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Faz sentido sim trabalhar com música na web

31 de julho de 2001, 0:00

Opinião: modelo de distribuição de CDs usado no Brasil é inadequado e ineficiente porque desperdiça oportunidades e talentos. Um misto de pontocom com venda em bancas pode ser a saída.

Por Nenhum

André Bártoli

"No futuro, todos seremos conhecidos por 15 minutos" (Andy Warhol)

Nos tempos que estamos atravessando, música e internet vêm se confundindo e se misturando. Hoje uma se utiliza da outra, gerando resultados bastante interessantes. A música hoje é noticiada, gravada, transmitida e vendida via internet. Bandas se formam e se diluem, CDs e DVDs são lançados e consagrados, sites e portais surgem e desaparecem toda semana.

Porém, de tudo isso fica o recado de que a internet e a música são uma realidade. Prova disso é o Napster, que chegou a responder por 41% de todo o tráfego de dados da web inteira. De acordo com a Forrester, o download digital de músicas adicionará US$ 1,1 bilhões para a indústria de música até o ano 2003. A Jupiter prediz que as vendas de músicas online crescerão US$ 1,6 bilhão em 2002. A Music Business International afirma que devem chegar a US$ 5,2 bilhões em 2005. A Live 365, maior radio online do mundo, afirma que o mercado de rádio online em dois anos será maior do que o da rádio offline, que é de US$ 20 bilhões. Etc, etc, etc…

Porém, esses dados mostram apenas uma face da moeda. A outra provém da própria cultura atual, do capitalismo do descartável, ou simplesmente da maneira como a música é comercializada hoje em dia.

Bandas que aparecem e somem em um espaço de um mês (alguém aí ainda lembra do Bonde do Tigrão?) criam um mercado viciado em resultados espetaculares em cada vez menos tempo. Isto demanda cada vez mais e mais investimentos para um "tempo de colheita" cada vez menor. É o "efeito estufa fonográfico", no qual o "aquecimento global" (ou o vício do qual falei), reduz o tempo da colheita e aumenta o investimento necessário para se plantar e colher. São os 15 minutos do Andy Warhol que mencionei acima.

Porém, o sistema de distribuição da colheita (no nosso modelo, a colheita é o CD) continua lento e ineficaz. Enquanto as rádios já estão tocando a última Dança da Vassoura (ou de algum outro artigo do lar…), o CD ainda não está disponível na pequena e pacata cidade de Chapecó do Tiribum, perto de onde São Judas perdeu sabe lá o quê. Se finalmente o CD chegar, nem adianta pois agora a vassoura é a manivela… Claramente, se faz necessário um novo modelo de distribuição que se adeqüe a cada vez menores prazos de sucesso. Uma nova maneira de se distribuir música que não dependa de um meio físico (o CD), algo mais rápido e eficaz.

Quer um sistema de distribuição nacional e comprovado? Existem mais de 650 mil bancas de jornal no país, contra umas 40 mil lojas de CDs. Quer melhor meio de divulgar um artista? Vá a minúsculas cidades e perceberá que o povo pode não ter nem o que comer, mas não dispensa o celular e computador com acesso à web. Fica claro então que há sim maneiras de se chegar rápida e eficazmente ao consumidor e quem conseguir captar essas maneiras tem o futuro assegurado. E a internet é suprema nisto. Que ela funciona maravilhosamente para determinadas coisas já deixou de ser conversa de roda de chope faz tempo. Por que você acha que os bancos investiram tanto em sistemas online? Apenas para facilitar nossa vida? Não! Porque corta enormemente os custos!

Assim, a internet e a música fazem um casamento excelente, na medida em que é possível atrair, promover, distribuir e vender um músico que não está sendo atraído, promovido, distribuído e nem vendido pela indústria fonográfica atual.

Este novo formato vem unir duas demandas reprimidas, por diversos fatores, no Brasil:

a) O desejo de muitos músicos bons, de variados gêneros e com potencial de crescimento, de divulgar o seu trabalho, mas sem recursos para investir;

b) O desejo do público (impossível de ser precisamente definido, já que todo mundo ouve música) de ouvir música de uma forma rápida, barata, confortável e acessível a qualquer momento.

Como trabalhar? Aproveitando o material musical excedente de bons músicos que as gravadoras não conseguem aproveitar. Algo parecido ao modelo do Excesschannel.com, que canaliza material de escritório excedente. Fazendo uma breve analogia, é como se o dono da gravadora fosse muito gordo para buscar pérolas no fundo do mar, tendo que se limitar às que chegam à praia. Então nós, que somos magrinhos e ágeis, vamos ao fundo e pegamos a pérola, ou o artista ainda não descoberto, ou esperando para estourar; o seu passe, o seu futuro CD e a trajetória de shows e repercussão que isso irá gerar.

Por que optei por trabalhar com música online? Porque me sinto em casa e acredito no sistema.

Explico. Cresci freqüentando o Circo Voador (leia–se Pato Banton, Blues Etílicos e o papa Celso Blues Boy, entre muitos outros) e os shows no Arpoador (Blitz, Léo Jaime, Biquini Cavadão…) ea música está no meu sangue. Entretanto, mais do que isso, está em mim a energia positiva que ela nos traz. A positive vibration, o clima, o groove, o vibe dos shows, riffs e solos. Sou amante da Dave Matthews Band (que show foi aquele no Rock in Rio?!?!), Gin Blossoms e Ani di Franco, só para citar alguns. (Os leitores que se identificarem com o trecho acima estão convidados a me escrever para continuarmos esse bate–bola.)

A atual descrença no mercado de internet é natural. Vendo os casos de Boo.com, Eyada, MusicMaker e o clássico Napster, compreende–se o desânimo e o pé atrás de investidores, empreendedores e do próprio público. O "compra–e–vende, abre–e–fecha 6–meses–depois" desgasta a imagem dos que operam no ramo, apesar do sucesso e credibilidade. Porém, acho que estamos no caminho certo, pois um modelo misto gravadora+pontocom de certa maneira nos isola dos solavancos nasdaquianos. Assim, se a internet falir ou não, estaremos aí, sempre levando ao público um trabalho interessante, atual e inovador. [web insider]

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