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Comportamento

O dia D… repensar a vida.

19 de abril de 2002, 0:00

Nada mais sem critério do que os cargos dos profissionais de web no Brasil. Veja a típica entrevista de emprego, onde o entrevistador não conhece nada e o entrevistado tem que aceitar andar para trás.

Por Leonardo Oliveira

Ele entrou pela recepção do prédio da Av. Eng. Luís Carlos Berrini com a convicção de que chegava o momento de ser reconhecido. Afinal de contas, já trabalha com e pela internet há séculos, talvez desde 1995. Ele é um herói e sabe disso.

Passa pela catraca com o crachá de visitante pendurado na cinta e já imaginando que em pouco tempo não precisará mais da incômoda referência à sua exclusão. Logo poderia pertencer àquele lugar de profissionais respeitados, onde estão hospedadas as divisões de e–business de empresas novas e centenárias.

Ao apertar o botão que iria escancarar o 18 metálico–fosco, lembrou–se de que não tinha nada ensaiado para falar na entrevista de emprego.

– Mas, bolas, afinal não tenho toda experiência com este troço? Comecei como programador HTML em um provedor de Santos. Em menos de seis meses aprendi tanto que no dia em que resolvi sair daquele emprego, recebi uma oferta irrecusável para ser webmaster de uma produtora de São Paulo.

Dois senhores engravatados no elevador olharam curiosos para o rapaz que pensava alto. Ele continuou:

– Pô, cheguei em São Paulo, dei duro, ensinei um monte de coisas pra aqueles webdesigners que só sabiam abrir o Photoshop. Meu diretor, então!? De internet não sabia nada. Gostava mesmo era de bater papo com o cliente e falar aquele marquetês de revista de negócios e auto–ajuda corporativa.

– Depois de dois anos lá, fui para uma agência de propaganda para gerenciar a divisão online. Lá trabalhei tanto que até aquele marquetês sabia de cor. Foram anos de luta, enfiado entre diretores de arte e redatores, que se intitulavam criativos e não sabiam, ou faziam questão de não aprender, a usar um computador corretamente. Desenvolvi novos formatos, ensinei muita coisa na agência e também para os clientes. Vi ótimas idéias morrerem só porque não saíram da boca dos diretores.

– Tenho que ser algo… Mas qualquer definição de função é insuficiente. Se pelo menos estivesse nos Estados Unidos… Lá sim, eles têm definições para vários cargos ligados à internet.

Àquela altura os engravatados já estavam apreensivos pela convivência de elevador com um possível esquizofrênico. E o 18º andar que não chegava.

– É isso. Sou um Interface Developer. Bradou o cargo com um maroto sorriso que lhe emoldurava a convicção. Naquele exato momento, para alegria dos senhores preocupados, as portas do elevador se abriram para o 18º andar.

Depois de 40 minutos esperando na recepção, onde alternou flertes à recepcionista e rápidas passadas por revistas de informática com a foto do presidente da empresa na capa, foi chamado para a tão aguardada entrevista.

Antes que pudesse terminar de pronunciar seu nome e sentar–se corretamente, já recebeu a fatídica pergunta:

– Qual é o seu objetivo profissional?

Desconcertado frente àquele crime contra um profissional multiqualificado como ele, tentava imaginar rapidamente algum objetivo profissional que surtisse impacto e findasse a proposição. Afinal, não queria discorrer muito sobre aquele tema. Estava lá para se vender e não ser acuado por futilidades. Foi quando lançou sem titubear:

– Eu sou um Interface Developer.

Com cara de freira em jogo de truco o entrevistador, que de tecnologia não entendia nada mas guardava na manga duas dezenas de frases–feitas, revidou:

– Muito bom. Mas na nossa empresa temos necessidades específicas a serem supridas. O senhor sabe fazer sites? E e–mail marketing?

A partir dali não havia mais argumentos. Estava derrotado, mas precisava do emprego. A crise está aí, trabalho está muito difícil de encontrar. E no mais, existem as contas que não dão folga. Estava decidido a conquistar a vaga, mesmo que fosse para ganhar metade do que realmente merecia.

Rapidamente ele entrou no jogo do entrevistador; deu a ele todas as respostas que queria ouvir. Ao final da entrevista tinha a certeza de que estava contratado…como programador HTML. [Webinsider]

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Sobre o autor

Leonardo Oliveira (leonardo.oliveira@ogilvy.com) é gerente de operações da OgilvyOne Brasil e mestre em Jornalismo Digital pela ECA/USP.

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