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Conteúdo monetizável e jornalismo de qualidade

11 de junho de 2001, 0:00

A busca por mais audiência e receitas imediatas e a adoção de um raciocínio típico de mídias de massa para a criação de conteúdo na internet pode pôr em risco o jornalismo digital.

Por Roberto Cassano

Buzzwords são aqueles termos que, de tempos em tempos, monopolizam palestras, seminários, reuniões gerenciais e até rodas de conversa de profissionais da chamada Nova Economia. Nosso mercado é repleto deles: "conteúdo", "personalização", "usabilidade", "IPO", "marketing de permissão", "B2B", "B2C" e, mais recentemente, "convergência de mídias".

Ultimamente tenho ouvido com freqüência um novo termo que soa assustador para quem está acostumado a trabalhar com jornalismo e produção de conteúdo de uma forma geral.

Quando se prepara um lançamento de um produto, não basta saber se ele funciona ou se é bonito. É preciso ter em mãos um estudo que garanta que as pessoas vão querer comprá–lo e que suas vendas possibilitarão, cedo ou tarde, o retorno sobre o investimento que os fabricantes tiveram para produzi–lo. É assim que funciona o capitalismo. Com a globalização (olha outra buzzword aí gente!) e a busca desesperada por um modelo de negócios sólido para a internet, a estrutura de todas as empresas que atuam online (as antigas pontocom) torna–se similar: um fornecedor e/ou um distribuidor, um produto, e um ou mais mercados consumidores. A grosso modo, o modelo pode realmente ser aplicado a todos, e deve haver sempre dinheiro circulando entre estes elementos desta cadeia produtiva.

Por este ponto de vista, se uma empresa produz conteúdo, o conteúdo é o produto e ele deve ser, a curto ou médio prazo, fonte de receita que garanta lucro aos acionistas da empresa. E ponto final. Existem mil e uma maneiras de se ganhar dinheiro com conteúdo, mas três são os modelos mais óbvios: com publicidade, com assinatura, ou com um misto de ambos.

A atual massa de usuários da internet, chamada pelos técnicos de "usuários de banda estreita", decididamente não está interessada em pagar por 90% do conteúdo disponível na rede, por motivos que por si só já valeriam um artigo inteiro.

Resta a alternativa da publicidade, fonte que secou, transformando–se de um Amazonas para um Saara em menos de seis meses. E aí?

Quem está fora dos oásis que restaram, pode optar por fechar as portas ou mudar o modelo de negócio. Para estes, a esperança é a banda larga, que teoricamente exigirá uma mudança de mentalidade por parte dos usuários, como na relação TV aberta vs. TV por assinatura. Se o conteúdo passará a ser vendido para os usuários, ele precisa ser um conteúdo monetizável. Esta é a buzzword que tanto me preocupa. E enquanto a banda larga não chega, a monetização deste conteúdo precisa ser feita, ainda, via publicidade, o que leva à exigência de um aumento significativo da audiência.

Exemplos claros da exigência de monetização do conteúdo podem ser vistos na programação dominical das emissoras de TV aberta. Seu conteúdo pobre, sempre na tênue fronteira entre ética e sensacionalismo, e sem nenhuma qualidade e informação relevante, são frutos do chamado efeito Ibope. Se salas de chat, canais de sexo e jogos representam o grosso da audiência dos principais portais brasileiros, quem investirá na produção de um jornalismo digital inovador, por exemplo?

É claro que este efeito Ibope atinge principalmente os grandes portais horizontais, mas são justamente estes que respondem por quase a totalidade dos page views gerados no Brasil.

Seguindo o exemplo da TV aberta, poderia se deduzir que conteúdo bom gera renome enquanto conteúdo pobre gera audiência (e publicidade). Na luta por melhores resultados financeiros, pode–se esperar uma brutal queda de qualidade nos sites da internet brasileira, com resultados questionáveis.

É muito difícil definir com clareza um conteúdo monetizável, principalmente se caminhamos para uma efetiva realidade de comunicação 1 para 1, em contraposição ao broadcast da TV. Se o objetivo é tratar o internauta como indivíduo, como rotular o conteúdo que ele assiste? E tratar a internet como mídia de massa (o que ela definitivamente não é) resolve o problema, mesmo a curto prazo?

É importante ressaltar que o debate sobre que conteúdos são monetizáveis na internet está apenas começando, e ele deverá incluir outros aspectos sobre perfil do público, capacidade de cada fatia do mercado de gerar outras fontes de receita além do click through, como assinaturas ou e–commerce, tempo, personalização etc etc etc. O fundamental, por agora, é começarmos a pensar em alternativas e soluções, com foco no produto, para apresentar aos nossos acionistas e CEOs, que têm foco no negócio. E precisam mais é monetizar. [web insider]

Sobre o autor

Roberto Cassano (rcassano no Twitter) é blogueiro e diretor de estratégia da Agência Frog.

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