A web do futuro será linda e careta
15 de abril de 2002, 0:00Criada a partir de noções médias para um público médio, essa nova web espelhará os preconceitos culturais que vemos hoje nos outros meios, especialmente na televisão.
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Este texto foi escrito em dezembro de 1999 e publicado aqui conosco em janeiro de 2000 (na verdade no antecessor do Webinsider). Vale a pena ser relido, pois não se trata exatamente de uma previsão, mas de um comentário sobre a apropriação que “Wall Street e Holywoodâ€, como diz o autor, procuram fazer de um invento criado para ser o oposto da TV. Se naquela época ainda não havia os blogs, os investimentos muito mais vultosos e os portais pareciam ter um futuro muito mais brilhante, o ponto principal ainda parece bastante relevante (Vicente Tardin).
Jerome Wiesner, ex–presidente do MIT e co–fundador do Media Lab, conta uma história sobre o inventor da televisão, Vladimir Sworykin, que o visitou certo sábado na Casa Branca, quando Wiesner era o conselheiro cientÃfico de John Kennedy.
Wiesner perguntou a Sworykin se ele conhecia o presidente. Diante da negativa de Sworikin, Wiesner o conduziu pelo edifÃcio e o apresentou como “o homem que fez com que o senhor fosse eleito”. Surpreso, o presidente perguntou: “Como assim?” Wiesner explicou: “Este é o homem que inventou a televisão”. Kennedy então disse: “Que fantástico. Que coisa importante você fez”. Sworykin comentou secamente: “O senhor tem visto televisão ultimamente?
Não é difÃcil imaginar que Sworykin devia ter uma idéia completamente diferente para o seu invento, e que estava extremamente desgostoso com o meio de comunicação comercial em que ele havia se tornado.
Não é difÃcil imaginar que para muitos usuários da internet, e especialmente para seus criadores e pioneiros, a comercialização da web causa um desgosto similar.
Há pouco mais de cinco anos, World Wide Web explodiu como meio de comunicação de massa. A internet passou do mundo acadêmico para as mãos leigas com notável rapidez. Tudo começou com um software e um conjunto de protocolos: a internet podia então ser acessada, ou consultada, sem que fossem necessários grandes conhecimentos de informática.
Era então a maior biblioteca pública do mundo: ciências, artes, notÃcias do mundo todo estavam finalmente à disposição de qualquer um que pudesse adquirir o equipamento básico. A história pode ser resumida assim:
1. Como muitos sabem, a web nasceu de um programa inventado para facilitar a vida de fÃsicos nucleares espalhados pelo mundo, cujas pesquisas dependiam de imagens de colisões de partÃculas nos grandes aceleradores atômicos do CERN, na SuÃça. O truque era usar a internet – velha conhecida dos acadêmicos – para enviar imagens de modo mais dinâmico. Grande economia em passagens aéreas para a SuÃça.
2. Ao se adaptar uma linguagem de programação de texto já existente, surgiu a HTML, “linguagem de marcação de hipertextoâ€. Linguagem relativamente simples, a HTML permitia que o imenso volume de texto (acadêmico ainda) existente na Rede pudesse ser integrado através de links – o tal “hipertextoâ€. Era um meio de disponibilizar as porções digitalizadas das universidades, teses, monografias, imagens técnicas.
3. Ao mesmo tempo, os cidadãos comuns já se esbaldavam com os Bulletin Board Systems (BBSs), desde o momento que os aparelhos que permitiam transferir dados binários por telefone ficaram baratos o bastante. A Academia torceu o nariz, mas não pode evitar que o povão pulasse a cerca para a internet.
4. Quando a web explodiu como um novo meio de comunicação, diferente de qualquer outro, auto–referente, pouquÃssimos executivos captaram as implicações do fato de que um adolescente qualquer podia projetar sua imagem mundialmente de um jeito que empresas milionárias então não conheciam. Para as corporações, foi cruel perceber que aquele adolescente podia manter a liderança em termos de “branding†investindo sua mesada numa homepage. Aqueles eram os loucos dias de 1994.
Hoje, o jogo mudou.
Sites–portais, comércio eletrônico, leilões em tempo real, bancos e financeiras online, corretoras: a web é o foco da transição mais dramática desde a Revolução Industrial – a digitalização da economia analógica. A emergência de uma economia digital globalizada era uma conseqüência óbvia e inevitável da evolução das telecomunicações.
