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Jornalismo

Vendendo o recheio dos outros

26 de abril de 2002, 0:00

Mais copyright: empresas de distribuição de notícias copiam textos de sites de jornalismo e colam nos clippings ao gosto do freguês. Elas cobram por este serviço, mas os jornais e revistas não ganham nada.

Por Nenhum

Iriz Medeiros

Até que ponto a distribuição eletrônica de notícias por parte de prestadoras de serviços como clipadoras prejudica as empresas jornalísticas?

Notícias divulgadas recentemente na imprensa nacional sobre novos serviços de webclipping, principalmente para empresas, e a crescente preocupação na Europa com esta questão suscitam a um importante debate. Não existe na internet um controle sobre os direitos autorais de matérias e imagens produzidas por jornais e revistas.

Segundo matéria publicada na Gazeta Mercantil no último dia 2 de abril, um conjunto de ferramentas chamado Burli, cujos sistemas são de direitos da empresa canadense Burli Inc., promete facilitar a vida de jornalistas dos veículos brasileiros de rádio e televisão. Tais ferramentas reúnem em um mesmo serviço a captação de textos, imagens e áudio, assim como a edição e a distribuição de informações de caráter jornalístico.

Com todas essas facilidades, os jornalistas conseguem editar programas e boletins com notícias dos mais diversos veículos e agências noticiosas. O Burli já funciona em doze idiomas diferentes, incluindo o português. Isso significa que milhares de informações, seja em formato de texto, vídeo ou áudio, circulam pelo mundo via internet sem que os verdadeiros produtores de todo esse material ganhem alguma coisa com a novidade.

Ainda de acordo com a Gazeta Mercantil, no Brasil a licença para utilização do Burli custa entre R$ 2 mil e R$ 4 mil.

Receber por e?mail notícias de interesse de uma determinada empresa ou sobre um assunto em específico já é uma facilidade bastante explorada no mercado nacional de comunicação. Afinal, o serviço de webclipping, pago ou não, desenvolve?se cada vez mais em busca de um público interessado. Em geral, o alvo são as grandes empresas. Embraer, Fiat, Souza Cruz, TAM, entre outras, são alguns exemplos de importantes clientes conquistados pelas clipadoras virtuais de notícias.

O que gera discussão é o fato de que as prestadoras desse serviço utilizam sistemas de busca através de palavras?chave e encaminham para os seus clientes as matérias de interesse de cada um. Este e?mail geralmente contém os links para as respectivas notícias. Entretanto, no pior dos casos, os textos são simplesmente copiados e enviados, sem que exista qualquer acordo por parte das clipadoras com os veículos de comunicação.

Acontece uma venda de informações sem que nenhuma parte do resultado financeiro dessa venda seja revertido para os produtores de conteúdo. No caso de e?mails com links, os jornais virtuais acabam ganhando pageviews. Mas quando as matérias são copiadas, perdem leitores.

Na Europa, a preocupação com os direitos autorais de conteúdos produzidos e disponibilizados na nova sociedade da informação criada pela rede já resultou numa diretiva instituída pelo Parlamento Europeu em maio do ano passado. O documento trata de medidas de proteção que devem ser tomadas a partir deste ano pelos países da União Européia. Na Alemanha, por exemplo, os parlamentares já revisam suas leis.

O objetivo é criar normas específicas denominadas “normas de gerenciamento de direitos digitais”, que incluirão regras definindo o que poderá ser copiado e o que deverá ser considerado ilegal. O argumento principal para toda a mudança é que a cópia digital não pode ser distinguida do original. Com isso, os titulares dos direitos autorias de determinado material deverão tomar medidas de controle de acesso e de cópia do mesmo. Os dados são da revista Consultor Jurídico, que em 16 de março de 2002 publicou a matéria “Direitos Autorais ? Europa institui medidas tecnológicas de proteção”.

Assim como a questão da distribuição eletrônica de músicas, o conteúdo de caráter jornalístico, seja em formato de texto, áudio ou imagem, certamente ainda será objeto de muitas discussões a fim de que se criem maneiras de respeitar os direitos do autor.

Por mais que a internet seja um veículo de certo caráter democrático, isso não significa que o material nela disponibilizado possa ser copiado e veiculado por quem bem entender, indiscriminadamente. Quanto à questão dos webclippings e serviços afins, o assunto ainda é muito novo e deve ser melhor debatido no meio jornalístico (e talvez jurídico) para que os profissionais de comunicação não sejam os prejudicados nessa história. [Webinsider]

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