Uma proposta radical e absurda
20 de novembro de 2001, 0:00O conteúdo grátis e a música.
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O espaço aqui desta coluna não tem sido renovado com a freqüência que deveria, mas também quase ninguém reclamou. O motivo é que perdeu a graça a história da distribuição de música pela internet. As mais interessantes iniciativas foram adquiridas pelas gravadoras, junto com os antigos sonhos de mudar a dinâmica do mercado e promover artistas mais variados e menos comerciais. Sites como MP3.com, EMusic.com e RollingStone.com não são mais independentes e hoje pertencem à gigante de mÃdia Vivendi Universal. É só um exemplo.
Se os inovadores morreram na praia, as gravadoras também não saÃram da água, pois continuam a gastar milhões de dólares para segurar a internet, até agora em vão.
Atualmente todas apostam as fichas em serviços pagos e preparam sistemas seguros. Esta semana foi divulgada uma estimativa sobre o tamanho deste mercado. Segundo a IDC, os fornecedores de serviços pagos podem chegar a receitas de US$ 1,6 bilhão em 2005, desde que ofereçam amplo conteúdo e flexibilidade ao consumidor. Pode parecer muito dinheiro, mas há senões no caminho.
É só comparar com outra pesquisa, divulgada no inÃcio do mês pela Webnoize Research. Apenas no mês de outubro foram baixados quase dois bilhões de arquivos pelos usuários dos serviços Kazaa, MusicCity e Grokster. Estes são apenas alguns dos serviços que assumiram o lugar do Napster, fechado na justiça e adquirido pela Bertelsmann a alto custo.
O movimento de outubro (1,81 bilhão de arquivos) foi 20% maior do que o mês anterior (1,51 bilhão). Comparando estes números, dá para perceber que as gravadoras estarão vendendo apenas uma fração do que hoje as pessoas obtém de graça.
Apenas nestas três aplicações, 1,3 milhão de usuários participaram da rede peer–to–peer através de software licenciado da FastTrack, empresa baseada em Amsterdam. O número de usuários só cresce e deverá ainda este mês superar o Napster em sua época de maior movimento, que foi de 1,57 milhão de usuários.
Naturalmente as gravadoras e estúdios de cinema também processaram os serviços por infração de direitos de autoria, o que por outro lado faz aumentar o número de usuários.
Agora vamos a outras duas pesquisas, realizadas nos Estados Unidos e divulgadas esta semana pela Philips Consumer Electronics e pela Sony Computer Entertainment America. Por mais que procurem valorizar os produtos que vendem, os estudos de mercado estão certos ao apontar que neste Natal os objetos de desejo dos consumidores serão os novos DVD players, os consoles de games e os aparelhos de áudio digital.
Estes últimos, principalmente, vão buscar conteúdo, boa parte ilegal. É um mercado em crescimento e as gravadoras não vão se beneficiar.
Sinuca de bico? A história da música na internet é um sucesso e um fracasso ao mesmo tempo. Nenhuma gravadora consegue vender pela internet de verdade, mas os HDs em todo o mundo estão cheios de arquivos de música. Aparentemente o público não se interessa em pagar pelas canções, apesar de pagar pelo acesso à internet de alguma forma, comprar computador e outros aparelhos de áudio e vÃdeo digital.
Coisa mais chata essa de contratar advogados, criar sistemas contra cópias e tudo o mais para evitar que as pessoas baixem músicas. Talvez fosse a hora de um consultor daqueles bem caros propor uma abordagem radical.
Como só se ganha na internet de forma indireta, ele diria para os grandes grupos de mÃdia, que controlam gravadoras e estúdios de TV e cinema, que adotassem um novo modelo de negócios. Que parassem já de jogar fora milhões e milhões de dólares em advogados e software seguro e usassem este dinheiro para comprar todos os provedores de acesso banda larga que puderem e ainda não possuem.
Depois comprariam os fabricantes de HD e aparelhos de áudio digital (a Sony já está bem adiantada neste aspecto).
Em seguida e ao mesmo tempo colocariam de graça em seus sites todas as músicas, de todos os discos. Tudo bem feito e grátis. Tudo com muitas fotos, encartes, letras, clips e arquivos grandes para encher bem o HD e fazer o público desejar máquinas mais velozes.
Depois poriam também os filmes do cinema, todos, de graça, para fazer vender bastante conexões banda larga.
Dariam um jeito de remunerar autores e artistas, claro, e aguardariam o benefÃcio na venda de hardware e conexões de internet. Não sei se vai dar certo, não sou consultor. Mas olhando assim pode valer muito mais a pena do que esperar até 2005 para faturar muito menos que estão gastando agora, na tentativa de evitar o que milhões de pessoas fazem espontaneamente. [Webinsider]
