Celular entra em novo ciclo no Brasil
28 de março de 2001, 0:00Quatro anos depois de migrar do analógico para o digital, a telefonia celular inicia novo ciclo de investimentos em tecnologia. Veja exatamente onde estamos e, quem sabe, para onde vamos.
Por
Renata de Freitas, da Reuters
As operadoras de telefonia celular estão iniciando no Brasil mais um ciclo de investimentos para adequar suas redes às novas tecnologias, apenas quatro anos depois de terem travado uma batalha que levou à migração do padrão analógico (que só permitia voz) para o digital.
Nesse novo ciclo, o padrão digital que acabou dominante no Brasil foi o Time Division for Multiple Access (TDMA), que tende a desaparecer pois o desenvolvimento dessa tecnologia foi abandonado pelos fabricantes.
Em seu lugar invade o Brasil a tecnologia Global System for Mobile Communications (GSM), que vai ser utilizada pelas novas empresas das bandas D e E, mas que é também a saída para as operadoras TDMA oferecerem serviços de dados de alta velocidade, como o download de vídeo no celular.
Na outra raia, correm as três operadoras de telefonia celular brasileiras que optaram pelo padrão Code Division for Multiple Access (CDMA) na batalha de quatro anos atrás –Telefônica Celular, Telesp Celular e Global Telecom. Elas prometem serviço de dados avançados já no último trimestre do ano, mantendo o mesmo padrão com algumas atualizações.
Toda essa renovação tecnológica precede outra, a da Terceira Geração (3G), que já está no horizonte. Se essas mudanças são uma evolução ou uma revolução para as operadoras foi o tema de um debate entre representantes da indústria, de operadoras e especialistas realizado recentemente na Telexpo, feira e congresso de telecomunicações.
"As operadoras terão que definir se investem pesado em se tornar um provedor total de serviços ou se vão ficar aonde estão", alertou o vice–presidente para América Latina do instituto de pesquisas Yankee Group, Dario Dal Piaz. "Neste momento as operadoras estão vivendo essa decisão internamente", disse.
Dal Piaz não apresentou números, mas comentou que a evolução da tecnologia CDMA para a chamada geração dois–e–meio (2,5G) do celular é menos onerosa do que a criação de uma rede GSM sobreposta à de TDMA que a maioria das operadoras terá que fazer. Para conseguir a faixa adicional em que será instalada essa rede sobreposta, as operadoras serão obrigadas a aceitar as novas regras que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estabeleceu para o setor.
Representantes da Nokia e da Ericsson afirmaram que existem equipamentos disponíveis para essa rede GSM sobreposta e prometem entregar a tempo aparelhos celulares que poderão falar tanto em TDMA quanto em GSM.
Troca de aparelho
O usuário que quiser utilizar os recursos da tecnologia 2,5G terá, no entanto, que mudar para a tecnologia GSM e trocar de aparelho. Segundo a indústria, os ganhos de escala com o número cada vez maior de operadoras de telefonia celular que aderem ao GSM vão permitir preços mais competitivos.
No caso da tecnologia CDMA, o cliente também terá que trocar de aparelho, já que os atuais dos clientes das três operadoras não permitem conseguir a velocidade de 144 Kilobits por segundo prometida no novo serviço. Os terminais com o WAP (Wireless Application Protocol), que chegaram ao mercado brasileiro há menos de um ano, permitem acessar a internet na velocidade máxima de 14,4 Kbps.
O diretor de Estratégias de Evolução de Redes Móveis da Ericsson, Mario Consentino, promete os novos aparelhos CDMA para setembro. Ele admite que o ganho de escala pode ser menor porque atenderá clientes de apenas três operadoras no Brasil, mas um contrato de fornecimento para a americana Sprint vai garantir mais volume de produção.
Terceira geração
Depois de fazer investimentos na 2,5G, as operadoras terão que se preparar para mais uma evolução. Segundo o diretor de Marketing da Tess, operadora da banda B do interior e litoral de São Paulo, Johan Fager, a 3G não chegará no Brasil antes de 2004 ou 2005, embora a Anatel tenha informado que vai começar a tratar do assunto em 2002.
A decisão das operadoras de investir em 3G não está, no entanto, tão clara. Fager apresentou um business case elaborado pela consultoria Stern Stewart, em que as operadoras suecas só conseguiriam recuperar os investimentos na 3G se a receita média por usuário (Arpu) passasse de 38 dólares para 206 dólares por mês.
Condicionante importante nesse business case é que 61 em cada cem suecos têm celulares. No Brasil, a taxa ainda é de 14 por cento, podendo chegar a 33 por cento em 2005. A receita média das operadoras com os 22 milhões de brasileiros que usam o celular é de apenas 22 reais, ou 10 dólares.
Segundo projeções do executivo da Tess, em 2005, o Brasil terá 2,4 milhões de usuários da 3G dos 58 milhões previstos utilizando celulares.
Para recuperar a queda com as receitas de voz decorrente da inclusão de consumidores de mais baixa renda no mercado de celular, as operadoras terão que lançar serviços de valor agregado, como o videomail, mas vão buscar soluções de divisão dos riscos do investimento.
"A gente tem que achar quem vai pagar essa conta porque a população não vai fazer isso, não", disse o executivo da Tess. "Provavelmente vamos ter que subsidiar a operação 3G com a atual", afirmou Fager. "Ou talvez a gente pare numa solução 2,5G turbinada", acrescentou. [web insider]
