Blogs que nasceram ontem e já amadureceram
03 de outubro de 2001, 0:00O impacto que derrubou o World Trade Center mostrou que os blogs não são apenas veÃculo para confissões de adolescentes – mas também um lugar de informação relevante e opinião embasada.
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Em Dragon´s Egg, livro de ficção cientÃfica do fÃsico Robert L. Forward, o primeiro contato dos humanos com uma raça inteligente é dos mais insólitos: para esses alienÃgenas – uma forma de vida inteligente que habita uma estrela de nêutrons – uma hora dos terráqueos equivale a centenas de anos.
Poucos dias após a tripulação da nave humana estabelecer contato, o povo dessa estrela já atingiu um nÃvel tamanho de desenvolvimento tecnológico que supera até mesmo o pessoal da Terra… e é aà que a história de fato começa: com o choque que é para os humanos um desenvolvimento tão rápido, tão fora de seus parâmetros anteriores.
O impacto provocado nos americanos – e no resto do mundo – com a destruição do World Trade Center no dia 11 de setembro não fez com que apenas a mÃdia convencional (e ao dizer convencional nos referimos também aos grandes portais de notÃcias e versões online dos jornais impressos) enfrentasse o maior desafio de sua história.
Dentro da internet, um veÃculo no qual ninguém apostava serviu como uma espécie de "correio da selva", enviando sinais de fumaça binários, e repassando informações através do baticum techno de tambores digitais – informações verdadeiras ou falsas, os chamados hoaxes – por toda a rede: os blogs.
Até pouquÃssimo tempo atrás considerados apenas diários de adolescentes (recentemente o Jornal do Brasil confirmou essa visão em uma matéria para sua Revista de Domingo), os blogs estão amadurecendo a uma velocidade digna dessa tal raça alienÃgena inventada por Forward: em menos de dois anos após a criação desse universo blogueiro (ou blogverso, para encurtar), eles estão rapidamente começando a assumir um tom mais sério.
E talvez isso tenha mais a ver com o tumulto provocado pelo ataque terrorista aos EUA: os blogs mais comentados nas listas de discussão sobre jornalismo eram justamente os que se dedicaram a postar mensagens sobre o assunto. Três exemplos podem ser considerados a linha de frente das informações relevantes sobre o atentado no mundo blogger: o Samizdat, o InternETC e O Franco–Atirador
Destes, o mais antigo é o Samizdat: criado em maio pelo jornalista Guilherme Kujawski, editor de tecnologia da revista Carta Capital, ele serve – como o próprio Kujawski declarou, em uma palestra recente para o evento Interatividades, promovido pelo Itaú Cultural – para que ele possa publicar assuntos que fogem do âmbito da revista. Voltado basicamente para questões de tecnologia, o Samizdat não desviou o foco nos primeiros dias após o atentado, mas forneceu complementos preciosos reproduzindo dia a dia o pensamento de jornalistas de todas as partes do mundo (com destaque para o site da americana Electronic Frontier Foundation e o jornal inglês The Observer) e dando sua própria – e embasada – opinião a respeito dos acontecimentos.
O InternETC., criado pela também jornalista Cora Rónai (e também de tecnologia: ela é editora do caderno Informática Etc., do jornal O Globo) no dia 26 de agosto, tem algo a mais: um bom humor a toda prova. Cora também citou outros colegas da imprensa mundial, e, defensora emérita da internet como mÃdia democrática, forneceu links para, entre outras coisas, a mais completa lista (até aquele momento) de ferramentas gratuitas de defesa da privacidade e para a Amazon.com, que naqueles dias estava arrecadando fundos para a Cruz Vermelha.
Dos três, o único não–jornalista do grupo é o paulista Lúcio Manfredi, editor do Franco–Atirador. Formado em filosofia e trabalhando atualmente como roteirista para a Rede Globo de Televisão, ele só colocou seu blog na rede no dia 16 de setembro, cinco dias após o atentado. Lúcio é ainda mais obcecado com a notÃcia do que Cora e Kujawski: é o único dos três que ainda não parou por um instante de postar comentários a respeito – mas não deixa cair a bola: a última dele foi comentar, no post do dia 27, a reportagem da revista alemã Stern a respeito das imagens de palestinos comemorando o ataque aos EUA. Segundo ele próprio, está tendo uma excelente audiência – e foi motivo de discussões acirradas em pelo menos uma lista na Internet.
Não podemos, evidentemente, esquecer Sergio Faria e seu blog Catarro Verde – outro que, sem perder o humor, denunciou o plágio do discurso de renúncia do senador Antônio Carlos Magalhães e foi o primeiro a dar uma visibilidade aos blogs no seu sentido mais maduro. Mas o atentado do dia 11 transformou o que poderia ter sido apenas um "surto" de lucidez blogueira no surgimento (ao menos do ponto de vista da própria comunidade de blogueiros e internautas em geral) de uma nova geração de blogs, dedicada a tratar de assuntos mais inteligentes e interessantes do que um diário adolescente.
Esses exemplos ainda são muito poucos. Entretanto, da mesma forma como na internet é impossÃvel contar o número exato de sites existentes, não é lá uma tarefa tão fácil descobrir quantos blogs existem – mesmo no Brasil. Sabemos que algumas centenas acabaram de ficar órfãos quando o Desembucha.com encerrou suas atividades, no final de setembro, mas a maioria dos blogs brasileiros parece mesmo estar situada no pai–de–todos, o pioneiro Blogger.com. No momento em que este artigo foi escrito (noite de 30 de setembro), o diretório do Blogger continha cerca de 1300 blogs – e mesmo este número não reflete a realidade, pois o usuário desse serviço tem a opção de tornar seu blog privado, ou seja, fazer com que ele não conste no diretório.
Mas, como dizia o escritor de ficção cientÃfica Theodore Sturgeon ao formular a Lei que leva seu nome, "90% de toda a ficção cientÃfica escrita é uma porcaria – mas, pensando bem, 90% de tudo o que se escreve é uma porcaria". Nem os blogs escapam desse postulado – mas qual é o problema, afinal? Há espaço para todos – e gosto para tudo. O importante talvez seja perceber que – pelo menos para quem pode ter acesso à internet, que ainda é uma minoria no mundo – existe a opção de se fazer ouvir. De forma inteligente – e sem perder a ternura. [web insider]


1° ??????? Data: 20/11/2009 Ã s 10:21
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Por que nao:)