Arte e técnica
04 de janeiro de 2002, 0:00Sobre escrever para a web, qualidade e mentalidade tecnicista.
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Em seu ótimo livro Webwriting, o professor de webwriting e colaborador do Webinsider Bruno Rodrigues afirma que texto não é obra de arte. Em suas palavras: “Escrever é uma aptidão como qualquer outra, e não um sopro do Espírito Santo, que nos transforma em semideuses”.
Bruno não é o único profissional ligado a conteúdo na internet que defende essa teoria. No 3o. Encontro de Webdesign, realizado em novembro passado no Rio de Janeiro, Sérgio Salvador, arquiteto da informação da Neoris Brasil, deu uma palestra cujo tema abordava uma questão semelhante. Ele parecia concordar inteiramente com Bruno, e foi mais além, estabelecendo uma distinção bastante clara entre escrever como profissão e escrever como arte. Para Salvador, arte pode ser definida como algo que é realizado sem um objetivo além de si mesmo (ou seja, o que se convencionou chamar de arte pela arte) e sem preocupação com remuneração.
Essa visão pragmática é bastante compreensível, porque é voltada para um profissional que precisa executar um trabalho não para si mesmo, mas para um cliente, e esse trabalho deve ser executado em um prazo determinado por um preço quase sempre combinado previamente. Logo, é mais do que natural concluir que texto não é arte, e estamos conversados.
Mas será mesmo que é tão simples assim? Como se pode escrever (seja para a web, seja para qualquer mídia) sem pensar em arte? E – o mais importante – é necessariamente ruim considerar o trabalho de criação de um texto, seja ele encomendado ou não, como algo que tenha um pouco de arte?
Toda arte pressupõe uma técnica
É muito difícil definir com precisão o que é arte, principalmente depois de Marcel Duchamp e Pablo Picasso. Mais do que ninguém, foi Picasso quem melhor definiu a arte moderna ao observar que o surgimento da fotografia mudou para sempre a pintura, acabando com a representação convencional da forma e abrindo caminho para a arte dita abstrata – da qual ele seria um de seus principais nomes, criando com seu amigo Georges Braque a escola denominada cubista.
Contudo, tomando a própria obra de Picasso como exemplo (uma obra que, ao longo de quase oitenta anos, evoluirá da figurativa, representando as pessoas como em uma fotografia, até a máxima economia de traços de sua última fase), podemos perceber que arte abstrata não é sinônimo de falta de técnica. Para pintar a obra–prima do Cubismo que foi o quadro Guernica, Picasso começou com um trabalho acadêmico, Ciência e Caridade. Ele precisou aprender desenho da maneira convencional.
Conclusão? Criar uma obra de arte pressupõe o desenvolvimento de uma técnica. De uma elaborada pintura figurativa a um quadro naïf, não importa: é preciso saber alguma coisa. Esse saber não precisa ter vindo necessariamente de um curso; ele pode ter sido acumulado com anos de prática, de exercícios, de treinamento. Mas não vem do nada.
E quanto à remuneração? Não podemos nos esquecer que Leonardo Da Vinci foi pago para pintar a Mona Lisa, e Michelangelo, para pintar a Capela Sistina. Para eles, é provável que tais trabalhos (por mais que tenham se dedicado a eles e os levado a sério) não tenham passado de intervalos no decorrer de seus trabalhos mais “sérios”. E no entanto essas obras específicas são aplaudidas hoje e consideradas obras de arte sem discussão.
O que isso tem a ver com a web?
Não tem mistério: assim como para pintar um quadro é necessário praticar, escrever um texto requer muito treinamento. É necessário dominar profundamente as ferramentas do ofício: seu idioma, a linguagem da mídia para a qual se está criando o texto e o público ao qual ele será dirigido.
Estes e outros pressupostos podem ser aprendidos em cursos, e também na melhor de todas as escolas, que é a prática do cotidiano. Eles constituem a chamada técnica. E arte é em grande parte isso. Claro que existe o chamado pulo–do–gato: aquele toque de inspiração que difere um trabalho burocrático daquele outro que todos nós, independente desta ou daquela definição, podemos olhar e dizer: que trabalho excelente! E também é evidente que, ao fazer determinado trabalho para um cliente, nem sempre (ou talvez quase nunca) você possa de fato fazer aquilo que gosta, ou que sabe que ficaria melhor naquele trabalho específico.
Mas não importa. Mesmo um trabalho que possa ser considerado burocrático num primeiro momento terá o seu momento de arte posteriormente – desde que bem–feito. Porque arte, além de técnica, é também qualidade – e não necessariamente estética (afinal, o que Van Gogh, Rembrandt e Picasso têm em comum, além do fato de terem sido pintores?). E qualidade é o mais importante. Para o cliente e para você.
Resumo da ópera? A mentalidade tecnicista é mortal para a criação de conteúdo para a web. Ver o mundo com olhos de artista não é apenas importante para quem deseja escrever para a internet: é fundamental. [Webinsider]
Corte transversal: uma ótima opção para quem quer conhecer um pouco mais sobre definições de arte é a coletânea de citações Arte é o que Eu e Você Chamamos Arte, organizada por Frederico Morais (Editora Record). Jornalista, historiador e curador independente, Morais reuniu 801 citações de pintores, escultores, arquitetos, designers, variando de Ernst Fischer e Oscar Niemeyer a Van Gogh e Picasso. O interessante é que poucas são as definições que concordam entre si, mas todas são coerentes e fazem pensar, o que é o mais importante.


1° vanessa Data: 16/11/2006 às 20:34
Atividade:
Cidade: são paulo
eu queria saber se a artedo Pablo Ruiz Picasso a obra Guernica é abstrata ou figurativa e porque?
obrigada se responder