O Fórum Social Mundial e a internet
31 de janeiro de 2002, 0:00A contraproposta dos excluídos ao encontro de cúpula que anualmente reúne representantes dos oito países mais ricos do mundo conquistou importância em parte pela utilização da internet, com debates e vídeo–conferências.
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Começa hoje e vai até o dia 05 de fevereiro próximo, em Porto Alegre – RS, a
segunda edição do Fórum Social Mundial (FSM). O Fórum apresenta–se como a
contraproposta dos excluídos ao encontro de cúpula que anualmente ocorre em
Davos, Suíça, onde participam representantes dos oito países mais ricos do
mundo, o Fórum Econômico Mundial (FEC). Excepcionalmente neste ano o FEC
será em Nova York, mas retorna a Davos em 2003.
A primeira edição do FSM foi um grande sucesso e desbancou a cúpula de Davos
como centro das atenções e única fonte de debate instituído e viável para o
futuro do planeta. Neste ano, além de debater e apresentar propostas para o
desenvolvimento auto–sustentável e da afirmação da sociedade civil, o Fórum
também discute as leis de proteção à patentes e direitos autorais, trazendo
ao Brasil um dos maiores nomes do anti–protecionismo corportivo e do livre
acesso a utilização dos softwares de código aberto, o norte–americano
Richard Stallman. Porém, tão importante quanto a presença de Stallman é a
utilização da internet para a realização do FSM.
A internet tem um papel de destaque e reconhecido por todos aqueles que
organizam o evento. Já na primeira edição, a rede possibilitou debates
inéditos e vídeo–conferências envolvendo ícones da esquerda
anti–globalização, como o francês José Bové e o diretor do prestigiado
LeMonde Diplomatic, Ignácio Ramonet, bem como o maior especulador financeiro
do planeta, George Soros. Através da rede o mundo recebia informações em
tempo real sobre os debates, a imprensa mundial alimentava suas redações com
entrevistas, fotos e vídeos. Até a reunião de Davos foi alcançada pela mira
de Porto Alegre, onde manifestantes que enfrentavam a polícia e o frio suíço
tinham seu esforço e reivindicações reconhecidas e apoiadas pelos
participantes do FSM.
Isto é pouco, apenas uma amostra do que a internet e a tecnologia podem
oferecer aos participantes do FSM, do FEC ou de qualquer outro debate
transnacional. Ano a ano teremos mais opções de interação, primeiro
assistindo os debates ao vivo e posteriormente participando das discussões,
seja dialogando com palestrantes, seja em um grupo de discussão com
representantes na platéia do evento. Quem sabe até participando da redação
dos documentos e relatórios finais dos encontros.
Mas a presença da rede não se restringe ao campo técnico e da
infra–estrutura. O debate se abre às possibilidades de integração cultural e
econômica, que passam pelo livre acesso ao conhecimento, lutas
anti–terrorismo (seja ele ocidental ou oriental), democratização do ensino e
uma melhor distribuição da renda, por que não?
Como resposta a todo protesto contra empresas multinacionais, marca dos
ativistas anti–globalização em todo o mundo, a questão parece indissolúvel
quando sobrepomos os interesses dos usuários e seu desejo pela melhoria
contínua da tecnologia aos interesses das empresas responsáveis pelo
‘hardware’ da rede, como fabricantes de computadores, empresas de
telecomunicações, bancos, mídia, etc.
A vitória absoluta de um dos lados deste debate é tecnicamente inviável.
Historicamente a informática e a internet são criações de jovens que
torraram muito dinheiro e tutano em troca de uma promessa que até então não
tinha equivalentes físicos. Muitos deste desenvolvedores perderam o controle
sobre suas criações ou venderam–nas para grandes indústrias, os replicantes
da tecnologia, que cumprem seu papel na disseminação e popularização dos
produtos tecnológicos. Desenvolvimento e distribuição não são processos
dependentes e é graças a isto que a questão permanecerá aberta e a internet
se prestará a transportar conhecimento e principalmente criatividade.
Não pensem as grandes corporações que sua vitória virá com o tempo, num
resultado de paciência e movimentos certeiros, de hora exata. O componente
humano costuma não corresponder à previsões. Do mesmo modo fica impossível
desenvolver a comunicação global sem a internet e sua infra–estrutura
tecnológica, produto do trabalho das grandes corporações, cada vez mais
presentes nos países de todos os continentes. A reivindicação dos
manifestantes anti–globalização nunca será atendida em sua totalidade, não
neste mundo.
O ponto de equilíbrio a se acordar tem neste segundo FSM sua maior
probabilidade de acerto. O debate se mostra fértil àqueles que deixam de
lado o discurso engajado e buscam soluções viáveis e condizentes com as
necessidades dos povos, principalmente dos mais necessitados. Que a
democratização da internet esteja na pauta deste encontro e que as idéias
que lá se fundirão construam uma ponte entre o mundo rico, em recessão é
verdade, e a enorme maioria de excluídos dos países periféricos.
Num primeiro momento este acesso a tecnologia e aumento da capacidade
produtiva deve direcionar–se à América Latina e ao leste europeu, já no
estágio de implantação de políticas desenvolvimentistas, incentivos fiscais
e com enorme capacidade produtiva ociosa.
Para regiões mais pobres do planeta como a América Central e a África, a
tecnologia deve vir após uma reestruturação social e política, com implantação
de planos para desenvolvimento econômico e a estruturação do ensino
fundamental, e posteriormente com participação efetiva nas decisões tomadas
por organismos internacionais como a ONU, Unesco e OMC, nesta ordem. [Webinsider]



