestigiada revista política New Left Review, Tariq Ali é mais conhecido no Brasil por seu ciclo de romances islâmicos, como Sombras da Romãzeira, O Livro de Saladino e Mulher de Pedra (todos lançados também pela Record). Em Confronto de Fundamentalismos…, porém, ele deixa a ficção de lado e se concentra no que sabe fazer de melhor: análise histórico–política. Neste caso, do Islã.
Apesar de nascido num país de maioria muçulmana, Tariq Ali foi criado numa família comunista, e ainda criança acompanhou os embates entre indianos e muçulmanos que resultaram num grande e sangrento conflito em 1948, quando o Paquistão se tornou independente da Índia. É com a história desse conflito que ele abre o livro, passando em seguida para as origens do Islã. Cerca de 350 das 462 páginas deste livro são dedicadas a essa história, desde Maomé até os dias de hoje, passando por figuras importantes como Jemal Ataturk, que unificou a Turquia no início do século XX, a Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito nos anos 60 e considerado um dos maiores nomes da política do Oriente Médio.
A história do Islã pode ser bastante longa – e atribulada – mas está longe de ser chata. Tariq Ali não se detém apenas sobre fatos e datas, mas analisa causas e conseqüências das nações islâmicas e de ocasionais parceiros (entre os quais os próprios EUA, no passado recente). Ele explica, entre outras coisas, por que a população do Irã derrubou o xá Reza Pahlevi e colocou no poder de livre e espontânea vontade o regime dos aiatolás, como Nasser caiu no Egito para dar lugar a Anwar Sadat, parceiro comercial e político dos Estados Unidos, e os motivos por trás da aliança entre EUA e os talibãs na época da invasão soviética no Afeganistão.
As cento e poucas páginas finais do livro são dedicadas aos EUA. No capítulo intitulado “Um curso rápido de história do fundamentalismo americano”, Tariq Ali fala da dominação ideológica e militar dos Estados Unidos sobre o resto do mundo, e explica as conseqüências das ações americanas em outros países, ferindo o princípio de autodeterminação dos povos por interesses muito distantes do bem comum. Ele não se limita a dar sua própria opinião: a passagem com o depoimento do general–de–divisão Smedley Butler, que lutou nas duas guerras mundiais do século passado, é muito esclarecedora.
Butler, falecido em 1940, escreveu um livro expondo sua visão contrária às guerras ofensivas, desmascarando as operações militares dos Estados Unidos em Honduras, no México, em Cuba e na República Dominicana. Em 1933, no meio de um discurso, ele fez a seguinte observação a respeito do governo e das forças armadas de seu país: “Na época eu suspeitava de que fazia parte de um negócio sujo. Agora tenho certeza”.
As “armações” americanas, no entanto, não param por aí. Iraque, Kosovo, Malvinas, África: todos os conflitos mundiais modernos, de um modo ou de outro, tiveram o dedo dos Estados Unidos, e Confronto de Fundamentalismos… mostra isso de modo objetivo, sem revanchismo. Mas, embora não tenha ficado feliz com o atentado ao World Trade Center, Tariq Ali nos mostra uma dura verdade: se não fosse pela política externa desastrosa dos Estados Unidos desde o início do século XX, talvez não tivéssemos sido testemunhas daquelas cenas trágicas do dia 11 de setembro. [Webinsider]
