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Fábio Fernandes
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Jornalismo online: o exemplo do século XIX

21 de setembro de 2001, 0:00

Conheça a história do Correio Braziliense: o primeiro jornal brasileiro demorava meses para chegar ao leitor, mas teria muito a ensinar ao jornalismo online instantâneo que se pratica hoje.

Por Fábio Fernandes

Diz um ditado bastante velho e amargo que o brasileiro não tem memória. Isto pode até ser verdade, mas a documentação para recuperar essa memória não nos falta: prova disso é o lançamento, em boa hora, do livro Hipólito José da Costa, organizado por Sergio Goes de Paula.

O volume, que faz parte da coleção Formadores do Brasil (Editora 34), é o mais recente de uma série que conta até agora com Bernardo Pereira de Vasconcelos, Diogo Antônio Feijó, Visconde de Cairú e Frei Caneca. O que diferencia essa coleção de outros registros biográficos lançados nos últimos anos no Brasil é que estes são coletâneas de artigos e cartas escritos pelo punho de alguns dos personagens mais importantes da história do Brasil.

Lançado um mês antes dos ataques terroristas aos Estados Unidos, Hipólito José da Costa pode ser uma das leituras mais importantes para quem quer compreender o verdadeiro papel da imprensa em tempos de crise.

Fundador do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro (apesar de ter sido inteiramente publicado em Londres), Hipólito viveu apenas 19 de seus 48 anos de vida no Brasil. Morou em Portugal, Estados Unidos e na Inglaterra; foi neste último país que acabou se exilando, fugindo da Inquisição portuguesa por ser membro da maçonaria. E em Londres, no ano de 1808, teve a idéia de criar um jornal. Que acabou se tornando, apesar da grande distância que separava Europa e América Latina numa época em que não havia transportes rápidos nem meios de comunicação instantâneos, uma referência fundamental para o jornalismo no que ele tem de mais precioso: expor os fatos com clareza.

A presente edição, de 648 páginas, reúne artigos e documentos publicados no Correio Braziliense entre a Revolução do Porto, em 1820, e a independência do Brasil, em 1822. Foram os anos mais efervescentes para a vida política brasileira nos quinze anos de existência do jornal – cujos 29 volumes foram publicados por Barbosa Lima Sobrinho em 1977 e começaram a ser republicados a partir de junho pela USP, com a organização e edição de Alberto Dines (desta vez, com índices onomástico e remissivo, serão 31 volumes).

O editor e organizador da coletânea, Sérgio Goes de Paula, não acha que os textos de Hipólito tenham apenas um caráter ilustrativo daquele período histórico. "É arriscado dizer que o Hipólito é o melhor jornalista brasileiro. Mas certamente ele é um incrível analista de situações", disse Sérgio em entrevista para o [web insider], concedida duas semanas antes do começo da crise nos EUA.

"A situação do Hipólito é rigorosamente oposta ao jornalismo online: o Hipólito escrevia de Londres, o acontecimento levava dois meses pra chegar lá, ele escrevia em função de dois meses atrás para dois meses adiante", explica Sérgio.

É verdade: as matérias de Hipólito poderiam ser encaradas, nos tempos do webjornalismo, como verdadeiros tratados, de dez ou mais páginas cada um. Mas, longe de serem textos chatos e cansativos, são análises inteligentes e ponderadas do momento político.

Sabedor do tempo enorme que levaria para que cada edição do Correio chegasse ao Brasil, Hipólito era extremamente rigoroso no tratamento de cada matéria, informando o leitor quanto às causas e as possíveis conseqüências da situação analisada. O texto número 41, "Conservação da União Entre o Brasil e Portugal", de janeiro de 1822, é um bom exemplo da preocupação de Hipólito com a transmissão das informações para os leitores.

"Isso levava a que ele fosse um analista incrível", explica Sérgio, "porque o tempo todo ele estava desenhando os cenários possíveis que decorreriam daquele acontecimento que estava analisando. Isso então dava a ele uma qualidade de reflexão muito importante."

Segundo Sérgio – que acha que Hipólito deveria ser texto obrigatório nas faculdades de jornalismo – , o jornalismo online não tem isso, "o que não significa que não possa ter a capacidade de reflexão", ressaltou.

Hipólito lançou o último número do Correio Braziliense logo após a independência do Brasil – contra a qual se posicionara. Segundo Sergio Goes na introdução ao livro, "parecia–lhe que a união com Portugal era a melhor alternativa – para o Brasil, para Portugal, para o monarca." Vendo que seu jornal já não era fundamental como antes, até porque nesse meio tempo surgiram outros publicados em terra brasilis, como o Revérbero Constitucional Fluminense, de Gonçalves Ledo eJanuário da Cunha Barbosa, Hipólito decidiu interromper a publicação do Correio em dezembro de 1822, com a edição 175.

E não viveu muito tempo para ver o estado de coisas do Brasil independente: faleceu pouco depois de completado um ano da independência, no dia 11 de setembro de 1823. Onze de setembro: data em que, quase dois séculos mais tarde, a mídia online experimentaria sua prova de fogo – prova na qual, talvez justamente pela velocidade de transmissão dos fatos (e dos hoaxes, infelizmente) com a qual ainda não estamos inteiramente acostumados, ela não chegou a passar com louvor. E talvez porque o poder de análise de um Hipólito José da Costa nos faça muita falta. [web insider]

Sobre o autor

Fábio FernandesFábio Fernandes (zeroabsoluto@gmail.com) é jornalista, escritor e tradutor. Mantém o blog Pós-estranho.

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Comentários

1 pessoa comentou o artigo "Jornalismo online: o exemplo do século XIX"

Mario Data: 27/09/2006 às 15:44

Atividade:

Cidade:

brasileiro não tem memória

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