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Propostas para um mundo de código aberto

07 de maio de 2002, 0:00

Fórum Internacional do Software Livre alia comunidades de usuários e especialistas na cruzada contra as restrições de código. Para os três mil participantes, um outro mundo (sem Windows e Office) é possível.

Por Nenhum

Renata Aquino

O Fórum Internacional do Software Livre (FISL), hospedado em Porto Alegre durante o início de maio, parece ter trazido um mundo maravilhosamente novo para os iniciantes e entusiastas da quase–religião do código aberto.

Imagine a vida sem qualquer software proprietário – sem Windows e Office, por exemplo. Foi com essa idéia que pelo menos três mil pessoas encheram, durante três dias, uma das maiores universidades do Rio Grande do Sul. O fórum contou com a presença de representantes de 11 países. Reunimos os melhores momentos da cobertura do FISL.

Know–how é diferente de propriedade intelectual

A maioria dos contratos de trabalho em tecnologia costumam ter uma cláusula polêmica, a chamada “cláusula da propriedade intelectual”, a qual atesta que um programador precisa abrir mão do crédito de qualquer software desenvolvido por ele em prol da empresa.

Mas, como “apagar” da memória do profissional o desenvolvimento e as experiências adquiridas? É impossível, de acordo com o professor e advogado Tarcísio Cerqueira. “Há uma linha cinza entre know–how e invenção que não pode ser menosprezada. O know–how pertence ao profissional e não há como não reutilizá–lo, a empresa não pode contestar isso”, explicou. “É possível que o programador leve [para outra empresa] sua experiência, o intercâmbio de conhecimento não fere ninguém”.

Software livre como independência para América Latina

“Software livre é patriotismo e se você quer acabar com a dependência de companhias americanas de tecnologia, deve usá–lo”, bradou Bob Chassell, vice–presidente da Free Software Foundation. “Um país que quer avançar em tecnologia precisa exercer controle do software que usa, não pode depender de produtos fechados. Se um governo usa software proprietário, fica à mercê do vendedor do produto para qualquer alteração ou problema ocasionado pelo sistema. Com o software livre, pode escolher quem vai alterar o produto ou examinar suas configurações por conta própria”.

Por que o PC popular não deu certo?

Wagner Meira Jr., do Departamento de Ciências da Computação da UFMG, declarou que
o projeto está hibernando por tempo indeterminado por falta de apoio do governo. “A ABINEE (Associação Brasileira de Indústrias Eletro–eletrônicas) foi contra a fabricação do computador e o governo federal não fez nada”.

“O apoio do governo sempre foi pífio. As intenções de fazer funcionar projetos como aquele foram massacradas, a pressão de empresas como a Microsoft foi muito grande”, disse Meira em uma das palestras mais lotadas do FISL. “O governo adiou a aprovação das regras de fabricação, que dariam isenção de impostos ao projeto, por vários motivos diferentes”.

Segundo ele, além do governo, outro grande culpado é o grupo de empresas de informática no Brasil. “Fomos procurados por um grande fabricante. Completamos o projeto, apresentamos a solução com software livre, mas a fabricação nunca saiu das intenções. Depois, ainda nos disseram que usaram a idéia do PC popular com Linux para pressionar a Microsoft a oferecer licenças mais baratas”. O projeto do PC popular está parado.

Sem terra, mas com Debian

Maria Inês Pereira Pinheiro e Vilmar Boufleuer são dois dos primeiros “multiplicadores” de software livre do MST.

No jargão social, multiplicadores são instrutores formados fora do Estado de origem que depois voltam à terra natal para transmitir os conhecimentos adquiridos a outros instrutores. Maria Inês veio de São Luís (MA) e Vilmar de Curitiba (PR) para estudar em Porto Alegre (RS).

Participaram do curso com outros 15 sem–terra, em parceria com o MST e a Procergs (Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul). Foram treinados em Debian GNU/Linux. “Foi difícil. Não por ser Linux, mas porque não tínhamos contato anterior com informática”, declara Vilmar. “Mesmo assim, nunca pensamos em desistir. O MST tem 1001 dificuldades, principalmente a financeira; aprender Linux não seria uma das piores idéias”, conta Maria Inês.

No Uruguai, software livre é como chimarrão

Serve para compartilhar com os amigos, invocar amizades e ensinar o hábito desde cedo. Vários motivos classificam o software livre como chimarrão, de acordo com Manuel Antonio Pérez Charczuk, da comissão internacional do Grupo de Usuários
de Linux do Uruguai, o UyLUG. O grupo tem como símbolo um simpático pingüim com lenço gaúcho e cuia de chimarrão.

“Queremos nos integrar cada vez mais com o Brasil. A única coisa que não conseguimos nos adaptar é que o chimarrão daqui é muito grande, então trouxemos nossas cuias do Uruguai”, brinca Charczuk.

Próximo evento de software livre será no Rio de Janeiro

A Proderj (Empresa de Processamento de Dados do Rio de Janeiro) promoverá um outro evento de software livre em agosto.

O Fórum Internacional do Software Livre teve sua terceira edição este ano e é promovido pela Procergs. Atingiu um público estimado em três mil pessoas e vários convidados internacionais. A próxima edição, em 2003, será novamente em Porto Alegre.

De acordo com o presidente da Procergs, Marcos Mazoni, o FISL 2002
reuniu 11 países e representantes de 26 Estados brasileiros, com 1074 empresas presentes. “A Fenasoft (SP) reuniu apenas 250 congressistas; nós tivemos 2500 congressistas inscritos”, gabou–se. [Webinsider]

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