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Fábio Fernandes
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Dez livros para entender o século XXI (parte I)

17 de janeiro de 2002, 0:00

Um pequeno porém honesto guia de livros fundamentais para compreender a fase de transição pela qual passamos agora. Foram escritos no século passado, mas com os olhos neste que inicia.

Por Fábio Fernandes

Adeus ano velho, feliz século novo. Assim como se diz que o século XX só começou de verdade com a morte do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono da Áustria (fato que deflagrou a Primeira Guerra Mundial), depois do dia 11 de setembro de 2001 ninguém tem mais dúvidas: o século XXI começou – para valer e com força total.

Foi para entender a que ponto chegamos (e a que ponto podemos chegar) que surgiu a idéia desta pequena lista. A intenção é indicar um apanhado de livros significativos escritos no século passado, mas com os olhos voltados para este que se inicia. A relação não obedece a ordem alguma; não se deseja privilegiar este ou aquele livro estabelecendo parâmetros de preferência, sempre pessoais e, portanto, intransferíveis.

São dez livros – cinco nesta matéria e cinco na próxima – que compõem uma lista não necessariamente elaborada com a intenção de impor novos clássicos, mas propondo, ao invés de um novo cânone ocidental (pedindo licença a Harold Bloom), uma abertura para um novo espaço de possibilidades. Sem rejeitar os clássicos, apresentamos livros novos (e outros que já não são tão novos assim) para iniciarmos o novo século não só com o pé direito, mas com a mente aberta. Estes livros podem até não constituir um guia completo, mas poderão ser de ajuda para uma compreensão mais profunda do século XXI.
preferência, sempre pessoais e, portanto, intransferíveis.

Understanding Media (Marshall McLuhan)

Muito falado, porém não tão lido, o mais famoso teórico de comunicação do planeta deixou seu nome na história ao propor o conceito de Aldeia Global para algo que na época – anos 60 – era apenas um sonho, mas com o advento da internet se tornou real. Neste livro (publicado no Brasil pela Editora Cultrix como Os Meios de Comunicação como Extensão do Homem), McLuhan explora a mídia eletrônica e polemiza: ela é uma extensão dos sentidos do homem, não num sentido metafórico, mas concreto mesmo. Há quem discorde, mas ninguém fica indiferente diante dos pensamentos do homem que desvendou os mistérios da comunicação de massa.

Islands in the Net (Bruce Sterling)

O título de grande romance da geração cyberpunk ficou com Neuromancer, de William Gibson, mas Sterling levou a odisséia cyberpunk um passo adiante. Neste livro (publicado no Brasil pela extinta editora Aleph com o título de Piratas de Dados), mais importante que a história da família Webster, que viaja pelo mundo a serviço da toda–poderosa transnacional Rizome Corporation, é a descrição do futuro onde a globalização atingiu seu ápice… mas encontra focos de resistência, nos enclaves tecno–anarquistas do Terceiro Mundo (Granada e Singapura são os exemplos citados). Sterling faz ficção, mas propõe ações. Não por outro motivo ele é considerado atualmente o ideólogo do movimento cyberpunk.

Zona Autônoma Temporária (Hakim Bey)

Um clássico da subversão contemporânea. Escrito no final da década de oitenta e incensado por William Burroughs, Colin Wilson e Allen Ginsberg, este livreto–panfleto escrito por Hakim Bey (de quem não existem fotos e cuja vida é repleta de informações desencontradas) é um libelo à revolução permanente, sob a forma das chamadas Zonas Autônomas Temporárias: coletivos aleatórios que se reúnem por um tempo brevíssimo em espaços virtuais ou reais para combater o poder constituído. Um ativismo impossível de definir, que está deixando muita gente sem sono no Hemisfério Norte – e fazendo o Hemisfério Sul pensar. Mais sobre ele em breve aqui no Webinsider.

A Sociedade do Espetáculo (Guy Debord)

Uma das análises mais lúcidas do mundo em que vivemos, sob o viés dos meios de comunicação de massa. Se McLuhan discutiu, em seus livros, o que são as mídias eletrônicas em termos científicos, Debord expõe o uso delas pelo sistema. Não se trata de nenhuma teoria de conspiração: o que ele descreve é como, numa espécie de pacto quase (ma non troppo) inconsciente, os detentores dos mass media oferecem pão e circo aos espectadores… que, de certo modo, ajudam na manutenção deste status quo. Escrito sobre a forma de teses, este é um livro denso, mas compensa: cada uma de suas páginas fornece uma idéia nova e faz brotar outras tantas da cabeça do leitor.

Cibercultura (Pierre Lévy)

Quando a web surgiu, ele já estava lá, tentando mapear e compreender esse território. Autor de livros já clássicos como O Que É o Virtual? e As Tecnologias da Inteligência, este filósofo francês atualmente radicado no Canadá – não por acaso, a terra de McLuhan – cunhou o termo que está na boca dos internautas. Neste livro, Lévy se concentra basicamente no uso das novas tecnologias (multimídia, internet, sistemas de inteligência artificial) na educação e na comunicação.

Lévy é um filósofo prático: antes mesmo da web, criou, em parceria com Michel Authier, um sistema de troca de conhecimento cuja finalidade é democratizar a educação sem necessariamente eliminar as universidades, mas desmontando as hierarquias de saberes vigentes e constituindo um coletivo inteligente capaz de produzir uma democracia em tempo real. Pode ser utópico, como dizem alguns críticos de Lévy, mas não deixa de ser interessante. [Webinsider]

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Sobre o autor

Fábio FernandesFábio Fernandes (zeroabsoluto@gmail.com) é jornalista, escritor e tradutor. Mantém o blog Pós-estranho.

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