Setores que jogam contra a própria empresa
03 de abril de 2001, 0:00Empresas de tecnologia e internet enfrentam dificuldades de toda a sorte, mas os piores inimigos podem estar dentro de casa, minando silenciosamente cada avanço que se consegue.
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A foto da equipe original da Microsoft (um bando de cabeludos aparentemente saído de Woodstock) por algum motivo me faz pensar nos erros que levam tantas empresas de tecnologia e internet ao fracasso.
É o retrato de uma empresa quando jovem, antes de enfrentar o perigo escondido em pelo menos quatro conjuntos de pessoas e funções que normalmente jogam contra:
1. RH
Especialista em filtrar apenas candidatos padronizados, com ênfase em critérios como roupas certinhas e conversa saída de um manual da Catho. Não espere que aquele programador esquisitão, mas dedicado e competente, passe pelo crivo do setor.
Também não espere que passe aquele outro gerente que visivelmente adicionaria imenso valor à empresa mas não preenche exatamente as condições técnicas solicitadas pelo setor X. Nessa lógica, os cabeludos da foto nunca seriam escolhidos!
Qualquer consultoria afirmará, com total razão e experiência, que as pessoas são o ativo mais importante da empresa. O problema é que coloca–se na mão de alguém que pouco ou nada entende de tecnologia a responsabilidade de escolher e remunerar este ativo. Resultado: pontocoms cheias de estrelas que não entendem bulhufas de internet e só pensam no seu próximo emprego.
2. IT
Talvez o setor menos comprometido com a empresa. A chefia quase sempre está com alguém mais interessado em fazer cursos e adquirir tecnologias para encher o currículo do que em avaliar se tais cursos e tecnologias são realmente necessárias.
Para a empresa as mais modernas tecnologias podem ser também um perigo. Muitas vezes o ganho de produtividade não compensa o investimento em funcionários que mudam de empresa para ganhar mais tão logo enriquecem o currículo com a experiência – justamente porque conhecem a nova tecnologia.
Fora os custos de implementação de tais tecnologias, muitas vezes ainda não totalmente provadas, e a instabilidade que geram.
3. Teleatendimento
"– Empresa Xpto, operadora Zericleide falando, em que posso ajudá–lo?". A voz anasalada e o tom morticínio da frase inicial já são suficientes para antecipar, com incrível precisão, que não conseguirei virar cliente.
Em uma operadora de TV por assinatura que oferece internet de banda larga tive que ligar seis vezes até conseguir fechar negócio da maneira que queria. Porém, quando finalmente consegui um operador que confessou não ser realmente necessário o que os outros diziam imprescindível, fiquei irritado e não fechei negócio.
Como a informação obviamente não constava no procedimento feijão–com–arroz que os operadores conhecem, eles se limitavam a dizer que eu não poderia fazer parte do seleto rol dos clientes da empresa, que por sinal vive no vermelho… O milionário CRM que o operador possui à disposição não é nem 1% aproveitado, o que fica evidente pelo tempo enorme que consome em qualquer pergunta fora do normal, quando inúmeras teclas são pressionadas na tentativa dechegar à tela que mostra a resposta.
4. Investidores
Chamar o investidor de prejudicial nestes tempos de hoje é, no mínimo, uma temeridade. Porém, quando olhamos friamente alguns casos, fica realmente a dúvida.
Lembro de várias histórias contadas por donos de pontocoms sobre como foram obrigados a adquirir tecnologias, desenvolver produtos e soluções pouco mais que inúteis apenas para não desagradar o investidor.
Monitores especiais, serviços que ninguém usa, softwares de gerenciamento de conteúdo que não resolvem, salas lindas e caras são apenas alguns equívocos que todos conhecemos. Quando o dinheiro acaba mais cedo que deveria, pouco adianta o investidor reconhecer que foi em parte graças aos gastos inúteis que recomendou. Em certos casos, o investidor é uma faca de dois gumes: ele permite que a empresa se desenvolva da maneira sonhada, mas no processoacaba empurrando para um lugar à sombra que do planejara ser.
Pior é quando o investidor e o criador do site não se acertam, cada um achando que entende mais do que o outro. Guerrinhas pessoais, egos machucados e ameaças de "Olha que eu corto o fluxo de grana!" são infelizmente muito comuns e podem ser mortais.
Fazer parte do board de uma empresa onde os pares não conseguem nem tomar café sem sair briga é realmente dureza. Quando isso acontece, vale mais a pena identificar o que contribui para se chegar a esta situação. Que este pequeno artigo sirva de ponto de partida… [web insider]
