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Copyleft: uma discussão sobre quem lucra

21 de fevereiro de 2002, 0:00

O conceito de copyleft em oposição a copyright é distorcido por alguns editores de publicações na internet para justificar a apropriação não autorizada de conteúdo desenvolvido por terceiros.

Por Nenhum

Fábio Fernandes

Na semana passada, o Webinsider se deparou com um incidente desagradável – e, infelizmente, não pela primeira vez. Um site que se pretende de notícias reproduziu sete artigos daqui, sem a autorização do editor ou mesmo dos seus autores.

Felizmente, um simples pedido foi o suficiente para que esse site retirasse do ar o conteúdo publicado indevidamente. Mas esse tipo de problema acontece constantemente, e não parece ter uma solução imediata.

Uma das razões alegadas por editores de conteúdo de sites que efetuam essa ação (mais conhecida na web pela alcunha de Ctrl+C, Ctrl+V, os conjuntos de teclas de um PC que permitem copiar e colar texto) é que a informação é livre, e logo deve ser distribuída para todos. Mesmo que isso signifique publicar um texto sem autorização, sem citar a fonte e sem pagar direitos autorais.

Direitos autorais, aliás, não são muito bem vistos na rede. Para muitos pensadores da web, o conceito de copyright está ultrapassado e refletiria uma situação de dominação do poder através da sonegação de informação. Daí o surgimento do conceito de copyleft, disseminado pela Free Software Foundation.

Que copyleft foi um conceito criado em contraposição à idéia de copyright, todo mundo sabe. Mas será que alguém já parou para se questionar se isso realmente faz sentido?

Explico: o termo right do copyright, nesse contexto, é interpretado como sendo direita no sentido político. Copyleft, portanto, seria o lado da esquerda, um ataque frontal a um pensamento pretensamente de direita.

Mas será mesmo?

O copyright foi criado para ajudar os produtores de trabalho intelectual justamente a não serem explorados pela direita, ou seja, pelos donos dos meios de produção. Essa discussão é antiga, e não será retomada aqui – recomendo a leitura de O Capital, de Marx, mais atual do que nunca, juntamente com Sem Logo, de Naomi Klein (que será em breve comentado aqui)

O que nos leva à pergunta: quem lucra com o copyleft? De que vivem os defensores desse conceito? De brisa ou mais–valia?

Não sejamos cínicos, mas é importante lembrar que grandes nomes por trás desse conceito (ainda que não diretamente responsáveis por esse pensamento), como Linus Torvalds, eram sustentados pelos pais, ou por pequenas bolsas universitárias. É fácil falar em copyleft, ou criticar o copyright, quando você não depende disso para sobreviver.

Um dos maiores nomes de nosso teatro, Cacilda Becker, disse certa vez a uma pessoa que lhe pediu ingressos de graça: “Não me peça para dar a única coisa que tenho para vender”. Isso deveria ser suficiente para que todos pudessem entender o seguinte: o conceito de copyleft só funciona de verdade quando o detentor do trabalho intelectual possui outra fonte de renda que não esse trabalho. Caso contrário, ele passa a ser – novamente – escravo dos detentores do meio de produção. Sejam estes megaempresários ou editores de websites.

A verdade pode ser dura, mas precisa ser dita. Chega de hype: se os defensores do copyleft são realmente de esquerda como afirmam, está mais do que na hora de compreenderem que é preciso socializar a riqueza, e não a miséria. E não é tirando das pessoas o poder sobre sua própria produção que isso irá acontecer. [Webinsider]

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