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Fernando Villela
Sem fio

Zen e a arte da internet móvel

19 de março de 2001, 0:00

O fantástico futuro da internet sem fio já é realidade pura no Japão.

Por Fernando Villela

"My work is a game, a very serious game" M.C Escher

Sentada no banco do metrô, a estudante espia o horóscopo no telefone e, enquanto sua estação não chega, checa o e–mail do celular.

Na fila do banco, o executivo.comconfere as mais recentes quedas nas cotações da bolsa. Dali mesmo liga pro escritório, avisando da necessidade de uma mudança radical nos planos.

Depois de passar o dia todo com o novo sucesso do J–Pop batucando na cabeça, o jovem resolve instalar a melodia como um ring tone . "Na próxima vez em que alguém murmurar a música" – pensa o rapaz– "vou sacar o celular e tirar uma onda danada com este novo toque!"

Seriam cenas de mais uma bela campanha publicitária dos fabricantes de aparelhos? Nada disso. Na verdade, situações como essas (e outras mais difíceis de explicar, de tão complexas e diferentes culturalmente) fazem parte do dia–a–dia de milhares e milhares de japoneses. Os orientais já estão vivendo hoje uma realidade tecnológica que sem dúvida fará parte da nossa vida daqui há alguns anos – quer você queira ou não.

Durante o carnaval, junto a outros companheiros do SeliG, fomos conferir in loco o badalado mercado de internet móvel japonês. Depois de tanto ouvir falar que lá era o "ninho" da internet sem fio, partimos para ver de perto a interação do povo nipônico com os moderníssimos kentai – nome que dão ao telefone celular.

Com meus próprios olhos, tive a oportunidade de presenciar a imersão da internet móvel no cotidiano de uma sociedade. Fiquei inteiramente deslumbrado nas centenas de vezes em que flagrei os japoneses em transe virtual com o seu "companheiro" celular, em ambiente público. Companheiro, sim, porque os terminais japoneses vão muito além do que os telefones celulares que conhecemos.

De fato, é uma cena bastante comum de se presenciar atualmente em Tóquio – uma pessoa literalmente ligadona, absorvendo informações do celular. Atravessando a rua, na fila do banco, parada na calçada, esperando o sinal abrir (tá bom, farol para os paulistas), dentro das lojas, nos bares e restaurantes, no metrô, no McDonald´s. O mundo pulsando frenético ao redor, intensa agitação para todos os lados e o japonês lá, com aquele tradicional jeito zen, completamente desligado da realidade: com o telefone celular na mão e o cérebro conectado em algum lugar dentro dele. Zumbis telecibernéticos perambulando em meio ao cenário urbano.

O pior de tudo é que naquela cena, o estranho era eu – afinal, japonês com i–Mode é um personagem absolutamente normal naquele contexto. E eu, o gaijin, o gringo ocidental, latino – espécie de caipira mineiro perdido na sociedade moderna, olhando com uma cara boba de espanto. =:–o

Existem aproximadamente 60 milhões de celulares no Japão. As pesquisas indicam que um terço deles, 20 milhões, acessam a internet. Os mais céticos defendem que apenas uma pequena porcentagem desse número (25%) realmente usa os serviços da internet móvel. De qualquer modo, pelo menos em Tóquio e nos centros urbanos, a penetração do acesso wireless já é bastante significativa.

O boom começou há dois anos, com o lançamento do i–Mode (= "Interactive Mode") pela operadora NTT DoCoMo. Para quem ainda não sabe – mas já deve ter ouvido falar – o i–Mode é uma plataforma de acesso à internet móvel, com suporte às imagens coloridas, download de sons (ring tones) e papéis de parede animados. O serviço de e–mail também vem embutido no sistema do aparelho i–Mode. A DoCoMo, desde então, sempre incentivou a produção pública de conteúdo pro i–Mode (em cHTML, ou seja, "Compact HTML"). A estratégia deu certo: com uma variedade imensurável deatrativos e serviços, os japoneses tomaram gosto pela brincadeira.

Outras duas grandes operadoras competem no Japão, no rastro da DoCoMo: a KDDI, que utiliza WAP (colorido!), vem em segundo lugar, com alguns milhões de usuários, atacando agressivamente para conquistar espaço sobre a DoCoMo. E por último a J–Phone (da Vodafone e British Telecom) com um serviço wireless proprietário, mas também colorido e com ring tones – embora mais lento e inferior ao i–Mode.

No momento, o grande hype da J–Phone é um terminal com uma camerazinha acoplada, que tira fotos digitais instantâneas. Como se já não fosse muito, uma mini–impressora portátil, vendida como acessório, imprime a foto na hora. Falando em oba–oba, a DoCoMo está fazendo muito barulho também, fora o i–Mode, com os celulares que tocam MP3.

Vale comentar: no Japão é muito comum a venda em lojas e camelôs de kits com cabos e plugues para conectar os diversos modelos de telefones celulares nos notebooks e desktops, para ligá–los à internet. É a função conhecida como transmissão de dados, em que o telefone celular funciona ele mesmo como um modem para a conexão. Esta capacidade já existe em todos os terminais WAP à venda no Brasil, mas o uso dessa função nunca foi muito divulgado por aqui – além de que os kits de conexão ainda são bem raros em nosso mercado.

E quando o i–Mode chegará aqui? Em algum momento do ano que vem, se Deus for realmente brasileiro, teremos a estréia da nova versão Wap NG (NG = New Generation) que já integra em si a plataforma i–Mode, licenciada para o Wapforum.org pela NTT DoCoMo. Quando isso acontecer, porém, os nipônicos estarão em um outro nível da internet móvel. Espero poder viajar até lá novamente em 2002, para conhecer as próximas novidades do mundo moderno. <;–)

Em breve, vou falar aqui da terceira geração (3G), uma nova revolução que estréia no Japão ainda nesse semestre. Sayounará! [web insider]

Sobre o autor

Fernando VillelaFernando Villela era Content Senior Manager da Blah! quando faleceu, em julho de 2004

Apoio:

  • LayerDev Serviços de Webhosting Profissional

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