Cala a boca e continua nadando
01 de fevereiro de 2001, 0:00Porque 2001 será o ano mais difÃcil e mais importante para a internet no mundo.
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Meus queridos, aqui estamos: fevereiro de 2001. Os que aqui chegaram, podem se considerar sobreviventes, ou náufragos de um barco que ia rápido, superlotado e sem destino certo.
Era uma situação previsÃvel, esperada, mas nada desejável e ela aconteceu. A Nasdaq afundou na segunda metade de 2000 e com ela, praticamente todo o universo de empresas pontocom de que se tem notÃcia. Tão rápido ou quem sabe ainda mais rápido do que começou, o movimento foi por água adentro e para o fundo.
E a partir daà vieram as demissões, falências, descrenças, desconfianças e até suspiros aliviados de parte daquela maioria que estava vendo o barco passar mais ainda não tinha subido à bordo. Inevitável não ter escutado, ao menos uma vez, aquele comentário de corredor: "Sabia que esse lance de internet não ia dar em nada. Falei que era moda".
Os "estragadinhos da Web" começando a sentir um movimento inverso no mercado, onde já sobram profissionais e faltam vagas. E na lei da oferta e da procura, isso não pode significar outra coisa a não ser salários mais baixos. NotÃcias de sites fechando todos os dias, cortes em massa, extinção.
O que isso tudo significa afinal? A internet então acabou? Era mesmo tudo um modismo? O que vai ser da promessa digital agora?
O óbvio é óbvio, mas precisa ser dito: as coisas estão simplesmente caminhando para o seu estado normal.
Estava tudo errado. Completamente errado. Mas era um mundo tão desconhecido e diferente que as pessoas simplesmente não conseguiam se dar conta do que estava acontecendo e de quão surreal era aquela situação.
Nas entrevistas com os ex–CEOs de pontocoms recém–falidas, a resposta mais comum para a pergunta "o que deu errado?", era: "agora percebemos que nossa empresa precisava gerar lucro e que construir uma marca não era o bastante". Um pouco óbvio demais, não acham?
So here’s the deal: todos já sabem, a grana fácil acabou. É tão simples quanto isso. E se não há grana grátis, tudo precisa funcionar de acordo com a lógica de sempre. Negócios rentáveis, clientes, vendas, modelos financeiros lógicos, sem nenhuma "mágica digital".
Então, a má notÃcia é que neste caso, nos deparamos com uma realidade onde menos de 5% da população está online, dos quais 0,5% costumam realizar algum tipo de compra via internet. Um paÃs sem cultura de compra por catálogo, onde se usa pouco o cartão de crédito, onde há pouca padronização nos produtos (dois pares de sapatos 41 nunca são do mesmo tamanho), onde a cultura das empresas tradicionais ainda engatinha no uso da internet para a comunicação com seus clientes.
Aonde isso nos leva? Ao mais óbvio dos lugares: a normalidade. A gente precisa encarar. Éassim mesmo a nossa realidade e assim ela vai permanecer ainda por um bom tempo.
Mas continuo acreditando na grande revolução digital. A internet no Brasil, assim como no resto do mundo será fabulosa. Irá transformar a realidade, a sociedade, a forma como vivemos e nos comunicamos. Mas isso simplesmente não vai acontecer de uma hora para a outra e não importa quanta grana a gente bote nisso. Acabou de ser provado.
Daqui para frente, é encarar a realidade e trabalhar na construção de projetos sólidos e auto–sustentáveis, adequados ao mercado e ao público do qual dispomos. Não tem outro jeito. É assim que as coisas são.
2001 definitivamente será um divisor de águas para este assunto. Dos que estamos aqui, aqueles que conseguirem adaptar seus planos de negócio e suas empresas para que elas sobrevivam na realidade do nosso mercado, estarão a salvo e no rumo certo do crescimento da internet no Brasil. Leve isso o tempo que levar.
E até lá, como dizia a mãe para a filha a caminho de Londres, quando ela reclamava que ainda faltava muito para chegar: "cala a boca e continua nadando, menina".
Feliz ano para todos. [web insider]

