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Fábio Fernandes
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Hackers são bandidos ou mocinhos?

07 de agosto de 2001, 0:00

Filósofo finlandês tenta explicar a diferença entre o bom e mau hacker. Os bons estão com a chamada ética hacker, que seria uma alternativa para a ética protestante e exemplo de um novo pensamento.

Por Fábio Fernandes

Invasões a sites e disseminação de vírus: depois de tantos episódios de vandalismo virtual anunciados quase diariamente pela imprensa, ainda é possível ver os hackers como bons sujeitos?

Para o filósofo finlandês Pekka Himanen em seu livro A Ética dos Hackers e o Espírito da Era da Informação (Editora Campus) a resposta é sim, desde que se entenda exatamente o que ele define como um hacker.

Himanen parte do significado original da palavra para fundamentar sua premissa. Segundo ele, "originalmente um hacker era uma pessoa para quem a programação era uma paixão e que compartilhava as criações dessa paixão com outros (…) e não um criminoso informático." Ele sustenta que a mesma postura pode ser encontrada em qualquer outro tipo de profissão – até entre artistas e artesãos, e alerta para uma distinção fundamental que deveria ser feita logo de saída: hackers seriam simplesmente os programadores que trocam entre si os resultados de suas pesquisas.

Os que se valem do seu conhecimento de informática para invadir sites e criar vírus são os crackers (do inglês crack, quebrar) o termo foi cunhado pelos próprios hackers originais para estabelecer uma distinção, que segundo eles próprios a mídia costuma ignorar.

Seria injustiça, entretanto, acusá–lo de ingenuidade: ele não vê o mundo da internet em preto e branco, e nem tenta rotular hackers como bonzinhos ou crackers como os grandes vilões da história: ele não é vago nem prega uma defesa insensata e sem motivo – porque não são os chamados piratas de computador que ele defende, mas os que ajudam a sociedade com suas novas maneiras de ver o mundo.

Exemplos para ele não faltam: no capítulo A Ética da Rede, Himanen descreve a ajuda de hackers americanos e holandeses para driblar a censura dos meios de comunicação no Kosovo em 1999 e cita os movimentos de Software Livre e Open Source, criados respectivamente por Richard Stallman e Eric Raymond como provas de que os verdadeiros hackers querem liberdade de informação, e não destruição de dados.

Isto posto, Himanen inicia um trabalho de análise do que chama de ética hacker, numa clara alusão ao sociólogo alemão Max Weber, homenageando sua magnum opus, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Escrito entre 1904 e 1905, este livro descrevia a idéia de trabalho como dever, partindo basicamente das idéias de Calvino que os puritanos ingleses levaram consigo para os Estados Unidos. Himanen demonstra como essa ética ainda permeia toda a nossa sociedade, e não só o Ocidente, mas também as corporações japonesas.

Em contrapartida, o filósofo finlandês descreve como nas últimas décadas vem surgindo um novo tipo de pensamento, que busca encarar o trabalho como algo divertido e prazeroso, encarando tempo e dinheiro de formas inteiramente diversas das que ainda vigoram hoje na maioria das empresas, sem deixar de lado a responsabilidade. Esta seria a chamada ética hacker, que, segundo ele, é a alternativa para a ética protestante.

Himanen conta com a ajuda de Linus Torvalds no prefácio e de Manuel Castells no posfácio. Não é jogada de marketing, conforme explica Linus, mas apenas o encontro de mentes afins: os três haviam se conhecido em 1998, num simpósio realizado pela Universidade da Califórnia em Berkeley. Desse encontro nasceu o livro, que não deve ser visto apenas como uma produção de Himanen: os dois textos curtos que abrem e fecham o volume são fundamentais para uma compreensão melhor desta nossa era da informação.

Em O que faz o coração de um hacker bater mais rápido, também conhecido como Lei de Linus, o criador do sistema operacional Linux estabelece três categorias básicas que, segundo ele, atuam como motivadoras: sobrevivência, vida social e diversão.

Mais adiante, Himanen pega emprestada essa categorização de Linus e faz uma comparação pertinente e oportuna com o psicólogo Abraham Maslow, conhecido pelo modelo da pirâmide de necessidades básicas humanas que criou, até hoje muito utilizado, principalmente em propaganda e marketing. As três categorias de Linus podem ser comparadas a outras tantas entre as cinco de Maslow, a saber: necessidades fisiológicas e de segurança (sobrevivência), necessidade de pertencer a um grupo social e ser amado (vida social). Himanen sabe que simplificações são perigosas, mas ele próprio faz esse alerta ao leitor e adverte que a comparação é feita apenas para lançar uma luz sobre as diferenças entre os modelos éticos do protestantismo e dos hackers.

Himanen se detém basicamente nas diferentes maneiras como cada grupo encara os fatores tempo e dinheiro. Enquanto os "protestantes", ou seja, os capitalistas antigos e boa parte dos modernos, ainda se pautam pela velha frase de Benjamin Franklin, "Tempo é dinheiro", trabalhando em longas jornadas diárias para só descansar no domingo (e muitas vezes nem isso), os "hackers", neste caso não só os programadores, mas todos aqueles que vivem do que gostam, fazem do trabalho um prazer.

Por isso podem mesmo trabalhar mais do que os capitalistas tradicionais, mas no tempo que eles definirem, da forma como bem entenderem. A questão de dinheiro (vide as polêmicas envolvendo o Linux e o Software Livre) é mais complicada, mas de modo algum é semelhante ao modelo tradicional.

No posfácio de Castells, o autor de A Sociedade em Rede cria o termo informacionalismo para designar um novo paradigma socioeconômico fundamentado na tecnologia, em contraposição ao tradicional industrialismo da nossa sociedade de fábricas e grandes corporações. Através de uma breve biografia da Rede, o sociólogo espanhol explica que a capacidade auto–expansível de processamento e a flexibilidade das novas tecnologias de informação são características essenciais para a mudança que a sociedade tem vivido nos últimos anos, e conclui que o estudo da cultura hacker e o espírito do informacionalismo, que só agora começam a ser estudados de verdade, constituem um avanço fundamental para o mundo neste momento de incerteza.

Himanen tem um site dedicado ao tema, mas seu conteúdo se restringe praticamente a uma reprodução de fragmentos do livro. A parte mais interessante acaba sendo a página de links, que remete o usuário a ótimos sites citados no livro, como os Cypherpunks, grupo que luta pela privacidade de dados através de melhores métodos de encriptação, a Electronic Frontier Foundation, entidade que luta pela liberdade de expressão na Rede e a Free Software Foundation, criada por Richard Stallman para defender a liberdade de uso do software. No entanto, até nas indicações bibliográficas o livro é melhor que o site: paradoxalmente, na obra em papel você encontrará mais endereços de sites para visitar, como por exemplo o sempre atual ensaio de Eric Raymond, The Cathedral and the Bazaar.

Fácil de ler e de compreender, A Ética dos Hackers não é um livro de filosofia, sociologia ou política, pelo menos não no sentido estereotipado ao qual infelizmente ainda estamos tão (mal) acostumados. Este é um livro sobre a nossa sociedade. Hoje. [web insider]

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Sobre o autor

Fábio FernandesFábio Fernandes (zeroabsoluto@gmail.com) é jornalista, escritor e tradutor. Mantém o blog Pós-estranho.

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Comentários

1 pessoa comentou o artigo "Hackers são bandidos ou mocinhos?"

marcelo Data: 17/12/2007 às 21:42

Atividade: academia

Cidade: floripa

eu quero achar uma forma de usar racker bons
naum vejo nada de mau
mais um programa sem virus

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