As vendas através da web para o Natal de 98 chegaram a dezenas de bilhões de dólares, isso apenas nos mercados ricos da América do Norte e da Europa. O e–comércio existe de fato, apesar de alguns “problemas menores e dificuldades técnicasâ€. Apesar de alguns clientes insatisfeitos, a moratória de impostos sobre o e–comércio nos Estados Unidos acaba ano que vem.
O setor de entretenimento é o que está investindo mais pesadamente na fusão (ou “convergênciaâ€) de várias tecnologias e equipamentos. O mercado fonográfico contempla a possibilidade de migrar totalmente para a web. Em breve, um álbum será produzido, editado e vendido no ciberespaço – o usuário sairá estalando os dedos com o MP3–player no bolso. Hollywood apresenta seus “blockbusters†inicialmente através de clips em RealVideo, em sites que são lindamente desenhados. A TV torna–se cada vez mais parecida com o PC, e vice–versa. Empresas investem bilhões em sistemas de TV interativa – e os cabos de TV permitem uma conexão à web muito mais veloz.
Um pouco atrasado ainda, o sistema financeiro ainda está às voltas com o grande problema de se criar uma moeda corrente na web, que seja confiável e represente um valor nominal válido em qualquer lugar do planeta. Quando isso acontecer, e deve ser em breve, as atividades comerciais fora da web serão as exceções.
A web que explodiu no começo dos anos 90 terá deixado de existir completamente, ou será reduzida a uma fração mÃnima. Com o todo o dinheiro do mundo fluindo e interagindo através de uma rede mundial, haverá pouco espaço para iniciativas mais despojadas, que custem pouco ou nada.
Nessa web futura, como na história da televisão, o dinheiro expulsará ou marginalizará tudo que for contra as normas comerciais, incluindo as morais. O capitalismo, mesmo em grande transformação, trará para o ciberespaço seus preceitos e preconceitos, alguns com mais de dois séculos de existência.
Se Wall Street e Hollywood forem os principais investidores da web vindoura, essa web terá a cara de Wall Street e Hollywood. Será uma web muito mais brilhante e atraente, mas será também mais estreita e confinada.
Uma nova geração de usuários – não composta necessariamente de gente jovem – conhecerá uma web onde brilham alguns tantos “pontos focais†(que se chamem portais, canais ou coisa que valha) que atrairão o interesse da maioria. Cada ponto focal tem suas lojas, seus sistemas internos de busca, filmes, músicas, leilões, agências bancárias, canais de televisão. E anúncios, muitos anúncios.
Criada a partir de noções médias para um público médio, essa nova web espelhará os preconceitos culturais que vemos hoje nos outros meios, especialmente na televisão. Gerada a partir do capital, essa nova web não terá pruridos morais em aplicar censura, filtros ou o simples banimento de itens inconvenientes. Com a benção dos governos e dos consumidores médios. Afinal, o cliente tem sempre razão.
Comunidades, discussões, e outras formas de expressão coletiva ficarão restritas a uma pequena área – que muito provavelmente não atrairá a atenção desses navegantes consumidores.
A esperança é que a internet foi criada para funcionar exatamente ao contrário da televisão. Em vez de uma transmissão “um–para–muitosâ€, é na verdade um sistema “muitos–para–muitosâ€. E evolui dinamicamente, entropicamente. Há um número bastante de alto de usuários “ativosâ€, que se dedicam a revirar a estrutura da rede, para adequá–las à s suas necessidades. A maioria é capaz de recusar o que não gosta, e vários são talentosos o bastante para alterar o que não gostam.
Assim, qualquer cÃnico poderá dizer que minha previsão é tão boa (ou tão ruim) como qualquer outra. Na verdade, filtros e softwares de bloqueio não podem de fato “censurar†a Rede – mas é possÃvel convencer um grande número de pessoas a acreditar nisso. [Webinsider]



1° Rodrigo Data: 15/05/2009 Ã s 14:37
Atividade:
Cidade: São Paulo
Você estava certo em parte. Iniciativas menores criadas por jovens estudantes(veja o Twitter) ainda podem bombar na rede, mas a velocidade com a qual são invadidos e tomados pelos donos das mÃdias tradicionais é incrÃvel.
Ashton Kutcher venceu a corrida por 1 milhão de seguidores. A CNN perdeu.
Uma pessoa de carne e osso (sem avaliar estreitamente seu mérito pessoal) venceu uma mega empresa de mÃdia.
Poucas pessoas se deram conta do significado disso:
Não foi Ashton Kutcher que venceu a CNN, foram os seus seguidores ao optarem por seguir uma pessoa e não uma marca.
Até +