Brasil tenta se firmar como exportador de software
28 de dezembro de 2000, 0:00Venda de software agrícola para a China é mais um exemplo de indústria que vem aumentando receita com exportações. Governo brasileiro está investindo.
Por
Renata de Freitas, da Reuters
Uma pequena empresa do interior de São Paulo, a Sira, fechou em dezembro contrato de US$ 500 mil para exportação de softwares do setor agrícola para a China.
Aproximadamente 2.500 pequenas empresas formam no Brasil um mercado de software de US$ 3,4 bilhões, segundo dados oficiais. Para a secretária de política de informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, Wanda Scartezini, a Sira é um exemplo do potencial do software brasileiro.
"O Brasil nunca vai deixar de ter importações, mas podemos aumentar a produção de tal forma que a exportação seja uma solução natural", declarou Scartezini, em Brasília.
A Fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD), que até 1998 era ligada à estatal Telebrás, passou a exportar softwares especializados aos Estados Unidos este ano. Fechou contratos com as operadoras RuralTel, do Estado do Kansas, e GlobalTron, da cidade de Nova York.
Em janeiro, o CPqD espera fechar a primeira exportação para a Europa, decorrente de uma parceria com a empresa alemã Detecon, da operadora Deutsche Telekom, segundo o vice–presidente de Desenvolvimento de Negócios, Torsten Bojlesen. O faturamento do CPqD em 2000 pode chegar aos R$ 250 milhões.
Na Sira, que estima faturamento de R$ 1,2 milhão em 2000, dois dos 14 funcionários altamente especializados trabalham em versões no dialeto mandarim dos softwares importados pela empresa chinesa de tecnologia Lupan.
Apesar desses casos de sucesso, o governo federal tenta estimular as vendas externas do setor porque o Brasil ainda não pode ser considerado um exportador de softwares.
Em 2000, a remessa de direitos intelectuais, referentes às importações de softwares, somou US$ 1,2 bilhão, enquanto as exportações foram de apenas US$ 100 milhões, o que resultou em um déficit de US$ 1,1 bilhão. A expectativa do governo é incrementar em 150% as exportações de software em dois anos, alcançando US$ 250 milhões.
"Hoje em dia existe outra lógica, uma postura governamental de que o Brasil deve se tornar um produtor de software", afirmou Scartezini.
A Índia, que tem sido apontada como o país onde ocorre uma explosão desse mercado, movimenta US$ 5,9 bilhões em softwares, de acordo com dados do governo brasileiro. Os investimentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no setor têm sido crescentes, refletindo o compromisso do governo com essa política. No primeiro semestre de 2001 devem ser alocados R$ 25 milhões para oito empresas.
Em todo o ano 2000 foram concedidos financiamentos de R$ 17 milhões para outras oito empresas. Entre 1998 e 1999, o BNDES havia distribuído R$ 7,5 milhões para cinco empresas.
Segundo o diretor comercial da Sira, Roberto Parducci Camargo, com apenas R$ 5 mil é possível montar uma infra–estrutura para desenvolver softwares. "O preconceito ainda é grande mais vai ser vencido se o software brasileiro for tecnologicamente atraente, com um diferencial significativo", afirmou Camargo.
A aproximação da Sira com a empresa chinesa Lupan se deu ao longo dos últimos três anos, após uma rodada de negócios promovida pela Sociedade Brasileira para a Promoção da Exportação de Software (Softex).
A Sira recebia amostras de solo e de tecido vegetal colhidas pela Lupan em plantações na China, depois submetidas a testes laboratoriais em Campinas. As análises eram enviadas pela internet para a Lupan.
Segundo Camargo, relatório da Lupan mostra que houve um aumento de 20% na produtividade das plantações de uva, por exemplo. "Com o aumento da produtividade confirmado, a empresa se interessou em ter esse sistema", afirmou.
Na negociação, a Sira está cedendo inicialmente os direitos de dois softwares, um de laboratório e o outro de fertilidade, para a Lupan, que poderá comercializá–los em território chinês. Num segundo momento, as duas empresas devem montar um instituto de desenvolvimento de softwares na China.
"O mercado chinês é muito grande e ávido para desenvolver novas soluções, disse Camargo. Numa estratégia de expansão comercial, a Sira está negociando também com o governo do Paraguai e com empresas argentinas. Nos Estados Unidos, as negociações ainda estão no início. [web insider]
