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E a ciência descobriu o marketing…

17 de janeiro de 2001, 0:00

A notícia de uma invenção que seria capaz de mudar o mundo levanta várias reflexões que podem muito bem se aplicar ao Brasil.

Por Nenhum

Luiz Augusto Siqueira

Sempre desconfiei da indústria de software. Você paga por um produto sem saber muito bem se ele serve para tudo o que quer. Leva–o para casa e, quando vai rodar… bug! Em toda a história da humanidade, essa indústria tem sido a única do mundo que vende produtos semi–prontos. Sempre haverá um pacotinho com consertos para a velha versão e novos produtos criados em função do conserto.

Bill Gates jamais conseguiu fazer uma demonstração de lançamento do Windows que não desse problema. Embora clichê, a comparação é inevitável: você compraria um carro semi–pronto – a versão 1.1 de um carro? Ou esperaria chegar até a 5.0? Quem sabe na 5.5 ele já não estaria melhor?

A julgar pelo que se viu na semana passada, a indústria de software não é mais a única a apostar suas cartas no marketing. Anunciada aos quatro cantos do mundo com o codinome de "ginger" ou "a coisa", a misteriosa maravilha "prometemudar o mundo como a internet ou os computadores pessoais".

O inventor, Dean Kamen e os investidores estão tão certos do poder dessa coisa que já saíram anunciando aos quatro ventos frases enigmáticas sobre o seu potencial. Não importa muito se ela vai ou não ser revolucionária. Provavelmente será algo no mínimo interessante, já que atrás dela estão vários nomes associados a iniciativas que já deram certo e foram revolucionárias no seu tempo.

O que importa é que acaba de ser criada uma nova modalidade de marketing: o futurista. Basta olhar para trás, para as grandes invenções do século passado, para notar que nenhuma foi alardeada como a grande invenção que iria nos salvar desse ou daquele problema.

Pelo contrário: a maioria das invenções, quando surgiu, penou até ser aceita. Muita gente achou que a televisão não serviria para nada. O próprio inventor do cinema não acreditava que ele seria algo comercializável. Pensava–se que o telefone iria ter a função do rádio e vice–versa. E por aí vai…

As invenções mais úteis hoje fazem parte de nosso dia–a–dia de tal forma que não conseguimos imaginar nossa vida sem elas. Esse é o ponto. Até agora, a maioria das coisas "revolucionárias" só foi ser reconhecida muito tempo depois como tal. Com a campanha de Kamen, vende–se um produto útil, barato e provavelmente futurista antes mesmo de ele estar pronto, testado e aprovado.

Se essa coisa der certo, prepare–se para ser bombardeado por anúncios (com um ano de antecedência) sobre a cura da AIDS, o fim da fome e produtos miraculosos e revolucionários que vão custar barato e mudar sua vida. E aí é que mora o perigo.

Desconfio que essa invenção de Kamen, apesar de toda a sua seriedade, não vai mudar o mundo tanto assim. Aliás, para isso seriam necessárias várias invenções. O próprio cientista, depois da avalanche de especulações, já advertiu para que não se espere uma coisa que abale as estruturas da Terra.

Afinal de contas, tudo indica que a invenção de Kamen não passe de um patinete motorizado hi–tech. Mas e se não for? Aí, sim, estaremosdiante de uma possível mudança de paradigma na propulsão – deixaríamos os motores de combustão para as chamadas "stirling engines". Esse nome foi dado em homenagem ao ministro escocês Robert Stirling, que patenteou o "Economizer", uma engenhoca movida pela compressão e expansão de combustível.

As engenhocas Stirling vêm sendo estudadas na NASA para fornecer energia solar a veículos espaciais. Um aparelho desses será viável quando for não–poluente e tiver fonte de energia barata, para acabar com a dependência do petróleo e seus derivados. E ainda assim teria que enfrentar a poderosa indústria automobilística mundial, que não vai gostar nada da concorrência…

Já existem várias especulações interessantes nos moldes dos melhores capítulos do seriado de TV Arquivo X. Uma delas apela para um artigo do Observer, que mostra que os militares estão pesquisando energia de ponto zero, uma forma de energia limpa. Ou um patinete movida a moto contínuo. Ou aquele skate voador de De Volta para o Futuro II. Ou patinetes anti–gravidade. Há quem sonhe com o teletransporte do filme Jornada nas Estrelas (eu, por exemplo). Ou um patinete voador. Delírios? Nem tanto…

Se Kamen aparecer com uma engenhoca Stirling já será uma grande avanço. Eis o cerne da questão: não é à toa que o protótipo de Kamen mexeu com meio mundo.

Precisamos de cada vez mais milagres da tecnologia para resolver problemas que criamos ao inventar outros milagres para nosso conforto. O carro, por exemplo, resolveu o problema da distância, mas criou a poluição. A poluição, o problema do superaquecimento. O mundo precisa com urgência de invenções mais inteligentes, ecológicas e baratas. Um exemplo bastante prático: o carro é uma máquina obsoleta nas ruas das grandes cidades. Quando uma pessoa ou bicicleta anda mais rápido do que um automóvel, alguma coisa está errada.

Quem sabe não seja esta uma boa lição para nossas universidades e para nossa iniciativa privada? Inventar coisas boas, criativas e baratas que resolvam antigos problemas nacionais, principalmente. Por que não listamos os principais para desafiar nossos cérebros? Se adaptarmos a estratégia marqueteira de Kamen ao nosso jeitinho, talvez consigamos finalmente alavancar os nossos cientistas para projetos urgentes e relevantes, que possam não mudar o mundo, mas resolver problemas do Brasil…[web insider]

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